Crítica | Paris, Texas

Na década de ´80, o cinema americano produziu muitos dramas familiares, em resposta à constatada crise dessa instituição na sociedade atual.  Filmes como Kramer vs. KramerGente como a Gente e Num Lago Dourado  tornaram-se populares junto ao público e crítica. Mas foi Wim Wenders, o diretor alemão, quem apresentou ao mundo a parábola definitiva sobre o assunto em sua obra-prima Paris, Texas.

A Paris do filme, num contraponto espetacular à cidade-luz, é um pequeno vilarejo no meio do nada, onde Travis (Harry Dean Stanton) acredita ter sido concebido e adquiriu um terreno onde planejava viver o sonho americano com sua amada Jane (Nastassia Kinski) e o bebê que tiveram quando estavam juntos. Desconfianças, ciúmes e a diferença de idade acabaram sepultando uma relação que foi marcada pela aventura. Mas dessa relação ficou o pequeno Hunter (Hunter Carson) que hoje mora com o tio Walt (Dean Stockwell) em Los Angeles.  Walt acaba tendo notícias do paradeiro do irmão,  vai ao seu encontro e o traz para casa. O filho hoje tem 7 anos, e os dois começam a ensaiar uma reaproximação. Mas para Travis, Hunter precisa mais do que tudo de sua mãe, e os dois, numa cumplicidade inocente e infantil, vão à sua busca.

Embora com roteiro original do dramaturgo americano Sam Shepard, o olhar estrangeiro de Wim Wenders é que define o resultado final. O “novo” oeste retratado por Wenders é uma releitura do velho oeste que ele provavelmente conheceu através dos filmes de John Ford, e não por acaso, ele usa e abusa dos grandes planos. Na nova América retratada por Wenders não há desertos, carruagens e saloons, mas vastas e largas highways, arranha-céus espelhados e cabines de peep-show. Os planos abertos aqui, diferentemente dos westerns – que reforçavam a ideia de aventura e desconhecido – definem a solidão, a fragilidade das relações humanas, o indivíduo reduzido a apenas mais um elemento na paisagem da cidade grande.

O enredo singelo de Paris, Texas é emoldurado pela bela trilha sonora de Ry Cooder – pontuando sem melodia com uma guitar melancólica e pungente – e pela excepcional fotografia hiper-realista de Robby Müller, enfatizando os neons e intensos contrastes. O encontro de Travis e Jane em uma cabine, onde somente ele a vê – sem ser visto – é emblemático da própria relação que o espectador tem com o cinema. É o momento-chave do filme. Travis e Jane se reconectam, lembram o passado, mas uma reaproximação afetiva não é mais possível. Wenders não tem pudores em fazer os atores vestirem-se primeiro de vermelho e depois de preto, para reforçar pelo uso da cor o mood do momento.

A América de Wenders tem cores vibrantes e sua imensidão continental, tão diferente da multifacetada Europa que é seu lar, não se traduz em liberdade infinita, mas sim uma opressão pela falta de um caminho claro a ser seguido. Hunter tem sua mãe de volta, finalmente. Travis pode, então, retomar seu caminho errante, o de um verdadeiro lone rider urbano.

SIDNEI CASSAL. . . .Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha, mantenho o blog cineblogdosid.blogspot.com