Crítica | Pânico 4

estrelas 5,0

É melhor acreditar em karma… A roda da vida vai te incluir.
Trecho da canção Bad Karma, da cantora Ida Maria,
parte integrante da trilha sonora.

O tempo e o espaço, após dez anos do reencontro entre Sidney (Neve Campbell), Gale (Courtney Cox) e Dewey (David Arquette) em Pânico 3, obviamente, mudaram. Hoje há a influência dos celulares e aplicativos e o quarto filme da série não deixa de aproveitar bem essa mudança cultural. Os primeiros filmes focaram na criação, estabelecimento e profusão das regras do terror para os anos 1990. Desta vez, o roteiro apresenta referências oxigenadas e bastante criativas (provavelmente pelo fato de ter passado uma década de fermentação metalinguística), pontos fortes desta trama que aposta na dinamicidade adornada de sacadas inteligentes, com direito a personagens ainda mais desenvolvidos e um epílogo eletrizante.

Pânico 4 aborda Sidney em sua última parada de divulgação do livro Saindo da Escuridão, uma produção de autoajuda indicada para pessoas que passaram por uma situação semelhante. Ao chegar em Woodsboro, a moça logo é informada que duas garotas foram assassinadas e que o seu destino trágico e circular pode estar apenas recomeçando. É a semana de aniversário dos assassinatos referentes ao primeiro filme e os adolescentes locais realizam uma maratona de todos os filmes da série A Punhalada, já em sua sétima continuação. É o que Dewey diz em um determinado diálogo sobre “a tragédia de uma geração se torna a piada de outra”.

O assassino arruma um jeito de entrar em contato com Sidney e avisa: “não há o que fazer, laços familiares são o que importa, você só pode observar”. Daí, Sidney precisa lutar para salvar sua prima Jill (Emma Roberts) e a si mesma. Nesta continuação, Dewey parece satisfeito com o seu trabalho como delegado local e Gale muito insatisfeita com o rumo da sua vida, e, às vezes, lembrando a personagem que representou nos dois primeiros filmes, parece invejar Sidney e o sucesso do livro, assim como sente a necessidade de voltar ao estrelato midiático que alcançou quando escreveu o livro Os Assassinos de Woodsboro, nos idos do filme de 1996.

As regras, no entanto, são novas. Sidney é uma vítima em potencial, mas não é mais o foco do assassino (quem acreditou nisso?), as virgens podem morrer também; se você for gay, há chances de sobrevivência e para fazer parte da cultura tecnológica da contemporaneidade, é preciso filmar os assassinatos. Assim como as regras evoluíram, os personagens também continuam em progressão.

Sidney, assim como nos filmes anteriores, evoluiu. Se ela já havia aceitado o seu destino trágico e aprendido a lutar, aqui ela mostra que a postura de vítima não combina com a sua situação. A forma como Neve Campbell representa, simples, tocante e concisa dá mais coerência ao ótimo roteiro de Kevin Williamson. A moça tem um “quê” de Sarah Connor (Linda Hamilton, em O Exterminador do Futuro), Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e Ellen Ripley (Sigourney Weaver, em Alien). São mulheres que fogem do estereótipo de mocinhas em perigo e pegam as armas e partem para a batalha.

Em termos sociológicos, podemos adentrar na seara da mídia oportunista e nos sangrentos noticiários que transformam tragédias cotidianas em piada, como por exemplo, uma matéria sobre perseguição entre traficantes e policiais orquestrada, na montagem televisiva, pela música tema do filme de 007 ou uma chamada sobre um ataque de tubarão tomando de empréstimo o arrepiante tema do clássico de Steven Spielberg, produzido por John Williams. As pessoas não se importam ou chocam muito pouco com a violência que nos acomete. Há também espaço para discussão da busca pela fama na era da democratização tecnológica. Se nas novas regras os eventos devem ser filmados, nada melhor que explorá-los e ganhar muito dinheiro na internet, haja vista que em alguns jornais locais há o pagamento ínfimo para a cobertura de crimes hediondos, assaltos, casais pegos no flagra em situação comprometedora, dentre outras questões. Nem é preciso ir muito longe, basta ver o excelente e recente O Abutre, uma produção que resume a minha observação neste tópico.

“Para alcançar fama não é preciso fazer nada de especial, basta que algo muito ruim aconteça com você”. É o que Sidney escuta no epílogo do filme, um diálogo doentio sobre fama e sucesso na era da internet e da necessidade das pessoas de alimentação do ego através de redes sociais. O assassino (ou os assassinos) da vez orgulha-se dos seus atos, e, sendo assim, nada melhor que filmar e divulgar os crimes na rede, tornando os seus atos “obras de arte” dignas de contemplação. Arte, por sinal, palavra chave para a boa condução da parte estrutural do filme.

O design de som continua sob o comando de Marco Beltrami, a fotografia eficiente de Peter Deming também se apresenta eficiente, trabalhos bem conduzidos e valorizados graças ao perfil da montagem de Patrick Lussier. Wes Craven é um cineasta ciente das vantagens em não mexer em time que está ganhando e oferece ao espectador uma narrativa com doses equilibradas de suspense, sustos e momentos hilariantes, como a franquia sempre mostrou.

No decorrer dos 111 minutos de filme, há a sensação de refilmagem não assumida. Os arquétipos estão todos lá: Jill é Sidney, Robbie é o cinéfilo Randy, Charlie é uma reinvenção de Stu, Trevor é o novo Billy e a divertida Kirby possui traços de Tatum. Há cenas que refazem o percurso de outros momentos de perseguição envolvendo Ghostface e as suas vítimas.

No que tange aos aspectos da metalinguagem, ponto nevrálgico do roteiro, há referências ao universo de Hitchcock (personagens como Marnie, Perkis, dentre outros), homenagens a Robert Rodriguez e Bruce Willis e uma ácida crítica aos filmes da saga Jogos Mortais. No feixe envolvendo as cenas de abertura, há um diálogo que aborda a falta de evolução dos personagens no horror pós-metalinguagem estabelecida por Pânico em 1996. E em relação a momentos antológicos, a frase final de Sidney, ao emplacar o “Ghostface” da vez é formidável: “uma dica, não mexa com a porra do original”. É de rolar de emoção, haja vista que a crítica da vez é a qualidade de muitas refilmagens caça-níqueis.

Confesso que mesmo sendo fã, uma nova continuação envolvendo os mesmos personagens talvez soe como apelo capitalista e coloque a franquia em evidência ruim. Acredito que acionar a memória e relembrar os bons momentos dos quatro filmes seja mais rentável que produzir mais um banho de sangue envolvendo Sidney. Há uma série a ser lançada pela MTV estadunidense. A ideia continuará a mesma e os produtores prometeram uma reprodução da cena de abertura do primeiro filme, lançado em 1996. Vamos aguardar os resultados, por enquanto, é esperar e com desconfiança. Um dos pontos fortes é a forma como os personagens se desenvolveram ao longo de quatro filmes, e este tipo de segmento não é o carro-chefe dos produtores envolvidos na série ainda inédita.

Pânico 4 (Scream 4, Estados Unidos – 2011)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Neve Campbell, Courtney Cox Arquette, David Arquette, Emma Roberts, Marley Shelton, Hayden Panetierre, Adam Brody, Nico Tortorella, Anna Paquin, Kristen Bell, Lucy Halle, Rory Culkin, Alisson Brie
Duração: 111 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.