Crítica | Para Todos os Garotos que Já Amei

Para Todos os Garotos que Já Amei é a definição de típico, embora tenhamos, na superfície, uma mudança na capa deste livro, no simples fato da protagonista ser de descendência asiática. Nada disso importa e, mesmo que seja interessante um crescimento de representatividade dentro da indústria, essa característica da obra é, como bem dito, meramente uma característica, que não traz significados verdadeiros para o longa-metragem, como, por exemplo, traz para o contexto geral da produção cinematográfica – um ponto completamente diferente. Deixando isso bem claro, partimos do princípio da narrativa, que convida o espectador a se engajar nas desventuras de uma pessoa como qualquer outra, que já apaixonou, que está apaixonada ou se apaixonará. Lara Jean (Lana Condor) possui cartas destinadas a cinco garotos que já passaram pela sua vida, mas que também permitiram ela se sentir diferente do normal, embora a jovem nunca tenha pensado em enviá-las. Apenas uma fantasia. O destino – também conhecido como uma irmã mais nova -, porém, faz com que elas sejam entregues aos destinatários. Mas o que será do remetente? Dentro desse cenário, somos os destinatórios de uma produção sem muito esmero na criação, mas consideravelmente entendida da recriação de ambientações anteriores do cinema jovem.

Uma história dentro de toda a fórmula clássica dos romances high-school aguarda Lara Jean, com nós, os espectadores, enxergando-nos na tela da obra, destinada a nos fazer confortáveis durante essa associação, em um estado de espírito próximo da felicidade. O mais estranho é como o trailer da obra, ou qualquer material promocional acerca dela, entrega todos os caminhos a serem percorridos pela narrativa, inclusive nos sugerindo – garantindo, na realidade – quem será o par romântico da protagonista. Isso acontece justamente em um filme sobre vários garotos que já foram amados, que permitiria alguma dúvida nessa questão. A dúvida também reside mais além, já que a obra, prosseguindo com o enredo, acaba brincando com as fantasias adolescentes, do mesmo modo que tenta impedir que elas existam apenas na mente do espectador, convidando-os a torná-las realidades. A jornada de Lara Jean é sobre se permitir viver o amor, enquanto o longa abre as portas para essa trajetória diante de um relacionamento de mentirinha, existente apenas pelas segundas intenções – a ideia do contraste entre real e falso é interessante, brincando com o imaginário romântico do público. Os problemas, porém, surgem diante de uma obra sem finalidade concreta nessa ambiguidade, tornando-se consideravelmente genérica.

Dos cinco destinatários, apenas três têm qualquer relevância para a trama, enquanto, dessa trindade, apenas dois são realmente fundamentais para o desenvolvimento dela – o outro é só um acessório, que só não é descartável porque o personagem é minimamente amável, aspecto compartilhado com vários outros coadjuvantes do filme. A premissa inicial logo se esvai, com a obra transformando sua história em uma sobre as desventuras de dois namorados de mentira, com segundas intenções. A tecla acerca desses objetivos secundários é martelada incessantemente – um dos envolvidos quer abaixar o fogo de um sentimento nutrido no passado, contudo, proibido, e o outro quer causar uma espécie de ciúmes que não faz o menor sentido. Em nenhum momento, por exemplo, sentimos qualquer tensão em relação ao personagem que quer causar ciúmes na sua antiga namorada, sem parecer realmente que alguma coisa pode acabar acontecendo naquele meio, terminando o relacionamento de mentirinha. As regras e motivações dessa fantasia parecem bastante confusas e, em termos de evolução entre os sentimentos nutridos um pelo o outro, a pontuação está bem longe de ser diferente dessa. O terceiro envolvido nesse triângulo “amoroso” – uma espécie de, ao menos – pouquíssimo contribui, sendo um dos motes para a real história contada. A tristeza, dele, todavia, é sentida.

SPOILERS!

A confusão desse roteiro extremamente problemático, entretanto, é consideravelmente suavizada pela condução dos atores, charmosos em seus respectivos papéis, diante de uma direção que também prioriza os momentos românticos da fita, notavelmente delicados sob olhares isolados. A confusão retira o peso daquilo que diferenciaria a obra. Sem esse diferencial, ela continua a retratar um romance adolescente como qualquer um, previsível, mas até que operante. O espectador, dito isso, provavelmente não notará que os personagens, principalmente Peter Kavinsky (Noah Centineo), são os mesmos do começo da obra, ao menos, em relação a relação deles com Lara Jean. Kravinsky parece já estar apaixonado pela garota desde o começo e o roteiro, em momento algum, busca desconstruir algo em imagem, coisa que faz apenas nos diálogos, únicos reais expositores de uma evolução no sentimento. Ao mesmo tempo, o filme busca trabalhar uma espécie de catarse, em razão da caracterização de dois dos personagens vir atrelada à perda de figuras paternas/maternas, que não é perfeitamente bem resolvida, mas funciona muito mais do que em A Barraca do Beijo, parceiro – muito mais canastrão – dessa safra recente de comédias românticas adolescentes da Netflix. O roteiro sabe amarrar essa questão com o relacionamento amoroso, que ganha demasiadamente em química.

O último ato da fita, entretanto, é realmente indefensável, unindo-se, sem medo, aos piores inimigos de obras como essa: os clichês. O filme, nessa esfera, decide largar mão de um roteiro sagaz e abraçar a previsibilidade, quase irritante. Genevieve (Emilija Baranac), dentro desse âmbito, é a clássica garota maniqueísta, irritando o espectador ainda mais pelo fato de sua presença ser fundamental para a péssima problemática final, enquanto Christine (Madeleine Arthur) é a clássica amiga “diferentona”, mas, diferentemente da antagonista, agradável, sendo parte de um conjunto que mais conquista do que repele. O que “salva” Para Todos os Garotos que Já Amei é a alma que o longa-metragem possui, ultrapassando alguns dos problemas e garantindo um efeito mais positivo ao espectador. A protagonista, a começar, é incorporada por Lana Condor, que guia a sua personagem de uma maneira amável, simpatizando-a para o público, também norteada por um conjunto familiar relacionável e apreciável. A atriz torna tudo mais sensível. Estamos diante, enfim, de uma garota que namora o menino por quem ela tem uma queda, mas de mentirinha, até tudo se tornar verdade. O destinatório pode acabar ignorando os inúmeros amassados do pacote, mas isso não significa que essa é a melhor e menos clichê carta de amor de todas, apesar de continuar a ser uma carta de amor.

Para Todos os Garotos que Já Amei (To All the Boys I’ve Loved Before) – EUA, 2018 
Direção: Susan Johnson
Roteiro: Jenny Han, Sofia Alvarez
Elenco: Lana Condor, Noah Centineo, Janel Parrish, Anna Cathcart, Andrew Bachelor, Trezzo Mahoro, Madeleine Arthur, Emilija Baranac, Israel Broussard, John Corbett, Kelcey Mawema, Julia Benson, Joey Pacheco, Edward Kewin, Jordan Burtchett, June B. Wilde
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.