Crítica | Outside In

Em meio a um alvoroço em torno dos direitos dos presidiários, condenados não apenas pela justiça, mas também pelas pessoas, de maneira muitas vezes generalizada, Outside In mostra os bastidores da vida de um homem que passou os últimos 20 anos encarcerado. Se a obra, com direção de Lynn Shelton, já acerta em algo, em uma primeira instância, é no trabalho de empatia do espectador pelo protagonista. Os dias fora das grades da cadeia são bastante solitários, tendo em vista a negação feita a esse homem de uma juventude, da possibilidade da criação de laços de amizade e fomentação de sonhos profissionais. Passamos pela obra observando diversas pontuações em relação a essa característica da liberdade, extremamente ilusória, a qual é evidenciada em momentos pequenos, porém significativos. Em um outro plano, os motivos da prisão de Chris (Jay Duplass) também não são informados, permitindo ao público uma relação mais próxima do homem, sem conceituá-lo previamente de modo mais objetivo do que sua caracterização como ex-presidiário. Em determinada cena, Chris observa com pesar uma loja, subtendendo-se uma conexão dele com aquele lugar. A exposição acaba surgindo, mas é notável o interesse do texto em uma construção sólida anterior a essa facilitação. Indo além, o projeto acaba por almejar um personagem principal simpático ao espectador, adicionando ao seu passado a informação de que a prisão fora injusta, visto que o garoto, apesar de estar envolvido no crime, não o executou. Os 20 anos foram, enfim, perdidos, mas, no meio de tudo isso, uma mulher o ajudaria a conseguir sua liberdade, além de, mais importante que isso, manter sua sanidade.

Dessa forma, a obra não é realmente sobre o cotidiano de um ex-presidiário, apesar do trabalho decente que fora feito acerca disso, o qual torna-o um excelente pano de fundo para toda a narrativa, mas sobre a relação construída entre Chris, uma vez um garoto de 18 anos preso injustamente, e Carol (Edie Falco), sua antiga professora no colégio. Durante 20 anos, os personagens mantiveram contato através de cartas, diferentemente da família e dos amigos do jovem, que, de certa forma, o renegaram. A questionabilidade da aproximação, em um viés amoroso, entre os dois personagens existe, mas acaba sendo realmente difícil não comprar este afeto mútuo, certamente dependente. A solidão enclausura o homem, movendo-se também para o espectador, entendido de que a única saída para Chris é telefonar para Carol. Ambos os atores se saem bem em termos de química, contudo, o destaque, apesar da competente performance mais contida de Duplass, vai mesmo para Edie Falco, incorporando a dúvida de maneira absurdamente crível. De um lado, aquele que foi seu objeto de luta por 20 anos, enquanto do outro, o anseio por reconstruir uma família quebrada. Sendo assim, os membros da família de Carol, Tom (Charles Leggett) e Hildy (Kaitlyn Dever), introduzem ainda mais complexantes para essa tentativa de estruturação na vida não apenas de Chris, mas da própria mulher, verdadeiramente apaixonada pelo que fez, embora o espectador não tenha noção da proporção de sua importância no caso.

Por falar nela, Hildy ganha um papel maior do que o esperado, o que é certamente gratificante, visto que as interações dela com Chris são muito boas. Apesar da brusca diferença de idade, uma constante seja no caso da mãe, seja no caso da filha, os dois, juntos, funcionam perfeitamente como amigos, exaltando-se, no texto e na interpretação da atriz, uma personagem carismática. As queixas da garota em relação a falta de afeto dado por Carol também operam nesse conjunto, embora o suporte entre ela e seu pai seja desperdiçado, podendo ter sido mais fragmentado, em consequência do péssimo comportamento de Tom, extremamente preconceituoso. O que fica em segundo plano, todavia, é justamente as intenções da obra em relação ao núcleo familiar de Chris, marginalizado em prol da família de Carol. Os estresses em volta do problemático irmão do protagonista, Ted (Ben Schwartz), não são tão bem explorados. De fato, as frustrações de Chris com ele são pertinentes, mas a apresentação de uma terceira figura, também envolvida no crime, acaba não sendo aprofundada. O ideal seria se esse personagem nem ao menos fosse introduzido, evitando uma ponta deixada solta, embora inócua ao tratamento geral. Mas Outside In possui uma beleza inerente a essa contemplação da liberdade utópica, proibida de ser almejada por ex-presidiários, diante de uma sociedade cheia de hipocrisias, incapaz de permitir segundas chances a pessoas que, em muitos casos, nem tiveram uma primeira. Ótimas interpretações e uma direção serena conduzem um filme que aborda a arte e o amor como reais libertadores.

Outside In – EUA, 2017
Direção: Lynn Shelton
Roteiro: Lynn Shelton, Jay Duplass
Elenco:  Jay Duplass, Edie Falco, Kaitlyn Dever, Ben Schwartz, Pamela Reed, Aaron Blakely, Stephen Grenley, Matt Malloy, Alycia Delmore, Charles Leggett
Duração: 109 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.