Crítica | Pantera Negra: O Álbum

  • Leia, aqui, as críticas do filme.

Não há ninguém mais relevante que Kendrick Lamar no hip-hop atual. Ninguém. E olha que costumo achar esse tipo de afirmação um tanto pretensiosa e perigosa, mas basta estar um pouco inteirado a respeito da cena musical do gênero (que anda muito boa, que fique claro) para chegar a essa conclusão. Logo, parece ter sido a escolha perfeita da Marvel Studios chamar K-Dot para produzir a trilha sonora do filme do primeiro herói negro da casa das ideias (desculpe Blade, mas você não está no Universo Cinematográfico Marvel).

Produzido por Kendrick (que participa de cinco faixas) junto a Anthony “Top Dawg” Tiffith (dono da gravadora Top Dawg Entertainment), Pantera Negra: O Álbum cataloga uma coleção de artistas do hip-hop e R&B atual, uma seleção de calibre um tanto invejável. É interessante notar a predileção por nomes em ascenção no gênero. Jorja Smith – popular por parcerias com Drake – aparece sedutora no doce R&B de I Am, assim como SZA – grande revelação de 2017 – surge com seu carisma pop no ótimo single All The Stars e Kendrick reveza bons versos com Future e Jay Rock em King’s Dead. Cada artista parece incorporar bem sua assinatura, como as batidas e versos frenéticos de Opps, com participação de Vince Staples, que parecem quase saídos de seu último álbum Big Fish Theory, assim como a vibe chill-out de The Ways parece faixa bônus da estreia de Khalid em American Teen, do ano passado.

Só que acostumamos a esperar sempre algo surpreendente de Kendrick Lamar, e o que nos deparamos aqui não possui tanto frescor de inovação, se apegando de forma excessiva ao trap e, vez ou outra, batidas clichês do gênero. Além disso, para um filme que aborda a cultura africana (Wakanda, a terra do herói do longa, é um país fictício do leste africano), temos aqui uma trilha sonora demasiadamente americana. Kendrick já fez viagens ao continente africano, experiência que resultou em muitas faixas de To Pimp A Butterfly; é normal esperar que o artista se preocupe em inserir bastante da marcante percussão do som africano. Não que isso não aconteça – várias faixas pegam tais características, como os beats selvagens da excelente Pray For Me e seu coro referenciando barulhos tribais – mas em sua maior parte o álbum sugere mais imagens do subúrbio americano do que de um território efetivamente africano.

A trilha de Pantera Negra é acertada e coesa, feita com o selo de qualidade esperado de um curador como Kendrick Lamar. Possui uma personalidade enorme se comparada à trilha de outros longas de super heróis, mas talvez nem tanto se analisado dentro da lente do mercado do hip-hop. Assim como Isaac Hayes se tornou eterno através de sua trilha para Shaft, Curtis Mayfield por Superfly, ou Marvin Gaye por Trouble Man, Kendrick ficará marcado por seu dedo na trilha de Pantera Negra, mesmo que não no mesmo patamar qualitativo das outras trilhas mencionadas. Já é uma grande vitória em tempos de overdose de Hans Zimmer.

Aumenta!: Pray For Me
Diminui!: Paramedic

Black Panther: The Album
Produção e curadoria: Kendrick Lamar e Top Dawg
País: Estados Unidos
Lançamento: 9 de fevereiro de 2018
Gravadora: Top Dawg Entertainment
Estilo: Hip-hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.