Crítica | Pantera Negra: Inimigo do Estado

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Seguindo da maneira mais maluca possível os eventos de O ClienteInimigo do Estado encerra a narrativa de golpe e de tumultos na fronteira de Wakanda mais as investigações de T’Challa em solo americano e a narrativa desesperada e absurdamente hilária de Everett “Imperador de Inúteis Caras Brancos” Ross, da Agência de Segurança Nacional, destacado para acompanhar O Rei. Desde o primeiro arco de Black Panther Vol.3, o personagem vem representando um ponto de vista que, se feito inicialmente para atender a uma demanda mercadológica — sob solicitação dos editores da revista na época, Joe Quesada e Jimmy Palmiotti, para atrair o básico leitor de quadrinhos nos EUA –, acabou extrapolando o ideal de “personagem encomendado” e, através do roteiro de Christopher Priest, conseguiu se tornar um dos personagens mais legais da revista.

Como disse anteriormente em O Cliente, o leitor precisa ter um pouco de paciência com as histórias de Priest nesta fase do Pantera Negra. Lembremos que, até aqui, este título fazia parte do selo Marvel Knights e isso implica um rigor maior por parte do autor em contar suas histórias — ou seja, sem muitas facilidades ou didatismo — e um conteúdo mais maduro, não necessariamente “fora da curva”, mas certamente distanciado da porradaria descerebrada como único caminho possível para guiar uma série. Pensando por este caminho, fica fácil entender o por quê os roteiros para esse título brincam de maneira tão ousada com o tempo e não se ressentem em manipular a perspectiva do público em relação ao espaço e às intenções de cada personagem, começando nos Estados Unidos com o Pantera Negra ao lado de Zuri, duas Dora Milaje (Nakia e Okoye) e um certo encontro com os Vingadores, e terminando em Wakanda ao lado do Lobo Branco (Hunter), dos Hatut Zeraze e do Capitão América.

As dúvidas ligadas ao cerne da narrativa vão os poucos se dissipando e o governo golpista de Achebe, sua verdadeira intenção, sua chegada ao trono (que sim, no primeiro arco constituiu-se algo negativo por ser repentino e com poucos elementos que justificassem isso. Aqui, porém, tudo se explica) e a relação que isso tem com a já intricada sequência de eventos ligados à estadia do Pantera Negra na Terra do Tio Sam são plenamente resolvidas, tendo nas edições ilustradas pela arte realista e marcante de Joe Jusko a sua melhor exposição. Vale dizer que Amanda ConnerMike Manley e Mark Bright também fazem bons trabalhos, mas em nenhum desses casos temos a imponência e a perfeita ligação do tipo “trama da selva se passando na cidade” que as edições desenhadas por Jusko têm, principalmente porque na primeira metade do arco o Pantera tem Kraven em sua cola, vilão contratado por um endinheirado, uma Corporação e alguns países interessados em desestabilizar a política, estabelecer um governo fantoche e dominar os recursos naturais de Wakanda.

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Cada um tem o Espírito Animal que merece…

Jamais subestimando o leitor e fazendo valer a paciência depositada no decorrer da leitura, Priest fecha a história com uma grande batalha. No decorrer das edições, reencontramos antigos personagens da mitologia do herói, como Monica Lynne (da época em que o Pantera ainda fazia parte dos Vingadores e depois, com sua presença marcante no retorno de T’Challa a Wakanda, em A Fúria do Pantera) e Ramonda, a Rainha-Mãe, cujo papel de “madrasta má” ganha destaque em uma parte do enredo, integrando a brincadeira e os subterfúgios que o autor utiliza para mostrar um grande plano de T’Challa. Em dado momento da história o Agente Ross diz que a gente continua se esquecendo que o Pantera Negra é um rei e um homem muitíssimo inteligente. Diante de alguns caminhos que ele segue o leitor até pode duvidar de sua capacidade ou de algumas pessoas ao seu redor, uma dúvida que, no desfecho do arco, é colocada em cena e meticulosamente massacrada.

Algumas complicadas histórias em quadrinhos são apenas isso mesmo: histórias complicadas. Além de nos irritar, acabam não compensando o esforço para juntar as peças ou a paciência empregada durante a leitura. Este não é o caso de Inimigo do Estado. O arco é encerrado com uma nota cômica e de vitória (um pouco amarga, mas ainda assim…) que nos deixa plenamente satisfeitos pelo que vimos. No processo, poucos momentos se mostram fracos ou não recebem a esperada compensação. No todo é uma excelente história de estratégia política, uma luta contra as muito conhecidas ambições de corporações e potências em controlar a economia de “países fracos” e mover as cordas políticas de uma nação inteira a seu favor, não importando quanto sangue ou horror espalhem no processo — contanto que o resultado volte em muito dinheiro para os seus cofres. Isso, obviamente, não se concretiza em Wakanda. As “garras invisíveis do mercado” escolheram o pote de ouro e o arco-íris errados para surrupiar.

Black Panther: Enemy of the State (Black Panther Vol.3 #6 – 12) — EUA, 1999
Roteiro: Christopher Priest
Arte: Joe Jusko, Amanda Conner, Mike Manley, Mark Bright
Arte-final: Joe Jusko, Jimmy Palmiotti, Vince Evans, Mike Manley, Nelson DeCastro
Cores: Avalon, Drew Posada, Elizabeth Lewis, Chris Sotomayor
Letras: Richard Starkings, Comicraft, Richard Starkings, Liz Agraphiotis
Capas: Joe Jusko, Mike Manley, Mark Bright
Editoria: Joe Quesada, Jimmy Palmiotti
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.