Crítica | “Pe Lanza” – Pe Lanza

estrelas 0,5

A banda Restart é um fenômeno interessante.

É claro que “fenômeno interessante”, a expressão, aponta para um mar de infinitas possibilidades, e pode indicar tanto algo positivo quanto negativo. Porém, não tenha dúvidas, caro leitor, no caso da dita-cuja-banda-das-multicores-diretamente-vindas-do-maravilhoso-(mas-só-pra-quem-é-cego-e-surdo)-mundo-da-imaginação-da-Xuxa, é negativo. Péssimo, para ser mais preciso. Tremendamente péssimo. Certo, agora acho que cheguei ao ponto.

Depois de conquistar boa parte da juventude brasileira com seu visual afetado –que até hoje carece de uma tese que justifique com bons argumentos o seu real propósito – e canções artisticamente nulas, dotadas de refrãos de rimas fáceis e letras do nível da clássica 5 Patinhos, o Titanic Restart (risos) afundou-se em meio a conflitos entre integrantes. Para o bem da música do Brasil, eu diria. Santo iceberg!

Afinal, apesar de algumas de suas palhaçadas terem tocado constantemente nas rádios durante algum tempo, a banda nunca foi de fato relevante. Vamos ser sinceros: talvez sua relevância se estenda apenas a um nicho muito limitado de grupos medonhos que surgiram na mesma época , como o Cine. Neste contexto, o “rock” do Brasil era dominado por poesias do tipo “aposto um beijo que você me quer!”, “eu não me faço!” e “para com esse love me love me love me!”. Tudo porque a mídia lhes favorecia, como costuma favorecer quase tudo o que é ruim neste planeta. Mas, para nossa sorte, a música brasileira de modo geral sempre esteve e sempre vai estar anos-luz à frente desta pasmaceira. Se os grandes veículos de comunicação ao menos dessem um pouco de atenção aos reais talentos que a todo momento surgem em terras tupiniquins…

Enfim!

Eis que o tempo passou e Pe Lanza, um dos vocalistas da Restart inicia uma carreira solo e lança um EP com três canções. “Prevejo o fim do mundo!”, exclama o oráculo fã de Beatles, Led Zeppelin e Smiths. Eu lhe respondo: “quase, meu caro. Quase. Mas não é pra tanto. Com essa notícia, o mundo não acaba: só fica um pouco mais grotesco do que já é”.

Por mais que traga heranças malditas de sua ex-bandinha – também: se ele fosse capaz de encontrar alguma herança que preste em meio a tanta desgraça… o idolatraria! –, Pe Lanza mostra, em seu primeiro trabalho autoral, que quer se desvencilhar de sua juventude musical vergonhosa, apresentando-se mais maduro. A intenção é boa. A atitude é, até certo ponto, ousada: não há aqui nenhuma canção no estilo “Xuxa Só Para Baixinhos Encontra o Rock n’ Roll dos… Menudos?”, mas isso também não quer dizer que a tal maturidade (só um pouquinho mais elevada em relação à sua época de Restart, ok?) de Pe Lanza se reflita em boas letras, melodias, harmonias, refrãos. Não. Definitivamente não. Ele apenas passou de Xuxa-com-guitarras a filho-de-Luan-Santana-com-Anitta-visualmente-trabalhado-no-estilo-sedutor-de-Thammy-Miranda. Confesso que sua atual “maturidade”, ainda que de fato existente, não me desce muito bem. Mas, pensando bem, pra quem fez parte de uma tragédia nacional como a Restart… até que ele está no lucro.

 O EP de Pe Lanza é norteado por um som mais assumidamente pop e romântico que o trabalho da Restart. Mas, ao contrário do que alguns poderiam supor, o real problema, no que se refere à qualidade musical do EP em questão, nada tem a ver com o fato d’ele ser pop e/ou romântico: é a sua completa e vergonhosa entrega a clichês e estupidezes imperdoáveis.

Repleto de momentos em que notas longas se fazem imponentes e “importantes” em uma estrutura de canção que em muito lembra as afetações características do sertanejo, Fica Mais Um Pouco, que abre o EP, é um exemplo claro da vergonha mencionada no parágrafo acima. Quando Pe Lanza clama: “diz que eu não to louco!”, juro que fico tentado a lhe oferecer duas alternativas de resposta: 1 – Sim, você está louco. Integrou a Restart (nem Jesus na causa!) e, mesmo após o fracasso retumbante que o Senhor (pouco) Tempo tratou de sacramentar a esta bandinha insignificante, decidiu seguir carreira solo com canções tão bregas quanto as que cantava quando ainda era um “colorido”. 2 – Não, você não está louco. Você está apenas cantando muito mal, com um timbre de voz irritantemente horroroso, ao som de um pop clichê, e letras cafonas sem qualquer índice de imaginação ou inteligência. Louco é quem te ouve, louco é quem é teu fã. Em qualquer uma das duas possíveis opções de resposta, uma coisa fica clara: Pe Lanza, tu é moleque! Tu é moleque! – e confesso, se eu fosse o executivo responsável pela gravadora que representa este “artista” descerebrado, eu emendaria com um “pede pra sair, zero à esquerda!” (sou venenoso mesmo).

Quem acha que este cara canta bem acha que cantar é apenas berrar uma mesma nota seguidamente com voz de cabrito na puberdade. E desconhece dinâmica, sutilezas ou qualquer tipo de técnica que confira textura e potencial a uma performance vocal. O fato é que Pe Lanza canta sempre na sua região confortável e depende de uma série de irritantes afetações típicas do pop sem substância (que a todo o momento está presente na mídia dos dias de hoje) para se fazer ouvir. É deprimente ouvi-lo/vê-lo cantar.

Das três canções do EP a menos pior é Quando A Saudade Apertar – um despretensioso balanço de Reggae que, não fosse a voz do Pe Lanza, até teria capacidade de se tornar audível – e a maior vergonha alheia é Por Telefone – breguice monumental que deveria ser proibida pois, sinceramente, a considero uma ofensa aos ouvidos de qualquer ser vivo.

O pior de tudo é que Pe Lanza canta com uma convicção de quem acha que está filosofando num nível ultra master duper blaster John Lennon Leonard Cohen Bob Dylan hard:

Por telefone
é tão difícil
driblar o precipício.

Por telefone
é fácil demais
dizer adeus…
dizer que nunca mais.

Caro Pe Lanza: depois de ouvi-lo em Restart e agora em sua versão solo, sinceramente creio que “dizer que nunca mais” a você não é apenas fácil por telefone. Qualquer pessoa com um mínimo de consciência e respeito pela sua sanidade lhe diria “nunca mais” sem pudor algum – por telefone ou qualquer outra via, desde que a simpatia fosse diretamente endereçada à sua pessoa.

E hoje sou eu, convicto e com os ouvidos aliviados – depois de serem impiedosamente violentados –, quem endereça a você e à sua música tais palavras mágicas:

NUNCA MAIS!!!

Pe Lanza
Artista:
Pe Lanza
País:
Brasil
Lançamento:
Setembro de 2015
Gravadora:
ArtMix/Maynard Music
Estilo:
Pop

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).