Crítica | Para Ter Onde Ir

No primeiro momento de Para Ter Onde Ir, primeiro longa da paraense Jorane Castro após uma série de experimentações em curtas-metragens, uma mulher se encontra num pequeno barco em movimento nas longas águas de um rio. Uma chuva se anuncia, e quando ela cai, a câmera estática não se desvia, não floreia o momento, e se deixa respingar pelas gotas da água que cai. É uma abertura tão despojada e naturalista quanto toda a jornada que iremos acompanhar pela visão de três absurdamente distintas entre si, mas que se convergem num ponto em comum, as buscas pessoais por algo que, desde a primeira linha, Jorane não faz questão de nos deixar claro.

Rodado em 2015 e tendo angariado uma bem-vinda recepção em festivais, o filme também rodado no Pará, terra natal da diretora, segue muitos dos moldes de um cinema contemplativo, enigmático, um road movie onde não é a estrada que importa, mas até onde as buscas daquelas três mulheres por respostas ou algo que as preencha irão lhes transformar. E por três mulheres, falamos aqui de Eva (Lorena Lobato), uma mulher madura e controladora, porém cheia de incertezas, Melina (Ane Oliveira), uma interessada na liberdade e na completude do amor, e Keithylennye (Keila Gentil), uma ex-dançarina e cantora de de tecnobrega que lamenta ter tido que abandonar sua carreira para criar a filha.

Enquanto outros rostos passeiam pelo longo caminho que nossas personagens percorrem, seja uma senhora com uma criança pedindo carona ou crianças descalças que brincam despreocupadas pela areia, Jorane fixa sua câmera no trio feminino como mais uma acompanhante, mas que está ali como uma presença invisível, indetectável, interessada no desnudar interior de cada uma delas, buscando aqui a exploração da feminilidade em meio a dilemas que ora parecem estagnados em uma narrativa de grande melancolia e rigidez imagética, ora funciona como uma forte ferramenta para o individualismo de cada uma das mulheres, que apesar de viajarem juntas, partilham de poucos instantes onde um diálogo mais brando esteja presente. Há algo para ser libertado de dentro de cada uma delas, algo que entra num belo contraponto ao vazio incontestável que tomou conta do cotidiano de cada uma.

E rigidez pode ser a palavra certa para definir (se quisermos fazer isso de forma banal, o que seria um erro) Para Ter Onde Ir, uma vez que as imagens concebidas por Jorane, pesadas, estáticas, quase semi-documentais, podem se revelar difíceis para um público que espere por algo que seja entregue mastigado. Enquanto as imagens impressionam por esse olhar arrojado e ambicioso, quase sufocante, sobre cada movimento do trio, por vezes podem denunciar pequenas inconsistências no tom do filme que, em dado momento, ameaçam jogar a narrativa num ritmo fatigado, em especial pela recusa em fornecer informações tão cedo sobre o que cada uma procura. Engana-se, entretanto, quem pensa que Jorane não se faz íntima e, igualmente, não nos torna íntimos de Eva, Melina e Keithylennye. Seu roteiro as trata como amigas de longa data, nos fornecendo uma rica subjetividade sobre cada uma, manuseando os cortes, diálogos e o interesse da câmera pelos espaços de modo a pontuar cada catarse que se encontra nos passos dados (a cena de Keila Gentil cantando numa aparelhagem, e que ameaça ser absurdamente óbvia devido a atriz também ser cantora e dançarina deste gênero musical, alcança uma naturalidade invejável para um ponto-chave que poderia ser uma armadilha para a personagem).

Assim, Jorane capricha na dinâmica que elabora para cada linha e desdobro na narrativa, por mais que haja um notável desequilíbrio na atenção que a diretora confere para cada uma (Melina, particularmente, é a personagem de finalidade mais rasa), se revela um estudo deslumbrante e de belas camadas sobre três mulheres e suas visões de mundo, suas histórias tão cotidianas e instigantes, e tudo isto para falar sobre a feminilidade. “Eu sou é mãe”, diz uma delas em dado momento, uma fala que é tão pontual quanto os sons de uma briga engolidos pelo barulho forte do vento e do mar. É de um minimalismo envolvente e estimulante para uma mais que promissora cineasta.

Para Ter Onde Ir (idem) – Brasil, 2015
Direção
: Jorane Castro
Roteiro: Jorane Castro
Elenco: Lorena Lobato, Ane Oliveira, Keila Gentil, Ramon Rivera Moret
Duração: 100 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.