Crítica | Pânico

estrelas 4

Come on baby (don´t fear the reaper)

Trecho da canção Don´t fear (The Reaper)
da banda Blues Oyster Cult

A história dos filmes de terror ganhou um amplo tópico com o lançamento de Pânico nos meados dos anos 1990. Assumo que não há (e não quero) deixar o tom confessional ao falar sobre os quatro filmes da série, pois são estes alguns dos responsáveis pela existência deste texto que você, caro leitor, contempla, bem como da profissão adicional de crítico cinematográfico. Na época, não tinha idade suficiente para assistir ao filme no cinema. Soube da produção por um anúncio na revista SET – Cinema e Vídeo e aguardei a chegada do VHS para conferir em casa. Inicialmente achei fantástico aquele jogo psicológico com perguntas que eu sabia tranquilamente responder. Ao final, a sensação de estranheza me tomou, pois estava acostumado a uma mocinha rachar a cabeça do psicopata, mas não, o roteiro trazia um sangrento epílogo, adornado por uma longa e metalinguística explicação para os assassinatos. Foi preciso algum tempo e rever algumas vezes o filme para compreender bem a proposta.

Tributário do já clássico Halloween, Pânico revitalizou o gênero em 1996, assim como o equilibrado suspense que nos revelou o psicopata Michael Myers o fez em 1978. Por sinal, segundo o roteirista Kevin Williamson, foi o filme que o trouxe para o mercado, e, consequentemente, para escrever os roteiros de três filmes da série e outros derivados divertidos que ilustrariam a frutífera década de 1990.

Wes Craven orquestra uma trama que nos remete ao Estripador de Gainesville, um criminoso que estripou uma média de cinco mulheres no começo dos anos 1990 e as colocava em poses chocantes para impressionar os investigadores. Em Pânico, acontece algo semelhante, haja vista que Ghostface orgulha-se dos seus atos e faz questão de deixar rastros inventivos em seu sangrento caminho. No filme, um psicopata (ou dois?) assusta a pacata Woodsboro, uma cidade do interior da Califórnia. Em seu modus operandi, ele liga para a vítima e faz perguntas sobre filmes de terror. Não importa se a personagem vai acertar ou errar, pois quem aparece em cena neste infame jogo vai morrer por algum motivo.

Logo, somos apresentados a Sidney Prescott (Neve Campbell), uma jovem estudante local que viveu um trauma em seu passado recente: o assassinato brutal de sua mãe de forma muito semelhante aos crimes que estão deixando a cidade apavorada. Não vai demorar muito para Sidney descobrir que entre a história de sua mãe e os crimes atuais há um fio bastante tênue. É aí que entra Gale Wheaters (Courtney Cox), uma repórter que não se importa com o derramamento de sangue, mas com o número de notícias em primeira mão ou os ditos “furos” de reportagem, e Dewey (David Arquette), personagem atrapalhado que morreria no roteiro original, mas foi mantido para a continuação por ter agradado ao público presente na sessão teste realizada meses antes do lançamento oficial.

Pânico, como todo bom filme, é cheio de significados. Primeiro, a trilha sonora possui canções bastante significativas, como a epígrafe desta crítica, uma alusão ao “ceifador” do filme. Na canção Whisper to a scream, da banda Soho, a letra faz alusão a liberdade, ao pathos e ao nirvana, três questões simbólicas que envolvem especificamente a personagem Sidney Prescott. Em um trecho, ao entoar que Birds fly/ in the eye of the pathos daughter/ spoken/at the better end, a faixa é clara: Sidney encontraria o seu caminho depois do sanguinolento acontecimento em Woodsboro; todavia, não é isso que de fato acontece, pois a moça será perseguida logo depois, na continuação, perdendo mais amigos e pessoas que ama para um trágico destino demarcado em seu mapa vital.

Se pensarmos na ideia de pathos, originada na cultura grega, estamos diante de um tipo de evocação humana ou representação artística que evoca sentimentos como piedade e compaixão no espectador. Na sua Poética, Aristóteles traz isso ao dizer que uma tragédia precisa evocar “meios de sentir medo e piedade”. Para o filósofo, o pathos envolve emoções fortes e muito “terror”. Por envolver também a ideia de catástrofe e destino, Sidney se encaixa perfeitamente na definição, principalmente pelo fato do termo designar, também, padecimento. Sidney é passiva dos acontecimentos, não pode fugir da sua condição de vítima, pois tudo que envolve o misterioso panorama de crimes vai além do seu controle.

