Crítica | Pecados Antigos, Longas Sombras

estrelas 4

Pecados Antigos, Longas Sombras (título explicativo absolutamente desnecessário em português) tem a grande vantagem de se esquivar de todas as formas de ser expositivo, professoral sobre a época em que se passa. Por outro lado, essa mesma característica pode afastar potenciais espectadores ou impedi-los de captar a essência da fita e talvez daí tenham tido a ideia, no Brasil, de usar um título como esse.

Então comecemos com a contextualização breve. O “Generalíssimo” Francisco Franco tornou-se ditador da Espanha em 1936, após emergir vitorioso da Guerra Civil Espanhola, que teve centenas de milhares de mortos. O país foi tomado por um estado militar paranoico que se manteve no lugar, inamovível, por décadas, até 1975, com a morte de Franco. Mas, antes de falecer, o ditador conseguiu restabelecer a monarquia na Espanha, deixando o Rei Juan Carlos I como uma espécie de sucessor. Ele abdicaria apenas em 2014, em favor de seu filho que tomou o nome Felipe VI. Em 1977, o país teve as primeiras eleições democráticas e, em 1978, uma nova Constituição foi promulgada, restaurando a democracia no país.

É, então, nessa situação de recém-descoberta democracia que o filme, dirigido por Alberto Rodríguez, se passa. Trata-se de uma produção que em muitos momentos lembra a atmosfera da primeira temporada de True Detective, com uma região semi-pantanosa, semi-desértica servindo de pano de fundo (bem ao sul da Espanha) a um caso de sumiço de duas garotas sendo investigado por dois detetives, em 1980. A narrativa é lenta, com uma fotografia deslumbrante que carrega em tons sépia e muita claridade, aumentando a sensação de desolação e de falta de rumo, quase que se traduzindo em uma certa “falta de identidade”.

A narrativa mais direta, ou seja, a investigação do sumiço (que longo se transforma em investigação de assassinato com muitos e sinistros desdobramentos) é apenas a camada mais externa da produção e, francamente, a que menos empolga, dada a necessidade de Rodríguez, que co-escreveu o roteiro com Rafael Cobos, de fazer seus personagens quicarem por todos os lados várias vezes em repetições que quebram um pouco o ritmo da ação. Mas não se enganem, há suspense e ação de qualidade nesse aspecto do filme. São particularmente brilhantes as sequências em que Pedro (Raúl Arévalo) persegue um automóvel no escuro e a final, na chuva, em que seu parceiro, Juan (Javier Gutiérrez) tem participação chave.

Se fosse, porém, apenas um filme “de detetives”, Pecados Antigos, Longas Sombras não seria mais do que mediano, a não ser que o espectador se deixe enganar pelas tomadas aéreas belíssimas que vemos (mas que foram feitas a partir da digitalização de algumas fotografias de Hector Garrido, na região da Andaluzia). O que realmente retira a produção daquela “meiúca” ingrata de filmes bonitos, mas pouco memoráveis é realmente a história política que enriquece e explica a parceria hesitante entre Juan e Pedro.

Pedro parece representar a nova Espanha, aquela que saiu das trevas há pouquíssimo tempo e ainda não teve tempo de se acostumar com a claridade (outro aspecto funcional da fotografia). O que exatamente é democracia, considerando-se que ela tem apenas dois ou três anos de vida? Ele é questionador e esse questionamento foi o que o levou a ser transferido para o caso, diga-se de passagem, como castigo. Juan, por outro lado, é a velha Espanha, a Espanha da violência, a Espanha da morte. Ele está em seu meio, mas sabe que seus dias estão contados (há uma “vidente” que chega a dizer isso a ele, por vias transversas). Seu passado ao mesmo tempo o atormenta e o permite fazer o que faz com bastante tranquilidade para descobrir o(s) responsável(is). Há conflito entre os dois, mas uma certa cumplicidade, o que só atrapalha, mas no bom sentido, a definição, pelo espectador, sobre quem representa o que. Não há preto e branco aqui, apenas os proverbiais tons de cinza.

E Javier Gutiérrez e Raúl Arévalo encarnam seus difíceis papeis à perfeição, convencendo tanto como policiais em uma “terra de ninguém” como quanto arquétipos opostos do passado e do futuro, mas sem que o roteiro precise esfregar isso em nossas caras. Aliás, como mencionei no início, isso é algo que o roteiro procura não fazer e, a não ser por dois momentos quando os detetives são lembrados de que “estamos em uma democracia!” pelo chefe de polícia, ele é silente, deixando esse choque entre velho e novo vir apenas discretamente à superfície, com elementos sendo revelados aqui e ali. Claro que, mais para o final, a clareza sobre exatamente quem é quem – ou quem FOI quem – torna-se evidente, mas nem ali a resolução é simplista e Gutiérrez e Arévalo carregam visivelmente um grande peso nas costas com seus personagens opostos e quase em pé de guerra (mas não como em fitas de buddy cop hollywoodianas).

O crescendo da narrativa ganha velocidade em seu terço final, mas nunca realmente sai de um nível terreno em que efetivamente podemos acreditar na ação e em seus desdobramentos. Se pararmos para pensar, mesmo no meio do frenesi, a direção comedida de Rodríguez deixa tudo nas entrelinhas, com silêncios desconcertantes substituindo explosões e outras pirotecnias.

Pecados Antigos, Longas Sombras precisa da camada histórica para realmente ser apreciado pelo que ele é, camada essa que não virá didaticamente na produção. Caso contrário, o espectador periga sair desapontado, depois de “apenas mais um thriller policial”.

Pecados Antigos, Longas Sombras (La Isla Mínima, Espanha – 2014)
Direção: Alberto Rodríguez
Roteiro: Rafael Cobos, Alberto Rodríguez
Elenco: Javier Gutiérrez, Raúl Arévalo, María Varod, Perico Cervantes, Jesús Ortiz, Jesús Carroza, Salva Reina, Antonio de la Torre, Nerea Barros, Ana Tomeno, Jesús Castro
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.