Crítica | Pânico 3

estrelas 3

“Tenho visto a fruta má da sua vinha”.

Trecho da canção What If, da banda Creeds, parte integrante da trilha sonora.
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O primeiro filme estabeleceu as regras. O segundo subverteu o esquema. No terceiro, como apresentado no enredo e na divulgação, tudo pode acontecer. Wes Craven continua a sua saga com base na afirmação de que os jovens de hoje precisam processar os seus medos de forma lúdica e divertida. Em Pânico 3, a fórmula parece um pouco desgastada, pois paira no ar uma sensação de que tudo já foi dito. O bom é que Sidney (Neve Campbell), Dewey (David Arquette) e Gale (Courtney Cox) continuam personagens em evolução, principalmente quando recebem apoio dos coadjuvantes que gravitam em torno da narrativa.

Lançado no Brasil em 07 de julho de 2000, Pânico 3 nos apresenta o seguinte enredo: há uma continuação do sucesso A Punhalada agitando Hollywood. O que deveria ser um estouro financeiro cai por terra quando surge um assassino que começa a matar os envolvidos na produção tomando por base a ordem que estes morrem no roteiro. Saberemos, portanto, que tudo isso é um pretexto para atrair Sidney do seu retiro, haja vista que a moça agora vive isolada e trabalha como voluntária ajudando pessoas vítimas de problemas de ordem social. A isca é mordida pelo fato de, a cada morte, o assassino deixar uma foto da sua mãe, Maureen Prescott, num período desconhecido por todos.

Neste encalço, Gale decide visitar a produção e reencontra Dewey, logo depois, Sidney, assim como uma série de personagens novos, a maioria, atores que representam o elenco do filme original. Filmado em 59 dias durante o mês de julho de 1999, a trama traz cenas numa mansão histórica de Los Angeles, conhecida por ser mal assombrada, além dos estúdios que nos remetem ao clima do primeiro filme.

Sidney, ao voltar, é informada que há regras que precisam ser obedecidas e refletidas. Randy, antes de morrer, deixou um vídeo gravado informando que o assassino é um super-homem, por isso, não vale apunhalar, socar, é preciso atingir na cabeça. A outra regra é que o passado voltará para atormentar Sidney, o que de fato acontece, e por fim, qualquer pessoa, até a heroína, pode morrer.

No que diz respeito aos aspectos sociológicos, o filme continua a sua sátira aos clichês do gênero, recorrendo aos mesmos para execução da trama. Uma questão interessante é observar que, diferente dos anos 1980, período em que os monstros do cinema puniam a geração yuppie estadunidense pelos seus atos excessivos (sexo, drogas, dentre outros), nos anos 1990 o assassino pertence ao mesmo clã. Há nivelamento social e os motivos são de ordem psicológica, quase absurda, assim como a vida às vezes é. Não estamos diante de meninos deficientes que morreram afogados, ou o perturbado zelador que morreu queimado por abusar de criancinhas. Os “monstros” da vez são ricos, bonitos e, com base no que a sociedade dita, apresentáveis.

Ghostface, em toda a franquia, é uno. Sua fantasia, uma revitalização do quadro O Grito, de 1893, criado pelo inventivo Edward Munch, apresenta sempre a mesma estrutura, mesmo quando há assassinos diferentes. Você, caro leitor, já reparou que mesmo quando há dois assassinos de estaturas e modelos corporais diferentes, o algoz que aparece em cena é o mesmo? Cabe ressaltar, inclusive, que Ghostface só pode ser derrotado depois que é desmascarado e se aproxima do ser humano. Uma espécie de super eu da psicanálise, principalmente quando pensamos que as armas brancas utilizadas para os assassinatos representam a simbologia psicanalítica de poder sexual pela penetração, o que condiz com essa interpretação que nos aproxima das considerações de Freud.

Marco Beltrami continua no comando do som e da execução da trilha sonora, ao lado da montagem eficiente de Patrick Lussier e da sarcástica voz de Roger L. Jackson como Ghostface. A trilha sonora, lançada algum tempo depois do filme, traz canções como a que ilustra a abertura desse texto, letras que nos remete ao perfil e destino dos personagens. Destaque para What If, da banda de post-groungeCreed, faixa que aponta a árvore genealógica “podre” envolvendo a família Prescott, eixo familiar da heroína Sidney. A mesma banda surge em outra faixa, a lúdica Is This The End?, nos engando em relação ao destino de Sidney, ao alegar que “Todos esses dias de choro se foram/ Sem mais tristezas/ elas se foram.” Saberemos, alguns anos depois, que as coisas não ficaram bem assim.

O problema de Pânico 3 é o roteiro. Há detalhes interessantes, como o colar que o namorado-vítima de Sidney no filme anterior lhe presenteou e que a mesma usa como uma espécie de recordação, bem como a grandiosa cena de perseguição nos estúdios de A Punhalada 3, com direito a uma réplica de Woodsboro e momentos de tensão típicos da franquia. O que atrapalha é a presença de sustos fáceis graças ao engenhoso trabalho de som e o aplicativo que serve como replicador das vozes dos demais personagens. Á guisa de exemplo, a cerca da casa onde Sidney encontra-se isolada. Não tem sequer mais de um metro, em suma, protege quem ou o quê?

Outro problema é o final que se prolonga demais. Há muita conversa, em detrimento da ação. Seguindo o estilo policialesco, com o habitual clima de “quem é o assassino?”, Pânico 3 relaciona-se, novamente, com Halloween, agora referenciando a ideia, mesmo que bem passageira, de “irmão killer”. Se por um lado há os furos relatados, os coadjuvantes da vez carregam na comédia. Parkey Posey como interprete de Gale e Emily Mortimer como a representação de Sidney são, em suma, interessantes.

Ao longo dos seus divertidos 116 minutos, Pânico 3 ainda consegue segurar as atenções dos seus espectadores, mesmo que o filme não seja tão sagaz como os dois primeiros. É o elo mais fraco, mas nós aprendemos a amar, não há jeito. E mais uma vez, peço licença para a abordagem confessional. Na época do seu lançamento, no último dia de exibição (o filme ficou por várias semanas), uma chuva forte tomou a região e eu perdi a sensação de ter assistido ao suposto desfecho da franquia com som e imagem em proporções muito maiores que a exibição doméstica, o que aconteceu dois meses depois, com o lançamento do filme em VHS.

Pânico foi uma franquia que marcou a minha geração. Um sucesso absoluto com direito a lágrimas no final idealizador. A cena da porta aberta e da sensação de liberdade de Sidney é emocionante e uma das melhores do filme. Todavia, para os que pensaram que Sidney não estava na pior, ledo engano. Dez anos depois, Ghostface vai voltar para assombrar Sidney, Gale e Dewey. O que antes havia sido concebido como uma trilogia ganha mais um filme, uma daquelas produções “comemorativas”. Pânico 4 foi lançado em 2011 e mostrou que o diretor ainda é um dos melhores no que tange aos aspectos da condução de filmes de terror, mas isso é tema para o próximo texto, reflexão que encerra, por enquanto, a análise da franquia do autoral Wes Craven.

Pânico 3 (Scream) — Estados Unidos, 2000
Direção: Wes Craven
Roteiro: Ehren Krueger
Elenco: Neve Campbell, Courtney Cox Arquette, David Arquette, Patrick Dempsey, Parkey Posey, Lance Henriksen, Emily Mortimer, Jamie Kennedy, Liev Schreiber, Jenny McCarthy, Scott Foley, Heather Matarazzo
Duração: 116 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.