Crítica | Pacto de Justiça

estrelas 4

Pacto de Justiça (mais uma tradução nacional preguiçosa) é o terceiro e, até agora, o mais recente esforço diretorial de Kevin Costner, que nos laureou com o sensacional Dança com Lobos e com o extremamente mal visto – mas que considero subestimado – O Mensageiro. É a volta do diretor e ator a um de seus temas favoritos, o Velho Oeste, com uma abordagem peculiar sobre um assunto raríssimas vezes tocado por produções anteriores.

Aliás, a capacidade de Costner de cavar assuntos diferentes dentro do gênero Western para mergulhar neles merece ser aplaudida. Em Dança com Lobos, ele teve a coragem de envolver o espectador nos detalhes dos hábitos da vida dos americanos nativos ao inserir seu protagonista, John J. Dunbar, em um meio desconhecido, que ele vai desvelando diante de nossos olhos sem preconceito e sem rótulos. Em Pacto de Justiça, o foco é o conflito entre dois tipos de cowboys: os chamados pejorativamente de free grazers e os rancheiros. E antes que alguém venha aqui apontar que o conflito entre colonos e rancheiros é alvo de diversas obras do gênero, saliento logo: não há colonos que almejam viver da agricultura em Pacto de Justiça. O conflito é mesmo entre um grupo de homens, representado pelos personagens de Robert Duvall e Kevin Costner, que cuidam de seu gado no pastoreiro livre (o Open Range do título original) ou seja, em “terra de ninguém” e os rancheiros que têm terras próprias para o mesmo fim. Esse aspecto bem particular, até onde esse crítico saiba, jamais foi abordado em obras anteriores. Em outras palavras, trata-se de uma versão modificada – mas baseada em fatos históricos – da costumeira ranch story, objeto de tantos e tantos filmes sensacionais como Os Brutos Também Amam, Mar Verde O Rei do Deserto.

Mas Pacto de Justiça, não se enganem, também é uma típica história de vingança, daquelas em que os relutantes heróis são pacifistas, mas sabem que a violência é necessária em determinados momentos nesse Oeste Selvagem. Com isso, a fita ganha contornos mais familiares ao público em geral, permitindo que a segunda metade seja voltada exclusivamente para esse aspecto, com a transformação de Boss Spearman (Duvall) e principalmente Charley Waite (Costner) de vaqueiros em pistoleiros. Mas, até isso acontecer, a construção dos personagens é crível, graças a um roteiro cadenciado de Craig Storper, em seu único roteiro para o cinema até agora, baseado em  romance do famoso escritor americano de faroestes Lauran Paine, de quem Costner sempre foi fã declarado.

O grande trunfo de Storper é manter as personalidades de Spearman e Waite em mistério ao longo de grande parte da obra. Mas não é aquele tipo de mistério “misterioso”, que o espectador fica seco para descobrir. Mas sim um mistério que vem naturalmente da natureza estoica dos dois. Sabemos que eles são vaqueiros, que vivem literalmente da terra, dormindo ao relento e comendo o que caçam e o que eventualmente compram em cidades por que passam. Mais nada. Eles estão juntos há 10 anos e não sabem aspectos importantes da vida de cada um, porque então o espectador deveria saber assim sem mais nem menos? Com isso, ficamos curiosos, queremos aprender sobre os dois, mas nada nos é passado. Pouco se fala na primeira metade, mas muito aprendemos sobre a dura vida dos free grazers Spearman e Waite, que ainda contam com a ajuda do simpático Mose (Abraham Benrubi) e do jovem Button (Diego Luna).

Quando a tragédia se abate sobre o grupo, cortesia do rancheiro irlandês Denton Baxter (Michael Gambon) que manda na cidadezinha de Harmonville, Spearman e Waite não têm outra escolha que não fazer justiça com as próprias mãos. Mas, até isso acontecer, testemunhamos um relutante esboço de relacionamento amoroso entre Waite e Sue Barlow (Annette Bening), irmã do médico local (e até essa informação nos é escondida até bem para frente no filme) e que nos permite um olhar mais aprofundado no resignado, mas perturbado Waite e um olhar diferente sobre o romance. Afinal, como vamos aos poucos aprendendo, Waite é um homem selvagem quase, que tem um passado tenebroso que o atormenta profundamente. Ele é alguém sem esperança de uma vida normal e até já passou da idade para perseguir esse sonho. E, de certa forma, o mesmo acontece com Sue, já de meia idade, uma verdadeira idosa para os padrões do Velho Oeste. Ela está resignada em sua vida sem amor por um homem (amor carnal, não amor de irmão) e vê em Waite, talvez, sua última fagulha de esperança. É um belo olhar sobre a renascença amorosa de duas pessoas desenganadas.

Mas o roteiro não é perfeito. Storper acaba se dobrando e não consegue escapar de alguns momentos expositivos completamente desnecessários. O mais doloroso deles é o longo monólogo de Waite, à luz das estrelas, sobre seu terrível passado. Além de ser um momento nada natural para o próprio personagem, não havia necessidade efetiva para aquilo. No momento em que aprendemos sobre Waite, nós já sentimos aquilo e os detalhes são desnecessários, quase que uma versão for dummies do  personagem, para não deixar dúvidas aos espectadores sobre a natureza do protagonista. No entanto, essa exposição não é a única e, ainda que de maneira menos evidente, o mesmo acontece com a conversa ameaçadora de Baxter com Spearman e Waite, em que a diferença entre os dois tipos de criadores de gado nos é explicada em detalhes e, também, com alguns diálogos entre a dupla principal no meio do calor do combate. São, todos esses, momentos que poderiam facilmente ser extirpados da narrativa sem que o resultado final sofresse.

De toda maneira, Kevin Costner mostra sua costumeira segurança na direção, transitando entre tomadas em plano aberto no primeiro terço da fita que, ao longo da narrativa, vão se fechando, como se entrássemos no inconsciente de Waite. O fotografia ficou ao encargo do então estreante (na direção de fotografia) James M. Muro, que depois viria a fazer Crash: No Limite. E o trabalho da dupla Costner/Muro ganha outros contornos quando o tiroteiro efetivamente começa. Nesse momento, vemos outra coisa muito rara em Westerns: a ausência completa de floreios. Ninguém é o “gatilho mais rápido do Oeste”, não há duelos no estilo clássico, não há beleza plástica alguma, pelo menos não em seu sentido tradicional. Trata-se de uma luta crua, feia mesmo, em que os tiros são mais aleatórios do que qualquer outra coisa e as mortes não são enfeitadas ou exageradas.

O resultado final é que Pacto de Justiça é um grande exemplar do gênero Western que, infelizmente, apesar de ter sido elogiado pela crítica da época e um razoável sucesso de bilheteria, é normalmente uma obra esquecida nas prateleiras empoeiradas dos cinéfilos. Mas vale a pena (re)descobrir esse trabalho de Costner na direção voltando ao gênero que o consagrou.

Pacto de Justiça (Open Range, EUA – 2003)
Direção: Kevin Costner
Roteiro: Craig Storper (baseado em romance de Lauran Paine)
Elenco: Robert Duvall, Kevin Costner, Annette Bening, Michael Gambon, Michael Jeter, Diego Luna, James Russo, Abraham Benrubi, Dean McDermott, Kim Coates
Duração: 139 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.