Crítica | Pânico na Floresta

PÂNICO NA FLORESTA

estrelas 3

A realidade pode ser mais cruel que a representação cinematográfica? Essa é uma questão debatida há tempos, tanto no campo acadêmico como no senso comum. A estreia de Pânico na Floresta, no dia 05 de outubro de 2004, veio embasada de debates sobre a violência nos filmes e a relação com a realidade. Em novembro do ano anterior, aqui no Brasil, o povo brasileiro estava aterrorizado com a barbaridade dos crimes envolvendo os jovens Liana Friendenbach e Felipe Café. A mídia reprisou este caso à exaustão e radiografou a violência como uma das preocupações sociais mais relevantes da contemporaneidade.

O casal de namorados decidiu comemorar o sucesso do relacionamento com um acampamento numa região florestal. O crime ocorreu entre 01 e 15 de novembro de 2003, em Embu Guaçu, região metropolitana de São Paulo. Demarcado por tortura e estupro, o acontecimento perverso foi realizado por três criminosos, dentre eles um menor de idade, que estavam a caminho de uma pescaria quando tiveram a ideia de assaltar o casal, mas os planos se tornaram mais audaciosos que um simples roubo.

Felipe morreu com um tiro nuca. A jovem foi estuprada diversas vezes e foi levada até um matagal, tendo recebido um golpe de facão em seu pescoço, para logo depois, ser esfaqueada várias vezes. Essas são as informações do laudo da perícia, que tratou o caso como um dos crimes mais bárbaros da história do Brasil. Pelos jornalistas sensacionalistas e pela mídia que adora espirrar sangue em seus programas exibicionistas, o caso poderia muito bem se chamar “pânico na floresta”. Há, inclusive, várias versões de acontecimentos como esse, narrados de maneira ficcional na história dos filmes de terror: Wolf Creek – Viagem ao Inferno, Viagem Maldita e Pânico na Floresta, dentre outros.

Não diria que a vida imita a arte, ou vice-versa, mas a minha tese seria de que a vida pode ser tão cruel e macabra como a representação ficcional, tamanha a hediondez do crime envolvendo o casal de jovens torturados de maneira tão violenta. Ao seguir a mitologia dos filmes dos anos 1970, situados em zonas rurais e longe das facilidades tecnológicas dos centros urbanos, Pânico na Floresta nos apresenta o seguinte enredo: Chris (Desmond Harrigton) é um estudante de Medicina a caminho de uma entrevista de emprego. Ao seguir uma trilha que o levaria mais rapidamente para o seu destino, acaba por se envolver em um acidente de carro com um grupo de jovens, entre eles, a bela Jessie (Eliza Dushku).

Sem carro para dar continuidade ao trajeto planejado, todos saem em busca de ajuda. Ao procurar por um telefone, encontram uma cabana fétida no meio da floresta, cheia de evidências aterrorizantes. É a partir daí que a narrativa assume o seu papel: mortes violentas, cenas de perseguição e luta pela sobrevivência. Os algozes são representados por um trio fruto de relações incestuosas que se comunicam através de grunhidos guturais: Dente de serra, Um Olho e Três Dedos. As figuras fisicamente grotescas não são nomeadas no filme, mas ganha seus títulos nos créditos do filme.

O cenário é desolador se pensarmos que não há tecnologia que esteja disponível para salvar as vidas que são ceifadas a cada instante. Montanhas, arbustos, árvores frondosas e cachoeiras cercam os personagens, caçados numa perseguição implacável, bem dirigida dentro dos padrões e das possibilidades oferecidas pela produção, graças ao trabalho de direção de Rob Schimdt e da montagem de Michael Ross.

Como nem tudo é perfeito, a sequência de mortes é mais do que manjada: drogados, lascivos e histéricos são destroçados quase nessa ordem. Tudo muito repetitivo e esperado, assim como a formação subentendida de um casal por parte dos protagonistas. O diretor, que já havia assinado uma adaptação televisiva de Crime e Castigo para o contexto contemporâneo, já estava familiarizado com a temática da violência psicológica, e em Pânico na Floresta, especializou-se na violência gráfica: a produção não economiza em flechadas e machadadas e capricha na contagem de corpos, perdendo apenas para a série Sexta-Feira 13.

Ao longo dos seus rápidos 84 minutos de duração, Pânico na Floresta faz uma homenagem aos clássicos dos anos 1970, dentre elas, O Massacre da Serra Elétrica e Quadrilha de Sádicos. A produção é uma narrativa eficiente e que pode ser respeitada pela honestidade dos seus propósitos: roubar, matar e destruir, não exatamente nessa ordem, mas seguindo à risca este estilo. Há o velho e desnecessário susto final, além da garantia de possíveis continuações. De fato, essa previsão assinalada na época do lançamento se estabeleceu: o filme já está em seu sexto episódio, todos lançados diretamente para o mercado de DVD, um mais deplorável que o outro.

Pânico na Floresta (Wrong Turn, Estados Unidos – 2003)
Direção: Rob Schimdt
Roteiro: Alan B. McElroy
Elenco: Desmond Harrigton, Eliza Dushku, Emmanuelle Chriqui, Jeremy Sisto, Kevin Zegers, Hindy Booth
Duração: 84 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.