Crítica | Penny Dreadful – 3ª Temporada

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estrelas 3

Obs: contém spoilers do ano atual e das temporadas anteriores. Leiam as demais críticas da série aqui.

Mal sabíamos, quando começamos a assistir a terceira temporada de Penny Dreadful, que essa seria a última. Infelizmente não é a primeira, tampouco será a última vez que tivemos uma série de ótima qualidade sendo cancelada – Roma e Utopia são dois exemplos evidentes disso. Mais que simplesmente nos privar de uma próxima temporada, contudo, o cancelamento traz um grande problema que deixa os produtores da série com duas alternativas: a primeira consiste em simplesmente continuar com o planejado, fechar a temporada sem um final para a série propriamente dito e rezar para que outra emissora “adote” o programa; a segunda, por sua vez, consiste em alterar o final do ano vigente para que o seriado tenha um desfecho, mesmo que um tanto apressado. Penny Dreadful adotou a segunda opção.

Ao exemplo dos dois anos anteriores, a temporada começou muito bem. Fomos apresentados a um dos principais antagonistas da série, Dracula, interpretado por Christian Camargo, que vivera Brian Moser em Dexter. A revelação do vilão ocorreu de forma prematura, poderíamos ter sido deixados no escuro ao lado dos personagens principais, mas, de um modo geral, isso não prejudicou muito o andamento da narrativa, principalmente pelo trabalho realizado por Camargo, que nos traz um personagem verdadeiramente carismático.

Em paralelo, tivemos jornadas bastante intimistas para cada uma das figuras que acompanhamos desde o première do seriado. Malcolm e Chandler nos EUA lidando com os problemas familiares de Ethan; John Clare retorna ao Reino Unido para se reencontrar com sua família; Frankenstein reencontra com seu amigo Dr. Jekyll e o ajuda em seus experimentos e Lily, ao lado de Dorian Gray, segue sua jornada feminista extremista que visa a submissão de todos os homens às mulheres.

Até o sétimo capítulo temos a forte sensação de que algo efetivamente está sendo construído. Todas as subtramas são cuidadosamente estabelecidas e desenvolvidas, algumas delas com uma estrutura que claramente visava um maior desabrochar somente no futuro, mais especificamente em um ano posterior. O cancelamento, contudo, evidentemente pegou a todos de surpresa e suas consequências foram sentidas por nós, espectadores. A subtrama de Ethan é um bom exemplo para isso, enquanto segue com calma por maior parte da temporada, ela é simplesmente finalizada de hora para outra, a queda do personagem para o lado sombrio é resolvida em instantes e gera um estranhamento imediato em nós. Além disso, todo o passado de John Clare com a srta. Ives é ignorado, resolvido em um simples diálogo, a condição especial do Dr. Jekyll jamais é explorada, desperdiçando o personagem completamente, Dorian permanece sem uma evolução de personagem digna de figura tão importante dentro da literatura. Nada, porém, se compara ao finale em si, cuja pressa é tão gritante que nos mostra um Dracula que simplesmente some de hora para a outra para nunca mais aparecer.

Dito isso, algumas coisas se salvam desse encerramento que mais soou como um vendedor ambulante que recolhe suas coisas rapidamente ao som da polícia chegando. O trabalho de direção jamais deixa a desejar e, em conjunto com a equipe de fotografia, nos traz planos verdadeiramente hipnotizantes – até hoje não me esqueço da cena final com Dorian, ao lado de seus quadros, sendo iluminado apenas pela luz acinzentada que perpassa a neblina, muito bem refletindo seu estado de imutabilidade ao longo dos anos – muito depois de todos esses eventos, ele ainda continuará lá. A morte de Vanessa é outro momento que nos faz chorar, parte pela maneira como foi retratada e parte pela ausência de um roteiro mais parcimonioso, que amplificaria todo o drama da sequência – evidentemente esse foi um momento trazido de muito adiante. Impossível não lembrar, também, que aqui tivemos um dos melhores episódios de toda a série, A Blade of Grass, um exemplo de atuação por Eva Green e uma aula de direção de Toa Fraser, que faz verdadeiros milagres em um ambiente enclausurado, nos trazendo diferentes perspectivas que perfeitamente refletem o estado psicológico da protagonista.

Penny Dreadful tinha muito a oferecer, mas não passou no teste da audiência e quem sofre somos nós que acompanhávamos essa série que, em condições normais, provava ser uma das melhores da atualidade. Apesar de seu ritmo demasiadamente acelerado, o desfecho do seriado conseguiu amarrar a maior parte de suas pontas soltas, pode estar longe do satisfatório, mas ao menos terminou de nos contar uma história. É triste constatar que essa se prova como o ano mais fraco da série, por mais que, se levássemos em consideração apenas os sete episódios iniciais, teríamos a melhor. Assim como ocorrera com Roma e Utopia, fomos deixados órfãos novamente.

Penny Dreadful – 3ª Temporada (EUA/ Irlanda/ Reino Unido – 2016)
Showrunner: John Logan
Emissora original: Showtime
Emissora no Brasil: HBO
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Eva Green, Christian Camargo, Timothy Dalton, Wes Studi, Harry Treadaway, Josh Hartnett, Douglas Hodge, Shazad Latif, Sarah Greene, Sean Gilder, Brian Cox.
Duração: 9 episódios de aproximadamente 55 min. cada.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.