Crítica | Paixão Inocente

estrelas 4

Imaginem comigo: um músico de meia idade desmotivado pela calmaria de sua vida, uma esposa controladora tirando os pequenos prazeres do marido e uma filha que em nada se identifica com os pais. Acrescente agora uma intercambista recém chegada da Inglaterra com uma certa paixão musical, somente partilhada nesta família pelo pai. Já podem imaginar onde isso vai chegar, não é? Paixão Inocente é um filme que exala o clichê, entregando a trama mais que óbvia em seu pôster e título brasileiro. Com a progressão da trama, contudo, somos tirados desse lugar comum, ao passo que somos, pouco a pouco, cativados pela obra.

Breathe In, é o título original, inspire (no sentido de respirar fundo), e não poderia representar melhor tanto a sensação deixada no espectador como a própria impulsividade de cada um dos personagens retratados. Desde os primeiros minutos da projeção já é deixada transparente a insatisfação de Keith Reynolds (Guy Pearce) em relação à toda sua vida. Em suas próprias palavras, ela foi interrompida muito cedo graças ao casamento com Megan (Amy Ryan) e o nascimento de sua filha, Lauren (Mackenzie Davis). A chegada da estudante estrangeira, Sophie (Felicity Jones), em sua casa é justamente a válvula de escape que o marido precisava. A princípio, porém, sua hesitação em tê-la em sua morada é evidente, é um homem já acomodado – cansado, sim, mas já acostumado com toda aquela monotonia e controle.

Justamente através dessa falta de disposição de Keith, a tensão da obra é lentamente construída. Primeiro nos identificamos com a intercambista, uma peça sobressalente dentro daquele quebra-cabeça perfeitamente e perturbadoramente montado. Nos tornamos simpáticos ao seu deslocamento dentro daquela família, por mais que a mãe e a filha se esforcem para incluí-la tanto nas conversas quanto nos programas. O único que poderia proporcionar um diálogo que entretivesse a jovem, diz poucas palavras, ignorando, na maior parte do tempo, a presença da menina ali.

É nesse silêncio, contudo, que Drake Doremus consegue, dirigindo cada olhar de seus atores, proporcionar o tom intimista pelo qual a obra se destaca. As conversas ocupam um papel secundário nas interações entre seus personagens, ao passo que um simples movimento, por mais sutil que seja, nos diz mais sobre o que se passa em cada um dos membros da família. Corroborando este fator, a fotografia de John Guleserian faz bastante uso de planos mais fechados, com muitos closes, somados a movimentos de câmera que demonstram toda a delicadeza da situação e constroem, de forma efetiva, a paixão mencionada no título. É uma fotografia que não teme ignorar diversos personagens a fim de ressaltar o lado emocional. Guleserian ainda trabalha com planos filmados de cômodos adjacentes a seus personagens, colocando o espectador no lugar de alguém espionando as ações ali realizadas, por mais que, de fato, não exista mais ninguém ali.

Ao mesmo tempo, a tensão continua em crescimento, apoiada pela câmera na mão, presente na maior parte das sequências do longa-metragem. Em perfeita sinergia com tal estética, temos a montagem dinâmica, repleta de elipses, de Jonathan Albert, conhecido pelo seu recente trabalho na série Looking. O montador consegue transmitir uma sensação de tempo dramático ideal dentro do filme, não deixando óbvia a passagem de tempo, mas nos fazendo sentir como se acompanhássemos tal narrativa por meses a fio. Os cortes são inseridos em bons momentos, não delongando ações por um período muito extenso, o que, no fim, trabalha muito a favor da projeção, limitando-a em eficazes 98 minutos.

A cereja em cima do bolo é a trilha de Dustin O’Halloran. Apoiando-se nos personagens do longa, vemos músicas preenchidas pelo piano ou violoncelo, que rapidamente nos remetem à monotonia da vida de Keith ou à paixão crescente entre ele e Sophie. Mas não é somente isso, as melodias construídas na obra conseguem transmitir, novamente, o sentido de seu título original, tirando o fôlego do espectador, que é deixado em uma situação onde, verdadeiramente, não pode escolher lados, aumentando ainda mais sua angústia.

Não pela trama, mas pela forma como é apresentada, Paixão Inocente consegue fisgar a atenção de sua audiência, trazendo uma história sem muitos segredos, conduzida de maneira inteligente com convincentes atuações de Guy Pearce e Felicity Jones. É um filme que se utiliza praticamente de todo seu potencial, deixando a desejar somente em alguns pequenos aspectos de sua resolução, fator, o qual, pode ser perdoado pelo seu encerramento em tom cíclico. Um conto clichê, mas que, ainda assim cativa seu espectador.

Paixão Inocente (Breathe In) – EUA, 2013
Direção:
Drake Doremus
Roteiro: Drake Doremus, Ben York Jones
Elenco: Guy Pearce, Amy Ryan, Felicity Jones, Mackenzie Davis, Matthew Daddario, Ben Shenkman, Alexandra Wentworth, Nathaniel Peart.
Duração: 98 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.