Crítica | Paterson

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estrelas 4

Ainda que pareça um paradoxo redundante, muito pode ser encontrado no nada. O nada pode ser surpreendente pelo nível de camadas e reflexões, mas apenas um artista muito hábil e com uma visão delicada é capaz de encontrar conteúdo e ideias em algo aparentemente inexistente. Esse olhar é meio que uma especialidade do cineasta Jim Jarmusch, que encontrou harmonia entre histórias em Sobre Café e Cigarros até ofereceu um dos retratos mais humanos para vampiros sanguinários no excelente Amantes Eternos. Agora, Jarmusch vira sua lente para o cotidiano mundano em Paterson.

Muito pouco acontece em Paterson, e sumarizar sua trama seria um tolo exercício, mas eis o que precisamos saber: tudo gira em torno do cotidiano de Paterson (Adam Driver), um motorista de ônibus cujo nome ele compartilha com sua linha de transporte e a pacata cidadezinha de Nova Jersey onde vive com sua criativa namorada, Laura (Golshifteh Farahani). Em um curso de 7 dias, acompanhamos a rotina aparentemente repetitiva de Paterson, e sua paixão em escrever poesias sobre os pequenos detalhes de sua vida.

A vista grossa, seria o típico filme em que nada acontece. “Nada”, como diria George Costanza ao gabar-se da originalidade de seu seriado em Seinfeld. Mas o que torna Paterson tão especial é a sensibilidade de Jim Jarmusch, ele mesmo um poeta pela escrita de seu roteiro e a objetividade de sua câmera. A estrutura adotada por Jarmusch logo torna-se clara para o espectador, com o dia começando com um plano alto de Paterson e Laura na cama – acompanhados de um lettering que nos informa o dia da semana – e seguindo por uma ordem de eventos quase que repetida, onde Paterson dirige seu ônibus, almoça, escreve poesias, retorna para casa para jantar e termina a noite com uma cerveja num bar próximo, com um fade to black sempre nos indicando o fim de um dia e o início do próximo – “Todo dia é um novo dia”, já dizia o poema de Carlos Williams Carlos, um dos ídolos de Paterson.

E parece o verso ideal para descrever o trabalho de Jarmusch. Ainda que todos os eventos acabem se repetindo em praticamente a mesma ordem, sem surpresas ou reviravoltas drásticas, Jarmusch é capaz de encontrar brilho no mundano e observar as coisas sob prismas diferentes. Por exemplo, a cada momento em que a narrativa concentra-se em Paterson dirigindo o ônibus, vemos o personagem ouvindo uma conversa distinta entre passageiros aleatórios, e o texto de Jarmusch é eficiente ao prender a atenção do espectador com naturalidade e nos colocar junto a Paterson como observadores. O núcleo onde o personagem visita o bar é sempre cheio de pequenas surpresinhas, desde as novas curiosidades que o barman Doc (Barry Shabaka Henley) oferece sobre a cidade de Paterson ou os novos acontecimentos do casal decadente, Marie e Everett (Chasten Harmon e William Jackson Harper). Há ainda belíssimos momentos onde o curioso Paterson acaba engajado em conversas aleatórias ao notar manifestações artísticas em estranhos, incluindo um rapper em uma lavanderia ou uma menina que compartilha de seu interesse por poesia.

Tal estrutura é bem transposta pela montagem inteligente do brasileiro Affonso Gonçalves. A repetição de cenas e pequenos tiques (como o colega de trabalho, Donny, sempre repetir as mesmas perguntas durante a manhã) nos ajuda a compreender a rotina monótona e sem surpresas de Paterson, provocando até mesmo uma lentidão intencional e que pode afastar muitos espectadores. Gonçalves surpreende quando opta por elipses que comprimem eventos em determinados dias e pulam a ordem em outros, e divertem quando um corte fora da narrativa pré-estabelecida nos oferece uma informação desconhecida pelo protagonista; como a cena em que nos explica por que diabos a caixa de correio de Paterson sempre está torta, mesmo com o sujeito diariamente a ajeitando. Vale apontar também como Gonçalves sempre procura encaixar uma reação cômica/curiosa do cachorro Marvin, desde já um dos animais com maior carisma nos últimos anos.

É um humor discreto e sutil que encontra muito espaço na prosa de Jarmusch, e também pelo trabalho primoroso do elenco. Conhecido mundialmente por seu papel vilanesco em Star Wars: O Despertar da Força, Adam Driver mostra seu lado mais dócil e contido na pele do inofensivo Paterson. Sua voz grossa é sempre marcada por uma dicção educada e um genuíno interesse e admiração por aqueles ao seu redor; seja ao engolir a torta desagradável feita por amor por Laura ou ao desejar um bom dia a Donny mesmo após este lhe narrar uma desventura miserável e repleta de problemas. Seu amor pela poesia também rende momentos admiráveis de Driver, especialmente diante de uma das pouquíssimas reviravoltas que marcam o terceiro ato do longa – e sua reação a dois determinados incidentes que chacoalham seu cotidiano são capazes de sugerir um Paterson diferente escondido ali dentro. Uma performance delicada e digna de prêmios.

Paterson é um belo e delicado filme sobre as coisas pequenas. Sobre as variações sutis e belas que uma rotina aparentemente monótona e sem acontecimentos é capaz de oferecer, e como a Arte é uma forma libertadora de encontrar um novo olhar sobre o mundano e o já conhecido. Mais uma pérola do olhar único de Jim Jarmusch.

Paterson (Idem, EUA – 2016)
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Chasten Harmon, William Jackson Harper, Barry Shabaka Henley
Duração: 113 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.