Crítica | Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

“Um homem conta suas histórias tantas vezes que ele se torna as histórias. Elas vivem para alem dele, de uma maneira que o torna imortal.”

Contém spoilers.

Meu pai, contador de histórias, falava que era “imorrível”. Dada as tantas vezes que pensei, incredulamente, sobre o assunto, adentrando confins religiosos, assim como inúmeros afins, nunca pensei que ele fosse, verdadeiramente, ser isso  – estava enganado. Começar uma crítica abordando a minha própria pessoalidade – um crítico comentando sobre a sua vida – é deveras estranho, mas Peixe Grande, por certo, mostra-se uma obra que trabalha com sentimentos muito próximos daqueles que compartilho como ser humano, justamente no longa-metragem que pode ser configurado como o mais repleto de humanidade extraída pelo cineasta Tim Burton, com a carga dramática mais poderosa já obtida pelo artista. O afastamento disso compromete a minha isenção em termos pessoais e, dessa forma, a usarei como maneira de enriquecer a argumentação da obra, porque, nessa rica história, Edward Bloom (Albert Finney) também é um contador de histórias, até mesmo das histórias que nunca viveu – ou viveu -, mas que não são desonestas por serem construídas por pontuais imaginações. O cineasta é conhecido por trabalhar, tangenciando ou enaltecendo, a temática de pai e filho – Edward Mãos de Tesoura e A Fantástica Fábrica de Chocolate, a exemplos. Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas é o grande momento do diretor nesse quesito, encontrando a história perfeita para contar ao mundo, com roteiro adaptado de John August. Uma história, no final das contas, sobre histórias.

Quantas narrativas já ouvimos dos nossos pais, suas peripécias infantis e aventuras juvenis? Os amigos de colégio, os amigos de faculdade, os amigos da vida. Ao mesmo tempo que tenhamos vivido muito tempo com eles, vivemos pouco o suficiente e, dificilmente, ficamos a par dos meandros dessas explorações, apenas aquelas que eles, em algum momento, decidiram contar. São todas verdades? As inseguranças que Will (Billy Crudup) possui em relação aos relatos contados por ser pai, em uma época em que, ainda jovem, era vivido por Ewan McGregor, são extremamente exageradas, acreditando nunca ter conhecido quem Edward Bloom era – inseguranças estapafúrdias, assim como as histórias, possivelmente, também seriam. O convite do cineasta é para o adentramento ao imaginário, repleto de uma vitalidade apaixonante. Os contornos, nessas viagens ao passado, são os mesmos das cidades exóticas de outros longas – a cinematografia de Philippe Rousselot impressiona, entendendo de mística. O mundo criado, em grande parte, é um mundo muito mais colorido – a iluminação trabalha a favor desse deslumbramento do protagonista acerca dele. O cineasta até mesmo se permite aludir a aspectos socioeconômicos, assim como questões políticas, para entender esse jogo entre o fictício, dos mundos quase atemporais que construiu, com o verdadeiro, das esferas embasadas em uma fidedignidade costumeiramente renegada. O interesse é nesse diálogo entre o que é mentiroso e o que é verdadeiro.

O presente, por uma via de oposição, atrela-se fortemente ao que entendemos, no nosso mundo, como presente, não nessa reinterpretação burtoniana, sobre conteúdo e estética, oposta a uma dimensão paralela e fantasiosa qualquer. Do conto de fadas das histórias do passado, o relacionamento amoroso entre Edward Bloom e Sandra (Alison Lohman) é o maior representante dessa jornada. A realidade, em muitos casos, não consegue fazer justiça à realidade das coisas – quando o tempo para, um símbolo para um maravilhamento que não conseguimos emitir em toda a sua grandiosidade apenas pelo olhar, apenas nos aproximar. Como acreditar em uma história de amor como essa, sem torná-la realista, mas ainda mais poderosa? Burton é um verdadeiro apaixonado, engrandecendo o interesse amoroso – interpretada, depois, por Jessica Lange. Ewan McGregor, por outra instância de observação, também é imensamente responsável pela credibilidade mágica alocada a essa paixão, tranquilamente sustentada pelos seus sorrisos e expressões de encantamento contínuo, da chegada à incrível cidade de Spectre, ao primeiro olhar para sua eterna namorada, até mesmo ao momento que, após contínuos socos, compreende a possibilidade de um futuro ao lado da garota. No presente, Albert Finney permanece sendo apreciável pelo espectador, com diferenças, tratando-se de uma interpretação mais pé no chão, que compreendem a mudança do que, teoricamente, é ilusão, para o que, teoricamente, é verdade.

