Crítica | Paro Quando Quero

estrelas 3,5

A cada dia que passa a velha segurança oferecida pelo diploma universitário vai se desfazendo. A antiga certeza de que um estudante sairia empregado da faculdade não existe mais e  o grau de especialização requisitado por inúmeras vagas de emprego se tornou tão alta que, em alguns casos, o doutorado se tornou pré-requisito e não diferencial. Se focarmos no cenário acadêmico o negócio fica ainda mais complicado, estamos falando de um mundo extremamente competitivo no qual o professor basicamente precisa dar sua alma para conseguir seu ganha-pão, isso sem falar, é claro, em ter de aguentar outros acadêmicos julgando seu trabalho a qualquer momento. O longa-metragem italiano Paro Quando Quero faz uma crítica ferrenha a esse universo, através de um humor repleto de ironia.

A trama gira em torno de Pietro (Edoardo Leo), um professor universitário que está tentando conseguir uma bolsa para sua pesquisa para que possa se sustentar junto de sua esposa, visto que seus alunos particulares vivem dando calote no pobre coitado. Quando seu projeto é recusado, ele entra em desespero, até ter a ideia de criar uma gangue, junto de outros academicistas frustrados, e desenvolver uma nova droga sintética, burlando a lei italiana que define especificamente as moléculas ilegais que não podem estar presentes em drogas. Evidente que tudo ganha inimagináveis proporções e Pietro descobre que não é tão fácil assim parar quando ele quiser.

O próprio conceito de professores universitários frustrados, todos com doutorado, formando uma gangue já é o suficiente para garantir umas boas risadas do espectador. O roteiro de Valerio Attanasio, Andrea Garello e Sydney Sibilia ainda sabe usar essa questão de maneira irônica e criativa, aproveitando da personalidade de cada um dos personagens que nada combina com aquela vida de crime. Um dos professores, por exemplo, quando estão no auge, faz uma tatuagem relacionada a Roma antiga, visto que essa é sua área de especialização, enquanto outro tenta fazer perguntas para os usuários de suas drogas a fim de obter dados mais específicos.

Embora todo o argumento seja muito parecido com o de Breaking BadParo Quando Quero se diferencia na forma como a trama é desenvolvida. Em momento algum vemos o dinheiro ou o poder subir à mente de Pietro, ainda que ele seja levado em uma espiral de acontecimentos inesperados. Em alguns momentos o texto segue por um caminho demasiadamente previsível, o que tira muito da surpresa e quebra nossa imersão. Felizmente, o bom desempenho do elenco consegue nos manter fixados na tela sem grandes problemas, especialmente Edoardo Leo, que garante o realismo da obra através de sua interpretação, ao mesmo tempo que assegura o tom sarcástico da narrativa. Toda a previsibilidade, felizmente, cai por terra quando chegamos ao desfecho, que segue por um caminho consideravelmente criativo, especialmente o derradeiro fim, que faz uso de toda a ironia disponível para criar a mais inusitada situação.

Embora tenha chegado no Brasil apenas em 2017, Paro Quando Quero se saiu bastante bem na Itália, chegando a ganhar alguns prêmios no circuito de festivais do ano de seu lançamento, o que motivou que fossem realizadas duas continuações da obra, que ainda não chegaram aos cinemas internacionais. Temos aqui uma obra divertida e que realiza uma crítica forte ao modelo acadêmico seguido atualmente, que não abre espaço para que pesquisadores e professores realmente se sustentem dignamente. Com um roteiro que segue por um caminho exageradamente previsível em determinados momentos, estamos falando de um belo entretenimento, capaz de engajar o espectador através da acidez de seu humor.

Paro Quando Quero (Smetto quando voglio) — Itália, 2014
Direção:
 Sydney Sibilia
Roteiro: Valerio Attanasio, Andrea Garello, Sydney Sibilia
Elenco: Edoardo Leo, Valeria Solarino, Valerio Aprea, Paolo Calabresi, Libero De Rienzo,  Stefano Fresi, Lorenzo Lavia
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.