Crítica | Pandorum

estrelas 3

Gostar ou não gostar de Pandorum – assim, de maneira bem subjetiva mesmo – dependerá muito das expectativas que se tenha em relação ao filme, uma co-produção entre EUA e Alemanha, da época em que a Alemanha era utilizada fortemente como “paraíso fiscal” para produções hollywoodianas. O filme é um festival de clichês dentro do conceito batido de “monstro no espaço” e o inexpressivo diretor alemão Christian Alvart (de Caso 39) não oferece realmente muito mais do que isso.

Mas há dois atrativos. O primeiro deles é a presença de Dennis Quaid no elenco, ator sempre pendendo para o lado canastrão, mas mantendo uma simpatia e um magnetismo que nos fazem esquecer de suas não-tão-grandes-assim habilidades dramáticas. O outro atrativo é o roteiro do desconhecido Travis Milloy que, trabalhando a história que criou em conjunto com Alvart, entrega algo um pouco “fora da curva” que, apesar de se basear, como as obras de M. Night Shyamalan, em uma “reviravolta final”, entretém e prende o espectador razoavelmente (ou seria surpreendentemente?) bem.

Como muitas críticas à época deixaram sobejamente claro, Pandorum é um mix genérico de tudo que nós estamos acostumados a ver em filmes de “monstro no espaço”. A inspiração em filmes como Alien, Sunshine – Alerta Solar, Abismo do Medo e outros tantos é mais do que evidente. Obviamente, porém, a grande inspiração é mesmo Alien, bastando ver a descrição da história: dois militares (Payton – Dennis Quaid e Bower – Ben Foster) acordam de longo sono criogênico sem qualquer memória sobre o porquê de estarem na nave e logo se encontram com monstruosas criaturas humanoides que só querem saber de transformá-los em refeições.

Viram? É um Alien elevado à décima potência em termos de quantidade de monstros, sangue e exageros pirotécnicos. Obviamente, Pandorum não se compara ao filme de Ridley Scott em mais nenhuma categoria, mas isso não quer dizer que ele seja ruim e aí vem a questão que mencionei sobre o cuidado do roteiro de Milloy em ir um pouco além do convencional.

É que Milloy transforma a fatídica “nave espacial sob ataque de ameaça desconhecida” em uma espécie de Arca de Noé, com alguns milhares de humanos em sono criogênico e amostras de DNA de seres vivos da Terra para que seja possível a colonização de um planeta muito semelhante ao nosso, só que extremamente distante. Obviamente, como manda a regra em filmes de ficção científica desta estirpe, nosso planeta já teve esgotadas todas as fontes naturais.

O local onde os humanos estão congelados, claro, formam uma espécie de delicatessen para os famintos e bizarros monstros que assolam a nave. Ficam os mistérios: (1) o que são os monstros e como eles entraram na nave? (2) o que aconteceu com a tripulação? e (3) por que a nave não chegou ao seu destino? Com essas perguntas sempre costuradas de maneira constante na narrativa, Milloy consegue criar um bom grau de suspense sem que a pancadaria e sanguinolência desvie demais seu caminho.

Alvart, por sua vez, tem uma grande vantagem ao seu lado (além de Quaid e do roteiro): um design de produção acima da média, com cenários mais do que apenas burocráticos e criaturas trabalhadas para amplificar o suspense, mesmo que a relevação de sua presença e sua natureza aconteça rápido demais dentro da estrutura narrativa. Com uma nave que parece de verdade um “espaço vivido”, aquela sensação asséptica comuns em obras menores do gênero inexiste aqui. Pandorum nos convence como um universo que carrega sua própria lógica e conta uma história que não desperdiça seus clichês apenas com demonstrações bobas de sangue e tripas.

As reviravoltas que acontecem – especialmente a última – são de certa forma telegrafadas pelo roteiro (sobretudo se o espectador for calejado no gênero) a todo momento e não apresentam nada particularmente novo. Mas Milloy sabe inseri-las com fluidez na narrativa, sem exagerar em diálogos expositivos redundantes que tratam o espectador como idiotas. Não se enganem, porém: eles estão presentes, apenas com menos intensidade ou disfarçados de “momentos de ação”. Só por isso, seu texto já merece comenda.

O filme é isto, basicamente: diversão despretensiosa para quem aprecia a mistura dos gêneros terror e ficção científica e não quer ter discussões filosóficas sobre o porquê da vida quando os créditos começam a rolar.

Pandorum (Idem, EUA/Alemanha – 2009)
Direção: Christian Alvart
Roteiro: Travis Milloy
Elenco: Dennis Quaid, Ben Foster, Cam Gigandet, Antje Traue, Cung Le, Eddie Rouse, Norman Reedus, Friederike Kempter
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.