Crítica | Parks and Recreation – 7ª Temporada

estrelas 5,0

Treze episódios. Foi tudo o que Greg Daniels e Michael Schur precisaram para se despedir com dignidade de seu gracioso filhote televisivo chamado Parks and Recreation (2009 – 2015). A série começou acompanhando o trabalho de um grupo de funcionários no Departamento de Parques e Recreação de Pawnee, Indiana, Estados Unidos, e evoluiu sem pressa e sem enrolação para algo completamente orgânico dentro da estrutura da série, deixando um legado de vida e história bem construído para cada personagem, algo cada vez mais difícil de aparecer em produções de comédia.

As indicações para o plot desta última temporada de Parks já haviam sido expostas no ano anterior, com a enorme quantidade de mudanças estruturais do programa. A sequência narrativa dos episódios ganhou outros parâmetros em sua composição, tornando-se mais parecidos com os de séries no formato drama e não ‘sitcom-doc‘, além de dar maior destaque para personagens como Andy Dwyer, devido a fama alcançada por Chris Pratt durante os principais filmes que fez no período em que a série durou (A Hora Mais Escura, Ela e Guardiões da Galáxia), destaque com direto a um inteligentíssimo e hilário episódio chamado The Johnny Karate Super Awesome Musical Explosion Show.

Em nenhuma das outras seis temporadas de Parks and Recreation tivemos uma sondagem tão boa e uma sequência de episódios tão bem escritos e tão bem dirigidos quanto nesta temporada final. Os pequenos espaços entre um bloco dramático e outro, as falhas na abordagem de algum personagem, uma ponta solta no tratamento de uma trama secundária, nada disso faz parte dessa despedida do programa. Os roteiros são focados no futuro (a história se passa em 2017, enquanto a série estava sendo exibida em 2015) e, nos dois últimos episódios, One Last Ride – Partes 1 e 2, temos o prazer de ver o destino em décadas adiante de todo mundo que teve alguma importância para a série desde o momento em que ela começou a olhar para frente (3ª temporada).

Todos os diretores envolvidos nesta 7ª Temporada se preocuparam em retratar os momentos mais emotivos dos roteiros de forma prática (já disse e repito: a temporada não teve pressa, mas jamais enrolou) porém sem perder o lado sentimental de certos episódios, como o sensacional Leslie and Ron. O humor, da mesma forma, encontra lugar nos mais improváveis lugares, seguindo a mesma linha da elegância percebida na 6ª Temporada, só que repleta de citações de tecnologias e possíveis cenários para o mundo a partir de 2017, com direito a indicações políticas, culturais, nerd/geeks e cinematográficas (até Werner Herzog faz uma ponta no primeiro episódio da temporada, for God’s sake!). Fica difícil para o espectador não rir ou se maravilhar com as colocações sobre Star Wars, Game of Thrones, Friends, Harry Potter e também aos filmes A Mulher Faz o Homem (1939), Carrie, a Estranha (1976), O Satânico Dr. No (1962), Tubarão (1975), Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994), Hitch – Conselheiro Amoroso (2005) e Cinquenta Tons de Cinza (2015), isso só para contar os mais evidentes.

E não há fofuchismos, apelos à emoção vindos de pequenas histórias que serão destruídas de maneira abrupta e canhestra (How I Met Your Mother, estou falando de você!) ou uso da trilha sonora como muleta dramática. É através de uma bem vinda reunião de personagens, como era de se esperar, que vemos a série se despedir, apontando para o futuro e apresentando o presente como um desafio a ser vencido. A importância disso é enorme para quem assiste. Ao passar 7 anos acompanhando essas figuras cômicas e um pouco insanas, percebemos que existe um pouco delas em cada um de nós (identificação por transferência, o que é algo de praxe em espectadores de séries de comédia) e é evidente que imaginamos como seria o futuro dessas pessoas “após o fim do programa”.

O grande acerto desse finale é justamente expor tal futuro apenas para o espectador — rompimento da diegese de forma simples e com aplaudível ritmo e estética de montagem –, deixando aquela ideia de confidência e controle para algo que só nós sabemos e os personagens não. Esse tipo de metalinguagem, ao fazer do espectador uma espécie de deus nos bastidores, torna o momento presente do pessoal de Parks ainda mais atraente e interessante para nós. E não foi preciso muito para fazer com que tudo fizesse sentido e se encaixasse.

Não foi preciso cavar “felicidade plena e a todo custo” ou apostar todas as fichas na arbitrariedade do “vocês decidem o que virá a partir de agora“. Greg Daniels e Michael Schur provaram que é possível terminar uma série em dois, três, quatro tempos distintos, mexer com a imaginação do espectador e não deixar nada sem resposta ou sem caminho para resposta. Um feito e tanto. E uma despedida de alto nível para os insanos burocratas de uma repartição pública que tinham tudo para ser chatos e enjoativos, mas que se tornaram cada vez mais curiosos. Através de um elenco entrosado e afinado — até nas empostações blasé de alguns personagens existe graça! — e uma excelente produção, Parks and Recreation se despede com toda a pompa de boa série: depois de uma boa vida, de um bom desenvolvimento e de um acalentador legado para o futuro. Era tudo o que queríamos.

Parks and Recreation – 7ª Temporada (Series Finale) — EUA, 2015
Criadores: Greg Daniels, Michael Schur
Direção: Diversos
Roteiro: Greg Daniels, Michael Schur e equipe.
Elenco principal: Amy Poehler, Aziz Ansari, Nick Offerman, Aubrey Plaza, Chris Pratt, Adam Scott, Jim O’Heir, RettaMarc Evan Jackson, Billy Eichner, Rashida Jones, Rob Lowe
Duração: 23 ou 43 minutos.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.