A letra da canção supracitada, por sinal, ao citar vocábulos como “nirvana”, por exemplo, nos engana momentaneamente. Oriunda do Budismo, a palavra designa estado de libertação (outra palavra da canção) atingido pelo ser humano ao percorrer a sua busca espiritual, em suma, a sua vida. Atingir o nirvana seria superar o karma e o sofrimento, ou seja, adentrar em um estado de plenitude e paz interior. Sidney, mais que qualquer um dos personagens em Pânico, vai perceber que será quase impossível sair da situação em que se encontra. As perdas e a perseguição em Pânico 2, a curta duração do exílio em Pânico 3 e o ressurgimento do horror dentro do eixo familiar em Pânico 4 dão indícios da sua situação conflituosa, o que desagua na sua evolução como personagem, talvez um dos pontos mais fortes de toda a série.

Em termos publicitários, grande fama e nome central no cartaz nem sempre é sinal de protagonismo. Drew Barrymore, inicialmente convidada para ser Sidney Prescott, preferiu participar apenas da cena de abertura, hoje referenciada e um marco do cinema. Para os interessados em metáforas visuais, termo cunhado pelo teórico Marcel Martin no basilar A Linguagem Cinematográfica, a cena inicial do filme nos apresenta um caso clássico: a pipoca estoura freneticamente enquanto a personagem tenta sobreviver ao ataque de Ghostface. Metáfora aparentemente simples, mas das boas.

No que tange aos aspectos da direção de arte e do design de produção, Pânico consegue ser bastante eficiente: há uma sensação de acolhimento nas ruas e nas habitações de Woodsboro. Um local com cercas baixas, arquitetura sofisticada, arborizado e aparentemente equilibrado (o que saberemos logo ser uma falácia diante dos atos criminosos). A trilha sonora nos conduz na compreensão dos personagens e de seus respectivos destinos e a montagem, aliada ao trabalho de direção de Wes Craven e do roteiro de Kevin Williamson, dão a coesão necessária para o primor narrativo do filme.

Ao longo dos seus 111 minutos de duração, Pânico traz muitas referências ao gênero terror que vão além das perguntas do assassino ao telefone. No corredor da escola, o zelador que aparece rapidamente veste uma roupa semelhante ao clássico figurino de Freddy Krueger, vilão que alçou Wes Craven ao sucesso nos anos 1980. Linda Blair, a eterna garotinha do estupendo O Exorcista, aparece como uma repórter, mesmo que sua participação seja ínfima e sem nenhuma função narrativa.

Com Pânico, Wes Craven provou, mais uma vez, que sabe gerir bem uma trama de suspense. Não que o diretor seja incompetente para outros trabalhos, afinal, dirigiu Meryl Streep em Música do Coração, performance que rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz para a queridinha de Hollywood. Wes pode tranquilamente fazer drama, mas é no suspense e no terror gráfico ou psicológico que ele alcança o seu ápice. Responsável por reflexões abissais em A Hora do Pesadelo e no terror social Quadrilha de Sádicos, o diretor sempre soube dar charme a filmes que poderiam ser fiascos nas mãos de outros diretores.

Nós, espectadores, agimos como crianças em um parque de diversões. Estamos diante de filmes que testam os nossos medos. Adentramos nessas narrativas como válvula de escape para os medos reais, pois sabemos que há saída, que sobreviveremos, em detrimento de alguns personagens assassinados. Nossa geração, como afirma Wes Craven, possui os seus medos específicos e através dos filmes conseguem expurgar esses conflitos que, por sinal, continuam no próximo filme, o ótimo Pânico 2, e, portanto, no próximo texto.

Pânico (Scream, EUA – 1996)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Drew Barrymore, Neve Campbell, David Arquette, Courtney Cox Arquette, Mathew Lillard, Skeet Ulrich, Rose McGowan, Jamie Kennedy, Linda Blair
Duração: 111 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.