Crítica | Ozark – 1ª Temporada

estrelas 4

Assim como havia dito no início  da crítica de Gypsy, a Netflix  costuma resultar em efeitos, no mínimo, interessantes em suas produções de menor ambição, que não buscam exatamente o barulho de títulos como Sense8 ou Stranger Things. Tendo como exemplo as recentes (mas não exatamente populares) Glow e Gypsy, além da hoje popular Orange is the New Black que começou como uma produção tímida da gigante do streaming, nos encontramos diante do fato de que, quando há a liberdade criativa e o desprendimento do controle em entregar algo massificado para o público, a Netflix é capaz de acertar, e muito. Ozark chega para figurar entre estes acertos.

Criada por Bill Dubuque (roteirista de O Juiz e O Contador), nota-se a preferência do showrunner em abordar a corrupção interna e externa de personagens envoltos em situações-limite de extremo desespero, e aqui nos vemos diante de Marty Birde (Jason Bateman), um consultor financeiro cuja empresa serve de fachada ideal para os serviços de lavagem de dinheiro que Marty realiza para um cartel comandado pelo narcotraficante Del (Esai Morales). Após seu companheiro de firma tentar roubar de Del e acabar perdendo a vida por isso, Marty consegue salvar a própria ao prometer lavar muito mais dinheiro se puder se mudar com a família para o lago de Ozark, que atrai diversos turistas nos períodos de verão. Ao lado da esposa Wendy (Laura Linney), totalmente consciente de seu trabalho, e dos filhos Charlotte e Jonah (Sofia Hublitz e Skylar Gaertner), Marty chega em Ozark e não demora a perceber que, naquele lugar, sua vida não se tornará menos difícil.

Constantemente comparada a muitíssimo bem-sucedida Breaking Bad por retratar pessoas aparentemente de boa índole serem corrompidas pelo dinheiro, pela ambição e pelo poder, Ozark pode facilmente figurar entre os mais completos estudos da índole humana recentes para a TV, por mais que sua inventividade visual e intensidade narrativa passe longe da já mencionada Breaking Bad ou de Narcos, para citar exemplos. Há uma grande consciência de Dubuque e de seu time de roteiristas sobre o peso de seus personagens e seus desdobramentos ao longo dos dez episódios, de como elaborar as ações e reações corretas de acordo com a personalidade cada rosto. Não há pontas soltas em Ozark, e por mais que vez ou outra exista um sentimento de dispersão (afinal, para quê serviu o envolvimento da filha com aquele rapaz?), a narrativa segura o interesse ao trabalhar com eficácia a constante movimentação da história em um ambiente tão pequeno como o lago de Ozark, tão repleto de figuras misteriosas e corrompidas, o que não acalmará a vida de Marty e Wendy.

E seja pelo conflito de Marty devido a infidelidade no passado da esposa (a cena onde o personagem reproduz o vídeo que comprova o adultério é assustadora) ou pelo esforço de Wendy em superar seu arrependimento e manter sua família unida sem deixar de ser uma eterna cúmplice do marido, é na sustentação da relação entre Bateman e Linney que Ozark constrói seu alicerce, e de onde é gerado todos os surpreendentes desdobramentos da série. Graças à segurança de suas interpretações (ele, por sinal, bastante elogiado por ter se afastado completamente de sua costumeira veia cômica), Bateman e Linney funcionam seja dividindo as cenas, seja isoladamente em seus próprios conflitos, e em meio a esse roteiro consistente, o espetáculo faz uso deste alicerce familiar para cutucar as feridas norte-americanas acumuladas ao longo da construção e desconstrução do chamado “american dream”, injetando sutilmente certas doses de sarcasmo e ironias nessa descortinação do american way of life fora das cidades grandes.

E ainda que uma segunda temporada permaneça, por enquanto, improvável, esta primeira temporada de Ozark satisfaz prazerosamente o espectador com todo o jogo dúbio de seus entrelaces, seus personagens em constante tensão (a fotografia azulada ressalta a frieza emocional daquela realidade com tendência à violência) e raramente previsíveis, o que garante um entretenimento moralmente flexível, questionador e muitíssimo bem produzido. Mais um ponto para a Netflix.

PS: reparem, em cada início de episódio, nos símbolos que irão aparecer na tela e que irão dar uma pista dos rumos de cada capítulo. Aposta inteligente.

Ozark – 1ª Temporada — EUA, 2017
Showrunner: Bill Dubuque, Mark Williams
Direção: Jason Bateman, Andrew Bernstein, Ellen Kuras, Daniel Sackheim
Roteiro: Bill Dubuque, Paul Kolsby, Mark Williams, Martin Zimmerman, Whit Anderson, Ryan Farley, Alyson Feltes, Chris Mundy
Elenco: Jason Bateman, Laura Linney, Sofia Hublitz, Skylar Gaertner, Julia Garner, Jordana Spiro, Jason Butler Harner, Esai Morales, Peter Mullan
Duração: 10 episódios de aprox. 60 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.