Crítica | Paisagem Após a Batalha

Nunca se mostrou tão intensamente a sensação de liberdade quanto no começo de Paisagem Após a Batalha (1970). Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a capitulação dos nazistas, os poloneses confinados em Campos de Concentração puderam, enfim, respirar ar fresco e ver o céu em toda a sua magnânima extensão. Os homens até então presos correm para todos os cantos, trocam de roupa, destroem as cercas de isolamento, quebram janelas. O ímpeto de emancipação, porém, não é desprovido de violência vingativa: os algozes perdem o poder depois de cessadas as batalhas e as vítimas históricas rapidamente se transformam em verdugos, linchando impiedosamente seus antigos inimigos…

Neste momento, começam os problemas. A expectativa de libertação não se realiza plenamente porque teme-se que os prisioneiros de guerra, enraivecidos com a violência de que foram vítimas ao longo de anos, não consigam se enquadrar (por estarem sequiosos de retaliação) numa lógica de convivência democrática e intermediada institucionalmente. Desse modo, se é abolido o horror dos campos de concentração alemães, instauram-se os campos de refugiados americanos, que tentam “domesticar” os encarcerados recém libertos. A genialidade do filme de Andrzej Wajda, considerado por muitos o maior diretor polonês da História, está em não transformar o fim da guerra em ápice climático. Colocado logo nas primeiras cenas, ele é visto como apaziguamento ilusório, ao qual sucederá várias frustrações e aporias.

A obra dá destaque a Tadeusz (Daniel Olbrychski), leitor voraz que se sente um pouco deslocado ao lado de seus colegas poloneses. O personagem representa, em alguma medida, a figura do esteta nefelibata apartado do mundanismo cotidiano, e que nutre o seu idealismo estético com laivos de lirismo que a crueza do pós-guerra teima em cercear. Aliás, o mundo das belas artes é parte importante deste filme, já que além da presença de Tadeusz e seus calhamaços literários, podemos ver não só apresentações teatrais nos campos de refugiados, como também performances musicais que chegaram inclusive a salvar judeus nos tempos de vigência do nazismo. No prólogo do filme a trilha de Vivaldi aponta imediatamente para esta curiosa convivência entre violência bélica e alumbramento artístico. O intelectual judeu George Steiner já se manifestou muito a respeito desse paradoxo cruel: como pode o cérebro humano dar espaço tanto à barbárie quanto ao sublime? Como puderam os carrascos do terceiro Reich ouvir à noite as notas ternas de Schubert e, ao raiar do dia, gozar a carnificina? Criação e destruição, beleza e vileza — tudo isso num só e mesmo ser.

Quando os cativos voltam a ter contato com mulheres, Tadeusz conhece Nina (Stanislawa Celinska), judia que decidiu fugir da Polônia temendo o “bonde vermelho” (isto é, a imposição do comunismo stalinista) e deseja ir morar nas democracias do Ocidente. A relação entre eles é de uma aproximação instável, com idas e vindas no sentido de uma convivência próxima. O maior motivo de controvérsia entre os dois se dá porque Tadeusz pensa em voltar para a Polônia, sua terra natal. Para a mulher, no entanto, para que seja possível viver, é necessário esquecer o passado, principalmente se ele está envolto por tantas máculas e mágoas imprimidas pela guerra.

Mas, contra todas as expectativas, Nina morre de supetão. Ela estava prestes a atravessar um limite proibido; graças a isso, um oficial americano, um tanto sem querer, um tanto intencionalmente, dispara e acerta em cheio. O desmando não foi punido justamente porque, nos momentos de exceção, as regras da normalidade viram ao avesso. Os americanos deveriam significar a ordem restabelecida, mas também eles incorrem na contravenção. A fala de Tadeusz é dura e injusta, tendo, porém, o seu teor de verdade: “Os alemães atiraram em nós por seis anos, e agora é a vez de vocês“. Além dessa, muitas outras frases são primorosas por sua beleza e profundidade filosófica. Paisagem após a Batalha é baseado nos relatos do escritor Tadeusz Borowski (vejam que o primeiro nome é o mesmo do protagonista do longa), sobrevivente de Auschwitz que acabou se matando. Muito do valor literário do roteiro do filme é devido aos escritos de Tadeusz, esse personagem histórico que sentiu na carne o paroxismo da violência humana e não conseguiu sobreviver às sequelas do sofrimento.

A filmografia de Wajda é toda ela banhada de incisividade política. Neste filme de 1970 fica claro que o fim da batalha não significa o fim da guerra. Os personagens continuam a viver num campo, sem cercas, é fato, mas também sem liberdade. Os conflitos se estendem para muito além de seu desfecho, expandindo os traumas para a psiquê dos homens e mulheres que se deparam com a desumanidade absoluta, de modo que o medo se transforma em categoria mental onipresente. Wajda, todavia, aponta ao mesmo tempo para a beleza num mundo desolado, vista como possibilidade de liberdade subjetiva dentro do contexto de não liberdade objetiva. Enquanto boa parte das imagens do filme são enquadradas por cercas, janelas e barreiras (aspecto formal que exprime o controle e a restrição), há outras cenas que primam pelo toque lírico e quase onírico, como no caso da apresentação teatral da batalha de Grunwald (travada, no século XV, entre os polacos e os exércitos teutônicos), por meio da qual os personagens encontram um momento de evasão e os espectadores se encantam com o toque multicolorido e lúdico da fotografia. A fita ressalta também que nem só de evasão vive o homem, e Tadeusz, no fim do filme, volta de trem para a Polônia, buscando enfrentar seu passado cara a cara. O que ele encontrará? Será que seu destino coincidirá com o de seu homônimo da vida real? Wajda deixa tudo em aberto, grande artista que é.

Paisagem Após a Batalha (Krajobraz po bitwie)- Polônia, 1970
Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Andrzej Brzozowski e Andrzej Wajda (baseados nos escritos de Tadeusz Borowski)
Elenco: Daniel Olbrychski, Stanislawa Celinska, Aleksandr Bardini, Tadeusz Janczar, Zygmunt Malanowicz, Mieczyslaw Stoor, Leszek Drogosz, Stefan Friedmann
Duração: 110 minutos.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.