Crítica | Paraísos Artificiais
Do diretor Marcos Prado, conhecido pelo documentário Estamira, Paraísos Artificiais é o que pode se chamar de um filme lisérgico, em inúmeros sentidos. Evidentemente, em primeiro lugar, relaciona-se tal adjetivo a sua abordagem despudorada do uso de várias drogas, em sentido amplo, que induzem ao estado de perdição, mas também são vistas só como um dos degraus de uma vida. Por outro viés, podemos encarar a produção dessa maneira por conta de sua construção errática, parte culpa de um roteiro que se entrega demais ao destino para decidir seus trechos mais importantes, parte por conta de uma montagem que se adapta ao teor, mas não ao espectador.
No filme, seguimos a história de dois personagens em paralelo: Érika (Nathalia Dill), uma DJ que tenta crescer dentro do seu nicho, enquanto desenvolve um relacionamento com sua melhor amiga, Lara (Lívia de Bueno), e Nando (Luca Bianchi), um jovem que, ao partir para uma viagem a Amsterdã, acaba se envolvendo com o tráfico de drogas e vai preso. Entre inúmeras idas e vindas da trama, as histórias dos dois jovens terminam por se cruzar, mudando seus rumos.
O início da projeção é bem trabalhado ao compor a saída de Nando da cadeia e seu retorno ao meio social e à família, revelando, silenciosamente, sensações há muito não presenciadas pelo rapaz, como quando ele aproveita o vento ao pôr a cabeça para fora do carro, ou ao tomar um banho demorado e calmo quando chega em casa. O impacto das mudanças também é sentido, já que ele percebe as variações físicas e temperamentais no irmão mais novo e os desentendimentos entre este e sua mãe. Interessante é notar também como a fotografia de Lula Carvalho atua desde já ao compor um cenário morto, descolorido, seja na saída da prisão ou nos cômodos escuros do apartamento do rapaz, diferindo claramente das cenas que vemos logo que surge o primeiro salto temporal da película, ao migrarmos para o centro de uma boate, recheada de luzes e batidas das canções.
Tão logo a psicodelia começa a atuar no filme, os primeiros traços de confusão por parte do roteiro começam a surgir, já que, até que voltemos à atual realidade de Nando, passamos não só por um longo flashback, apenas abandonado no início do terceiro ato, como temos inúmeras idas e vindas para diferentes épocas das vidas dos personagens dentro daquele mesmo contexto. Logo, nos sentimos perdidos inúmeras vezes, tendo que realizar um esforço tremendo para se situar na trama, e quando esse posicionamento ocorre, em alguns momentos já perdemos boa parte do que havia sido narrado por desconhecermos o momento histórico. Exemplo claro disso ocorre quando vemos Érika e Lara dentro de um ônibus de turismo. Dada a complexidade da cena, que introduz os passeios vertiginosos das duas garotas, e a ambientação, tão destoante das demais até então apresentadas, é impossível não se perguntar o que está acontecendo e em que ponto da linha cronológica do filme estamos. Assim, se Marcos Prado se revela um diretor interessante, o mesmo não pode ser dito do roteiro escrito por ele, Cristiano Gualda e Pablo Padilla.
Incomoda também a ideia de que tudo em Paraísos Artificiais está amplamente conectado pelo destino. Na falta de uma desculpa melhor, os roteiristas pareceram se entregar a mais pura preguiça e usar de uma abordagem piegas para justificar os encontros e desencontros de seus heróis, enfraquecendo o peso dramático de muitos momentos, como aquele em que Érika e Nando se encontram pela primeira vez no universo diegético do filme. E quando presenciamos a cena, excessivamente longa, em que os jovens passeiam de bicicleta por Amsterdã, não há como não pensar em novelas globais, já que Marcos Prado investe numa trilha sonora óbvia e utiliza várias vezes da câmera lenta para indicar a paixão evidente do casal, taxando seu espectador de burro, já que fomos capazes de entender o entrelace dos dois desde o encontro na boate.
Mas nem tudo cheira mal em Paraísos Artificiais. Graças ao competente trabalho da equipe técnica, o filme é um deslumbre no que toca à sua fotografia. A conexão entre o excesso de cores e as viagens alucinógenas dos personagens é muito bem trabalhada, ao ponto de atingir o clímax na cena em que encaramos um princípio de um ménage à trois. Por conta do belíssimo e plácido cuidado na preparação da cena, o que poderia descambar para um instante puramente sexual, transborda em erotismo e romance. Mas o filme também é auxiliado pela sua potente trilha sonora, que ecoa na sala de cinema e permite que o espectador mergulhe facilmente naquele universo de festas e raves, da loucura adolescente de apenas viver a vida sem pensar em freios. Destaque para as locações do filme, principalmente a Praia do Paiva, em Cabo de Santo Agostinho, onde foram filmadas algumas das importantes passagens da obra.
Claro que nenhuma fita se salva apenas pelo esmero técnico, logo, muito do sucesso do filme se dá pelas perfeitas composições de seus atores. Nathalia Dill vai fundo em sua personagem e perfaz uma experiência de descobertas e decepções que beira o sublime. A entrega da atriz às cenas de drogas e sexo é fascinante, mesmo que haja certa carência de expressões em sua face. Luca Bianchi cria momentos diametralmente opostos em seu Nando, quando o vemos em seu passado feliz e sem limites, com uma expressão sempre aberta e despudorada, e ao encararmos seu presente fúnebre, onde o peso das perdas e das decisões passadas influencia em seu comportamento, principalmente com o irmão menor. Lívia de Bueno e Bernardo Melo Barreto, por mais que operem com menos intensidade, destacando-se em algumas cenas aqui e ali, encaixam-se bem nos papéis coadjuvantes, oferecendo um suporte inestimável aos protagonistas. E não podemos esquecer a entusiasmada persona criada por Roney Villela. Seu Mark, um espécie de alívio cômico e guru dos jovens, sempre brilha quando surge em cena.
Ao fim, obtemos mais uma boa produção brasileira, mas que peca pela irregularidade e excesso de confiança em sua história, o que não diminui, é claro, passagens belas e pontuais comandadas por Marcos Prado. Quando os créditos sobem, o que resta é a ideia, essa sim bem trabalhada, de que determinadas coisas que aceitamos viver não passam de instantes fugidios e artificiais com os quais pretendemos preencher realidades vazias. O problema reside em compreender que essa artificialidade é apenas passageira, ou acabar se entregando a um dia-a-dia de sons, cores e sensações que sempre irão necessitar de doses maiores para serem aproveitadas.














