Crítica | Papillon (1973)

Papillon, estrelado por Steve McQueen e Dustin Hoffman é, inegavelmente, um clássico da categoria de “filmes de fuga de prisão”, provavelmente lado-a-lado com Alcatraz – Fuga Impossível, de seis anos depois, ambos baseados em fatos reais e envolvendo cárcere em ilhas. Mas, enquanto a obra com Clint Eastwood se preocupa muito mais com o “como” da fuga, trabalhando as maquinações do protagonista para construir seu complexo plano, a produção franco-americana objeto da presente crítica é, talvez, mais voltada para a relação humana entre seus dois personagens principais e o inescapável desejo de ser livre do personagem-título.

Baseado em autobiografia de Henri “Papillon” Charrière, cujo apelido – “Borboleta” – vem da tatuagem em seu peito, o filme conta a história de seu aprisionamento na dura e cruel colônia penal de St-Laurent-du-Maroni, na Guiana Francesa, local para onde grande parte dos prisioneiros franceses eram enviados para cumprir pena desde sua criação, por Napoleão III, na segunda metade do século XIX. Ainda a caminho da prisão, Papillon (McQueen), preso por assassinato, crime que ele diz não ter cometido (apesar de confessar ser ladrão de cofres) estabelece uma relação “comercial” com o prisioneiro-estrela Louis Dega (Hoffman), rico, franzino, dependente do uso de óculos com lentes fundo de garrafa e encarcerado por falsificação e estelionato. Nessa relação, Dega, cobiçado pela potencial fortuna que esconde em seu corpo, é protegido por Papillon que, em troca, quer apenas o financiamento necessário para sua fuga.

No entanto, o que começa de maneira fria e distante, logo torna-se uma relação de amizade e confiança, especialmente depois que Papillon vai para a solitária, recebe tratamento especial graças a Dega e, quando o esquema é descoberto, recusa-se a entregar o amigo. É interessante notar, porém, que, apesar dos dois grandes nomes do elenco, McQueen e Hoffman, separadamente, são sensivelmente menos interessantes do que quando juntos. O roteiro escrito por Dalton Trumbo (seu último longa para cinema, aliás) em parceria com Lorenzo Semple Jr. (então mais conhecido por seu trabalho na série sessentista Batman e Robin) falha ao não permitir uma aproximação maior do espectador em relação aos personagens, trabalhando suas vidas pregressas com diálogos expositivos – hábeis, mas mesmo assim expositivos -, o que dificulta a empatia para além do clichê dos prisioneiros mal-tratados que precisam se virar para não morrer. Mas a interação de Papillon com Dega é bem construída e vemos a admiração de um pelo outro crescer exponencialmente ao longo da narrativa, o que acaba transcendendo até mesmo os profundos olhos azuis de McQueen e o jeito de perdido de Hoffman.

Outro aspecto que chama atenção logo de início é o cuidado da produção – caríssima para os padrões da época – em fazer filmagens em locação na Espanha, Havaí e Jamaica, emprestando veracidade para as sequências na selva tropical, nos pântanos perigosos e na prisão em si. Diferente do padrão dos filmes de prisão, o confinamento em quatro paredes é menor e a direção de Franklin J. Schaffner (diretor de relativamente poucos, mas excelentes longas como O Planeta dos Macacos e Patton – Rebelde ou Herói?) tira proveito disso ao tornar todo o ambiente mais “naturalista” um grande cárcere a céu aberto que gradativamente esmaga os detentos e, por tabela, o espectador, algo que a fotografia quente de Fred J. Koenekamp (Inferno na Torre) amplifica mantendo uma paleta de cores cáustica.

Mas o filme não funcionaria não fosse a qualidade dos figurinos de Anthony Powell (Trilogia Clássica de Indiana Jones) e, mais ainda, da maquiagem de Charles H. Schram (O Poderoso Chefão: Parte II) e dos penteados de Evet Hussey (que, criminosamente, não recebeu créditos). Toda a brutal passagem de tempo é marcada sobretudo por esses elementos cinematográficos, já que a montagem de Robert Swink (A Princesa e o Pebleu), sozinha, não seria capaz de obter os efeitos desejados. É particularmente chocante a deterioração de Papillon ao longo de seus dois anos na solitária, com os vincos em seu rosto, o preto em seus dentes e o branco em seu cabelo tornando-se gradativamente mais aparentes, ao passo que seus olhos azuis tornam-se cada vez mais opacos, mortos. É como ver um homem ser drenado de vida diante de nossos olhos, algo que nem muito CGI moderno seria capaz de replicar com o mesmo grau de verossimilhança. E todos esses pormenores ajudam McQueen em sua performance, já que o ícone de sua época, com todas as suas qualidades, nunca foi um ator de larga latitude dramática, algo que fica ainda mais patente com sua contraposição à Dustin Hoffman, que não precisa de muito mais do que os óculos de lentes grossas e um cabelo de monge franciscano para compor um personagem do mais alto gabarito.

Jerry Goldsmith, então na quarta (de sete) colaboração com Schaffner, compôs uma trilha sonora delicada para o filme que em nenhum momento chama atenção para si mesma, como às vezes acontece na trilha de O Planeta dos Macacos, indicada ao Oscar. A decisão é muito acertada, pois abre espaço efetivo para o drama e para a violência da agonia de anos de Papillon, com Schaffner cirurgicamente utilizando a música somente quando essencial para dar estofo dramático a algumas cenas, o que torna a longa projeção razoavelmente independente de sua trilha.

Papillon transcende o gênero cinematográfico em que se situa ao conseguir trazer para as telonas um conto inesquecível de amizade entre duas almas gêmeas que não têm mais nada a não ser eles próprios para viver. Sim, é um filme de prisão, mas o esforço hercúleo facilmente verificável à frente e atrás das câmeras faz com que o espectador consiga sentir de verdade o drama desses dois amigos de cárcere sonhando com a liberdade.

Papillon (Idem, EUA/França – 1973)
Direção: Franklin J. Schaffner
Roteiro: Dalton Trumbo, Lorenzo Semple Jr. (baseado em autobiografia de Henri Charrière)
Elenco: Steve McQueen, Dustin Hoffman, Victor Jory, Don Gordon, Anthony Zerbe, Robert Deman, Woodrow Parfrey, Bill Mumy, George Coulouris, Ratna Assan, William Smithers, Val Avery, Gregory Sierra, Vic Tayback
Duração: 151 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.