Crítica | Pavor nos Bastidores

estrelas 3,5Já em meados dos anos 50, quando lançou Pavor nos Bastidores, Alfred Hitchcock já era visto como um diretor de respeito e repleto de singularidades, por mais que suas maiores obras viessem a ser concebidas apenas posteriormente. Talvez em vista disto, Pavor nos Bastidores é considerado uma dos chamados “filmes menores” na extensa filmografia do diretor, um filme também deixado de lado pelo próprio Hitchcock. O fato é que Pavor nos Bastidores, mesmo sendo um dos filmes mais depreciados do mestre do suspense, é uma de suas realizações mais curiosas, especialmente por representar uma certa quebra na maneira com que o diretor, até então, trabalhava em cima de suas histórias envolvendo um homem acusado injustamente de um crime que não cometeu.

Pavor nos Bastidores é, de fato, mais uma espécie de filme experimental para o diretor, tal qual foi, guardada as devidas proporções, Festim Diabólico. Tal fato pode ser notado já na abertura do filme, quando uma cortina se abre ao público, como se estivéssemos sendo avisados de veremos uma espécie de peça teatral. É um recurso simples, mas que revela muito do que Hitchcock irá entregar ao público nos minutos seguintes da fita, funcionando inclusive como uma espécie de aviso: tal qual no teatro, o que veremos na tela pode ou não ser apenas uma representação, uma forma de esconder a verdade por detrás de todos os elementos da obra.

Falar mais do que isto seria levar para o ralo a delícia que é assistir Pavor nos Bastidores. Talvez pela simplicidade de sua trama, o filme acabe chamando menos atenção ainda: Eve Gill (Jane Wyman) é uma aspirante a atriz que se vê obrigada a ajudar o amigo Jonathan (Richard Todd), acusado de um crime que não cometeu. Pela paixão que nutre pelo colega, Eve aceita se arriscar e passa a investigar a principal suspeita do crime, a famosa atriz Charlotte Inwood (Marlene Dietrich).

Apesar de toda a empolgante construção de Hitchcock em cima do mistério, o principal problema de Pavor nos Bastidores está na falta de empatia dos personagens, que acabam não passando de meros fotos passeando pela tela, especialmente pela ausência de conflitos que possam levar o espectador a criar algum laço com eles e, assim, permitir que nos importemos com seus destinos. O próprio Hitchcock reconheceu isto em uma entrevista concedida ao cineasta François Truffaut.

De qualquer forma, Pavor nos Bastidores ainda é um dos mais afiados de Hitchcock, especialmente no que concerne ao uso do humor negro, algo típico de seus filmes e mais presente do que nunca aqui, e as atuações do elenco, especialmente dos protagonistas, que apesar da complexidade rasa de seus papéis, são capazes de transmitir toda a angústia e tensão da situação de maneira competente. Dietrich, em especial, impressiona por sua beleza, charme e magnetismo em cena, apresentando o trabalho de composição mais calibrado do filme.

Na época, o que fez muitos criarem uma grande aversão a Pavor nos Bastidores foi justamente a resolução da obra, que em uma jogada ousada e arriscada por parte de Hitchcock, engana descaradamente o espectador e nos obriga a revisar e mudar as perspectivas sobre absolutamente tudo o que havíamos visto até ali. Obviamente que falar mais do que isso seria estragar a surpresa, mas é que importante ressaltar que tal escolha do diretor, embora possa parecer duvidosa à primeira vista, representou uma inovação narrativa que poucos filmes conseguiram igualar novamente, o que é mais uma prova da genialidade de Hitchcock, e em como este era um cineasta muito a frente de seu tempo.

Injustiçado, Pavor nos Bastidores pode ser considerado uma das obras mais divertidas da filmografia de Hitchcock, e embora não carregue a mesma ambição e virtuosismo da maioria de seus filmes, merece ser descoberto por aqueles que apreciam o diretor e, principalmente, pelos que apreciam um bom suspense que consiga surpreender.

Pavor nos Bastidores (Stage Fright, Reino Unido, 1950)
Roteiro: Selwyn Jepson, Alma Reville e Withfield Cook
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Jane Wyman, Marlene Dietrich, Michael Wilding, Richard Todd, Alastair Sim, Kay Walsh, Patricia Hitchcock
Duração: 110 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.