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas quer o reconciliamento que Tim Burton, nessa época de sua vida, realmente ansiava para sua arte – A Fantástica Fábrica de Chocolate, posteriormente, uniria o estranho Willy Wonka, nos últimos momentos da narrativa, ao menino comum, cheio de problemas de pessoas comum, Charlie, como acontece com essa união daqui, do passado com o presente. A desmitificação do fabuloso, porém, não é o caminho entendido pelo cineasta – como pode-se compreender os passos derradeiros tomados por ele -, mas uma compreensão de uma grandiosidade para além das histórias como histórias, na verdade, do que elas representam – o amor do homem por sua esposa, por exemplo. O desenvolvimento dessa ótica transformada do jovem para seu pai, que, antes, retornaria a ter algum contato, após um agravamento da doença do velho, contudo, é extremamente bagunçado, porque, primeiramente, o terceiro ato perde, quase que completamente, o poderio em estabelecer esse contraste, resolvendo colocar Will para desbravar, por si mesmo, quem era o homem que o criou. A jornada poderia ter sido aliada por mais tempo com a jornada do passado – os momentos entre pai e filho também poderiam ter sido explorados. Jenny (Helena Bonham Carter), no caso, é retomada como personagem, no entanto, um outro arco é aberto, não o suficiente para uma credibilidade na metamorfose de óticas, que se encaminha, enfim, à conclusão emocionalmente carregada.

O funcionamento do término do longa-metragem, entretanto, independe consideravelmente dos equívocos de um roteiro distanciado de qualquer perfeição. A cena da conversa entre pai e filho convence espetacularmente – ou, aqui, é o meu passado conversando comigo, a minha assimilação com esse enredo. O garoto passa a contar uma história para o seu pai – as expressões de Finney mudam das corriqueiras. O cineasta, entre os méritos, conseguiu, pelas duas horas de duração do filme, estabelecer uma relação de afeição entre Edward Bloom e as pessoas que passaram pela sua vida – o gigante bom amigo, o mestre de cerimônias, as gêmeas -, tornando-as ocasionais trivialidades, como a vida, pensando em termos maiores, é composta. Os relacionamentos, porém, enquanto partes individuais, situadas em suas próprias dimensões fantásticas, são histórias próprias – a narrativa maior, em contrapartida, é a romântica, nessa vertente extremamente apaixonada do cineasta pela vida. O engrandecimento, de um homem com poucos equívocos, também apresenta-se, em um relacionamento paternal que, aparentemente, deu-se sem muitos erros, sendo a única problemática evidente justamente uma que, quase sempre, ignoramos – por não ser um real problema para o mundo mundano -, mas que é relevante o suficiente para repensarmos. Tim Burton quer que os seus espectadores enxerguem a relevância das histórias contadas, para não as esquecerem e, portanto, esquecerem as pessoas que amam.

A vertente fantástica, de vidas quase perfeitas – personalidades aperfeiçoadas -, é parte de um recorte consciente do cineasta. Os espectadores, provavelmente, terão suas memórias desagradáveis com seus pais e mães, porém, o sentimento maior da situação acompanha a cena em que, carregado pelo seu garoto, Edward Bloom comenta: “A história da minha vida”. As lágrimas são quase impossíveis de serem contidas. Quando o longa-metragem se encerra, o espectador imerge na realidade das coisas, um mundo, surpreendentemente, não tão distante daquele narrado pelas histórias, mesmo que as aventuras tivessem sido contadas de uma maneira muito mais charmosa para seu filho. A forma foi completamente alterada, em contradição, o conteúdo permaneceu o mesmo – o diálogo com o médico, mesmo que ruim, absorve isso. Os personagens são os mesmos, os sentimentos também. A jornada, quando olhamos para o passado, para as histórias dos nossos pais, não enxergando avulsas pontuações, factualmente ordinárias, mas o completo senso de maravilhamento de evento para evento, sofrido, vencido e vivido, é grandiosamente pensada. No último momento de uma vida composta por grandes momentos pequenos, todas as pessoas que passaram pelas jornadas retratadas – a composição de passagens espaçadas, mais orgânicas com o que a vida acaba por ser, remete aos também apaixonados pela vida e por contar histórias Forrest Gump – O Contador de Histórias e O Curioso Caso de Benjamin Button. A imortalidade de um de um ser humano, de um marido, de um pai.

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (Big Fish) – EUA, 2003
Direção: Tim Burton
Roteiro: John August
Elenco: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alisson Lohman, Helena Bonham Carter, Robert Guillaume, Matthew McGrory, Marion Cotillard, Danny DeVito, Steve Buscemi
Duração: 125 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.