Crítica | Papéis ao Vento

estrelas 3

Talvez um dos países mais obcecados por futebol do que o Brasil seja a nossa vizinha Argentina. Por lá, diferente do que acontece em terras brasileiras onde cada estado possui um grande, ou pelo menos médio, time de futebol escolhe-se entre pouco as maiores equipes da capital, ou das cidades próximas a ela. É o caso dos conhecidos River Plate, Boca Júniors, Racing, Estudiantes, Vélez Sarsfield e Independiente, time que o diretor Juan Taratuto decidiu homenagear com Papéis do Vento, a nova sensação do cinema argentino.

A história acompanha a amizade entre quatro homens apaixonados pelo Independiente: El Mono (o ex-jogador de futebol que não se conforma em não viver do esporte), Maurício (o advogado bem sucedido), El Ruso (o dono de um lava-rápido que passa os dias jogando no videogame) e Fernando (professor centrado e irmão mais velho de El Mono). Inseparáveis, os amigos veem tudo desmoronar nas suas cabeças quando El Mono morre de um câncer e deixa para trás uma filha pequena, Guadalupe. Os três amigos então saem em busca de deixar algum futuro para a menina e decidem recuperar um investimento que o amigo havia feito, anos atrás, em um jogador que deveria se tornar uma estrela, mas não passa de um perna de pau.

O roteiro, assinado por Taratuto e Eduardo Sacheri (que já havia assinado sucessos como O Segredo Dos Seus Olhos e Um Time Show de Bola) funciona na grande maioria do filme. As idas e vindas dos amigos em busca da contratação do jogador levam o espectador a ficar na torcida, literalmente, em busca de um desfecho bom para todos. No entanto, o roteiro pode ser visto com maus olhos por alguns espectadores. No mundo do futebol retratado no longa a “trampa” corre solta. É comentarista de futebol pedindo dinheiro para soltar uma nota sobre o jogador, é escritório realizando transações nada honestas, roubos de carro, etc. Para alguns isso pode incomodar, afinal, a honestidade ainda deveria imperar no mundo, não é mesmo? Mas vamos pensar que estamos falando de uma obra de ficção e como tal, liberdades são sempre aceitas, na maioria dos casos.

Mas o filme reserva momentos realmente emocionantes para quem, como eu, tem uma relação com a “pelota”. Se você gosta de futebol (nem precisa ser fanático) e já se emocionou com o seu time em campo, prepare-se amigo, pois Papéis ao Vento vai te pegar em cheio. É linda e comovente a preocupação de El Moro em um flashback (o recurso é muito bem usado pelo diretor) com o futuro da sua filha. Mas não é uma preocupação com seus estudos, ou como ela será quando adulta. É uma preocupação clubística, afinal, assim como o pai ela deveria ser apaixonada pelo vermelho, tinha que ter a cor no seu coração. A cena que se passa a seguir é mesmo linda e alguns marmanjos podem até soltar algumas lágrimas lembrando daquele jogo inesquecível, do gol que levou à vitória, daquela final de campeonato.

A direção de Juan Taratuto é competente, mas sem mostrar muitas inovações. A trilha sonora assinada por Ivan Wyszogrod pontua bem a busca dos amigos pelo futuro da menina e comove nos momentos mais emocionantes da trama.

Vale lembrar que Papéis ao Vento não é um filme argentino como os brasileiros estão acostumados a assistir. Na sessão em que eu estava quatro pessoas saíram e desconfio que foi pela temática futebolística do filme. Por isso, se você não curte futebol talvez se decepcione um pouco com Papéis ao Vento. Mas seria uma pena não ver esse exemplar desse cinema que conquista cada vez mais fãs fora de seu país. Uma prova de que o drama pode ser feito com leveza e não precisa ser perfeito. Prova de que um roteiro competente, um assunto de apelo nacional e um bom elenco fazem sim um filme que vale o ingresso!

Papéis ao Vento (Papeles en el Viento, Argentina – 2015 )
Direção: Juan Taratuto
Roteiro: Eduardo Sacheri, Juan Taratuto
Elenco: Pablo Echarri, Diego Peretti, Pablo Rago, Diego Torres, Paola Barrientos, Cacho Buenaventura, Daniel Rabinovich e Cecilia Dopazo
Duração: 100 min.

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.