Crítica | Peaky Blinders – 1ª Temporada

He’s a man, he’s a ghost, he’s a god, he’s a guru.
Red Right Hand – Nick Cave

A gangue conhecida como Peaky Blinders realmente existiu em Birmingham, Inglaterra, ao final do século XIX e primeira década do século XX e seu nome e o uso quase folclórico de uma navalha como adereço de suas características boinas serviram de inspiração para Steven Knight desenvolver uma série de TV que se apropria desses traços, mas recoloca o grupo como uma bem organizada família estendida logo após o final da Primeira Guerra Mundial.

Com Cillian Murphy como o condecorado e traumatizado ex-soldado britânico Thomas ‘Tommy’ Shelby, líder de fato da gangue, vemos, nesta primeira temporada, a ascensão de seu grupo de uma pequena máfia local que controla uma região da cidade para uma força mafiosa controladora das apostas em corridas de cavalo, em uma trajetória que, interessantemente, faz mímica da tentativa de Michael Corleone de legalizar as atividades de sua família na saga O Poderoso Chefão. Depois que Tommy inadvertidamente toma posse de um carregamento de armas, Winston Churchill (Andy Nyman), então ainda Secretário de Estado, envia o impiedoso Inspetor Campbell (Sam Neill) para recuperá-lo e o conflito logo é estabelecido, colocando o experiente, incorruptível, mas violento policial, contra o galante, mas duro e extremamente inteligente bandido.

Como pano de fundo histórico, além da Primeira Guerra Mundial, que é muito presente para Tommy e seu grupo, que lutaram bravamente pela Inglaterra, há a eterna tensão justamente entre Irlanda e Inglaterra em uma época de formação da versão mais organizada do IRA, que começara oficialmente em 1917. Esses dois elementos históricos estabelecem os fundamentos para as tensões e fios narrativos futuros, mas, aqui, nesta primeira temporada, eles são mantidos em xeque para permitir que a narrativa principal seja trabalhada e estabelecida com o cuidado necessário.

Tommy joga o jogo de longo prazo, ignorando as regras de sua gangue e família sobre tomada de decisões e fincando os Peaky Blinders cada vez mais profundamente no submundo criminoso para justamente fazê-los sair de lá legitimados e “limpos”. Sua calma e frieza só são estremecidas pela presença da bela nova bartender Grace (Annabelle Wallis) que, secretamente, é uma agente infiltrada de Campbell em sua estratégia paciente pero non troppo de descobrir a localização do carregamento de armas. Orbitando o hesitante casal principal, há Tia Polly (Helen McCrory), a matriarca da família e a única que imediatamente percebe o jogo perigoso de Tommy, Arthur Shelby, Jr. (Paul Anderson ), irmão mais velho de Tommy e líder de direito da gangue, mas que não sabe fazer muito mais do que usar seus punhos e suas armas, o que o coloca em crise existencial e Ada (Sophie Rundle), irmã mais nova da família e enamorada do agitador comunista Freddie Thorne (Iddo Goldberg), amigo de infância de Tommy.

Há, claro, outras peças no quebra-cabeças, como Danny “Whizz-Bang” Owen (Samuel Edward-Cook), o fiel amigo de Tommy que tem episódios de fortes de insanidade causados pelos traumas da guerra, Billy Kimber (Charlie Creed-Miles), o chefão da máfia de jogos que é o alvo final dos Peaky Blinders e a gangue rival cigana que se localiza na periferia, a família Lee. Todos eles adicionam cor e veracidade às ações de Tommy na liderança de seu grupo familiar e estabelecem a autenticidade marcante da série.

Aliás, autenticidade é a palavra-chave aqui. A BBC notabilizou-se por suas séries dramáticas de época e Peaky Blinders não é uma exceção. Muito ao contrário, a série reforça essa reputação já bem enraizada da produtora e canal estatal britânico, especialmente quando ela olha para seu próprio umbigo e lida com a história do próprio país, seja em versão integralmente ficcionalizada ou não, como são os casos de Call the Midwife, Poldark, Ripper Street e Sherlock (ok, esta última não é exatamente de época, mas é como se fosse, convenhamos). A reconstrução de época, portanto, é meticulosa, com cenários em planos gerais renderizados em boa e não intrusiva computação gráfica e cenários mais intimistas efetivamente construídos em set, reproduzindo a rua principal de atuação da gangue em Birmingham e alguns interiores como os da delegacia e o bar/quartel-general do grupo.

O toque final fica por conta dos figurinos, todos muito detalhados e autênticos, caracterizando cada personagem muito claramente. Tommy sempre impecavelmente arrumado, seu irmão mais velho sempre demonstrando visualmente seu descontrole, o Inspetor Campbell contrastando com Tommy com suas roupas mais humildes e práticas e assim por diante. É um primor de design de produção e direção de arte do começo ao fim.

Usando Red Right Hand, de Nick Cave & The Seeds para embalar a abertura e criar uma atmosfera anacrônica que mescla rock com um trabalho de época, a primeira temporada de Peaky Blinders cumpre bem a função de nos apresentar a esse universo e de estabelecer Tommy como seu centro. Com econômicos seis episódios, o foco fica mesmo nos excelentes trabalhos dramáticos de Murphy e Neill como forças opostas imparáveis que cativam pela resistência, inteligência e, de certa forma, crueldade. Mas, assim como acontece com o Michael Corleone de Al Pacino (que, curiosamente, assim como Murphy, tem o mesmo tipo físico franzino contrastando com uma intensidade de olhar assustadora), o espectador é levado a simpatizar com quem deveria ser o vilão da história, em uma delicada e muito bem-construída inversão de valores que coloca o policial de Sam Neill completamente contra a parede, na figura de um opressor sem escrúpulos.

No entanto, mesmo com sua brevidade, a temporada investe equivocadamente seu tempo na chegada e partida quase que aleatórias de Arthur Shelby, Sr. (Tommy Flanagan) ao longo de um episódio inteiro, sem que isso funcione para organicamente impulsionar a narrativa. Trata-se de um episódio que, espero, arme uma narrativa a ser explorada em temporadas posteriores, mas que, se visto apenas dentro do contexto da primeira temporada, parece deslocado e forçado, demonstrando que esse evento poderia ter sido melhor aproveitado de forma espaçada ao longo de alguns episódios no lugar de concentrado e apertado em um só. Além disso, a solução para o conflito final da caçada de O’Neill por Tommy é anti-climática e, de certa forma, desapontadora e muito simples, levando a um final aberto demais e fora de compasso com todo o trabalho cuidadoso de construção que vimos antes.

De toda maneira, mesmo com seus problemas, a temporada inaugural de Peaky Blinders é um prazer audiovisual que merece ser conferido por quem aprecia um bom drama de época britânico. Steven Knight transforma a gangue histórica verdadeira em uma lenda e abre as portas para uma saga familiar da mais alta qualidade. Uma verdadeiramente irrecusável proposta!

Peaky Blinders – 1ª Temporada (Reino Unido, 12 de setembro a 17 de outubro de 2013)
Criação: Steven Knight
Direção: Otto Bathurst, Tom Harper
Roteiro: Steven Knight, Stephen Russell, Toby Finlay
Elenco: Cillian Murphy, Helen McCrory, Paul Anderson, Sam Neill, Annabelle Wallis, Joe Cole, Sophie Rundle, Charlie Creed-Miles, Aimee-Ffion Edwards, Iddo Goldberg, Andy Nyman, Tommy Flanagan, Samuel Edward-Cook
Duração: 342 min. (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.