Crítica | Papillon (2017)

O que um remake deve ser para justificar sua existência? E se a obra original for normalmente considerada um clássico, algo muda na resposta anterior? Sempre debati-me sobre o assunto, já que costumeiramente tenho problemas com essa necessidade de se revisitar obras passadas no lugar de criar outras novas. Vale um parênteses importante de esclarecimento aos mais antenados: essas perguntas cabem muito bem aqui, pois, mesmo considerando que os dois Papillon são adaptações das autobiografias de Henri “Papillon” Charrière, o filme de 2017 é, talvez mais ainda, uma nova adaptação do roteiro de Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., como fica evidente na comparação e, também, nos créditos.

Estrelando Charlie Hunnam, o Jax de Sons of Anarchy, como o personagem-título e Rami Malek, o Eliott de Mr. Robot, como Louis Dega, Papillon reconta a famosa história de encarceramento brutal pontilhado por tentativas de fuga da colônia penal de St-Laurent-du-Maroni, na Guiana Francesa. Enquadrado por sequências pré e pós fuga, a primeira lidando com detalhes da cilada armada para Papillon que o leva a ser condenado à prisão perpétua e a segunda com a publicação da primeira autobiografia, o longa repassa com muita fidedignidade aquilo que a adaptação de 1973, com Steve McQueen e Dustin Hoffman nos papeis principais, imortalizou na tela grande.

O grande foco, portanto, não é exatamente nos detalhes da fuga, como costumam ser os roteiros de filmes do gênero, mas sim na relação entre Papillon e Dega que, se começa de maneira interesseira e fria, logo evolui para uma amizade que sobrevive a tudo. Hunnam e Malek conseguem o improvável com seus trabalhos aqui: terem uma química comparável à de McQueen e Hoffman. Assim como McQueen, Hunnam não é um grande ator, mas, também como McQueen, ele tem carisma e magnetismo, o que contrasta fortemente com a desajeitada e estranha (no bom sentido) interpretação de Malek, que evoca a de Hoffman até na forma como ele manuseia os óculos. Mas não se enganem. A dupla atual mantém suas características próprias e consegue distanciar-se dos protagonistas mais ilustres de outrora.

Majoritariamente filmado em locações no leste europeu fazendo as vezes da escorchante Guiana Francesa, a direção de fotografia de Hagen Bogdanski (A Vida dos Outros) faz um belíssimo esforço para trocar a paleta de cores quentes por frias, notadamente o cinza e seus tons, mantendo e amplificando a atmosfera opressiva do local. A direção do dinamarquês Michael Noer, por seu turno, mantém um ritmo compassado durante toda a projeção, o que impede que o espectador se disperse na longa projeção e mantenha seu interesse mesmo conhecendo, ainda que em linhas gerais, o final. Mesmo que o roteiro de Aaron Guzikowski (Os Suspeitos) só traga algo de novo para quem nunca viu o clássico setentista, essa falta de ousadia ganha uma certa compensação com o bom trabalho técnico da direção e direção de fotografia, assim como a atuação dos protagonistas.

É  uma pena constatar, porém, que a passagem de tempo tão magistralmente marcada pela maquiagem e figurino no filme de Franklin J. Shaffner não ganhe o mesmo tratamento aqui. Sim, Hunnam e Malek passam por grandes alterações físicas, mas elas mantém fortemente as características dos respectivos atores, parecendo muito mais  como algo pensado “na correria” do que como um elemento integral da história, provavelmente para impedir a aversão do espectador pelos personagens.

Aliás, curiosamente, o filme faz de tudo para fugir da violência extrema e da repugnância, o que parece uma escolha estranha considerando-se toda a atmosfera e mitologia que é construída ao redor da prisão. Não que seja necessário tornar a violência explícita para que ela seja eficiente, mas, aqui, há uma economia que flutua entre momentos em que a câmera literalmente se afasta da ação, como na sequência da guilhotina ou outros em que ela entra na cena para desnortear o espectador e impedir a observação de sangue, como na luta no navio. É como se o diretor estivesse indeciso entre mergulhar de cabeça na brutalidade e fazer uma obra mais palatável para todos os públicos. O resultado é que os momentos de tensão tendem a ser anticlimáticos e, em alguns casos, mal resolvidos, notadamente na sequência da fuga do hospital.

E então, pensaram no que um remake precisa ter para ele ser relevante? Pois eu não tenho essa resposta. A impressão que dá é que talvez seja possível simplesmente apreciar substancialmente a mesma coisa pela segunda vez apenas aproveitando as “pequenas diferenças”, no caso o novo e bom elenco, a eficiente direção de fotografia que torna invisível o efeito da “mudança de ares” causada pelas locações, tudo, claro, pautado pela sempre dolorosa, mas gratificante narrativa clássica que lida com a busca pela liberdade a todo custo. Sim, o original é ainda melhor, mas, 45 anos depois, a nova adaptação não faz feio. Nem de longe, aliás.

Papillon (Idem, EUA/Espanha/República Tcheca – 2017)
Direção: Michael Noer
Roteiro: Aaron Guzikowski (baseado em romances autobiográficos de Henri Charrière e em roteiro de Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr.)
Elenco: Charlie Hunnam, Rami Malek, Tommy Flanagan, Eve Hewson, Roland Møller, Michael Socha, Nina Senicar, Yorick van Wageningen, Ian Beattie, Christopher Fairbank, Brian Vernel,  Joel Basman, Fernanda Diniz
Duração: 133 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.