Crítica | Palavras ao Vento

estrelas 4

Palavras ao Vento impressiona o espectador já em sua sequência de abertura. Após a exibição do logo da Universal, entramos com grande surpresa para uma cena onde vemos o carro de Kyle (Robert Stack) percorrendo a toda velocidade os limites industriais da petrolífera Hadley. Seguem-se cenas-chave em uma bela casa onde ocorre algo que entendemos ser o fim do filme, um fim claramente trágico. Ao som de Written on the Wind (versão de Frank Skinner), interpretada pelos The Four Aces, vemos surgir os créditos de abertura e então uma interessante (embora não original) forma de inserir o flashback que nos transporta para o ano anterior. Tudo começa no dia 24 de outubro de 1955.

Douglas Sirk tinha acabado de realizar Chamas que Não se Apagam (1956) e já dava andamento a esta grande produção, o maior sucesso dentre os oito filmes que fez com Rock Hudson* e um dos mais famosos ícones de sua áurea fase de melodramas, iniciada dois anos antes, com Sublime Obsessão.

O roteiro de Palavras ao Vento foi baseado na obra de Robert Wilder e tem como foco principal um leque de elementos como valores familiares, superação de vícios e vingança, elementos que normalmente pontuam os melodramas, mas que aqui são os verdadeiros pilares do enredo. O “amor proibido” se constrói rapidamente e ganha alusiva força no texto de Wilder, mas é sobre a psicologia e comportamento dos protagonistas que o filme se debruça.

O jogo de máscaras sociais que vimos em Tudo o Que o Céu Permite (1955), por exemplo, já é uma causa perdida para os personagens de Palavras ao Vento, uma causa por eles negligenciada e motivo de vergonha para a rica família protagonista. Os dois herdeiros da petrolífera Hadley são vagabundos presos a uma libido que tentam exercer o tempo inteiro, mas que por ela são boicotados, situação piorada pelo lado familiar-afetivo onde o pai parece confiar e gostar mais do “filho do coração” dos Hadley, Mitch Wayne, o personagem de Rock Hudson, do que dos próprios filhos biológicos.

O filme se passa entre o outono de um ano a outro e Russell Metty, o diretor de fotografia, repete o excelente trabalho com a atmosfera da estação que fizera em Tudo o que o Céu Permite (a paleta tem a mesma composição cromática, mas os marrons em contraste com o vermelho ou outras cores quentes imperam porque existe um teor sexual à mostra e uma maior variedade de espaços a serem retratados). A diferença é que não vemos o inverno na tela, então a constituição, aqui, é unicamente crepuscular, indicando morte ou esvaecimento da vida, característica do ambiente que ganha sua representação máxima quando Lucy sofre um aborto. O vento que observamos soprar as folhas secas e caídas serve, portanto, de símbolo narrativo e metáfora para os protagonistas na obra.

O caráter shakespeariano de Palavras ao Vento é uma característica cada vez mais perceptível assim que nos aproximamos do final. Os ânimos à flor da pele, o plano maquiavélico de vingança de Marylee contra Mitch, o questionamento dos valores de amizade e lealdade, a loucura ou doentia fixação de um dos personagens na traição das pessoas que ama, tudo isso aparece com grande força do meio do filme para o final, momento onde vemos a profunda “crueldade elegante” de Sirk agir com força total — devo confessar que esses melodramas do diretor só se tornam realmente bons porque a forma do filme dá um significado completamente diferente e irônico aos roteiros do tipo “novelões” que ele era obrigado a trabalhar. E melhor ainda: o cineasta adicionava alguns diálogos clandestinamente, os únicos “espinhos” do filme, que ele pedia ajuda para os protagonistas resistirem junto ao produtor e ao roteirista a fim de que deixassem esses momentos no corte final, o que sempre acabava acontecendo.

Não obstante o fim do período sóbrio de Kyle, temos a morte do patriarca da família Hadley, o aborto de Lucy, a acusação de Mitch, o problema de Marylee com um rapaz que levou para um motel… a grande fase trágica aparece no enredo e é engrossada pelos filtros escuros da fotografia (marrom e azul, especialmente) e por uma orquestra tocando peças exageradamente dramáticas — embora entendamos que isto está dentro do padrão drama + melos (música) que a origem do gênero propõe.

O elenco, que conseguira uma excelente representação até esse momento, dá um salto ainda mais alto. Os maiores destaques são os de Robert Stack (Kyle), o herdeiro alcoólatra e massacrado pela aparente falta de amor e confiança do pai, além de seu ativo espírito destrutivo; e para Dorothy Malone (Marylee), que recebeu o merecido Oscar de Coadjuvante por sua performance, um trabalho que vai da patricinha não correspondida no amor à femme fatale destrutiva e vingativa, chegado à fase final como uma mulher amadurecida, amargurada e resignada com sua situação, cenário infelizmente diminuído pelo caminho narrativo e formal utilizado no desfecho.

Se não fosse pelos quinze minutos finais, Palavras ao Vento seria uma obra-prima. O grande problema é que a sequência do julgamento possui um ritmo interno e externo completamente diferentes de toda a fita, e isso não de uma forma agradável. O trecho de roteiro que serviu para chocar o espectador é seguido por uma declaração que estraga a força da cena (refiro-me, claro, ao depoimento de Marylee no julgamento de Mitch) e um final que poderia ser bem aceito dentro do gênero do filme mas que toca mal o público porque segue um estranhíssimo modelo de construção.

Isso significa que Palavras ao Vento é um filme ruim? Nada disso. Sequer é um “filme menor” de Douglas Sirk. Trata-se na verdade de uma excelente película com um final que, diante da grandeza de todo o resto, decepciona um pouco, mas é só isso.

Esta é, em definitivo, uma das mais interessantes e esteticamente bem arquitetadas obras de Douglas Sirk (só aquelas sequências no hotel em Palm Beach serviriam para confirmar isso) e não é de se espantar que seja um de seus filmes mais queridos e homenageados (especialmente por Fassbinder, em O Comerciante das Quatro Estações), afinal, não é sempre que uma obra consegue expor com tamanha qualidade o lado emocional e quase teatral que a vida apresenta para situações envolvendo corações e meias-palavras estrategicamente esquecidas com o passar do tempo, levadas pelo vento da memória ou fingidamente negadas em prol de um bem considerado maior.

***

Os oito filmes de Rock Hudson com Douglas Sirk foram Sinfonia Prateada (1952), Herança Sagrada (1954), Sublime Obsessão (1954), Sangue Rebelde (1955), Tudo o que o Céu Permite (1955), Palavras ao Vento (1956), Hino de uma Consciência (1957) e Almas Maculadas (1957).

Palavras ao Vento (Written on the Wind) – EUA, 1956
Direção: Douglas Sirk
Roteiro: George Zuckerman (baseado na obra de  Robert Wilder)
Elenco: Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack, Dorothy Malone, Robert Keith, Grant Williams, Robert J. Wilke, Edward Platt, Harry Shannon, John Larch, Joseph Granby, Roy Glenn, Maidie Norman, William Schallert
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.