Crítica | Pequena Miss Sunshine

pequenamisssunshine

estrelas 4,5

“Há dois tipos de pessoas nesse mundo, vencedores e perdedores” – Richard Hoover disserta sobre sua tese durante uma palestra para um grupo local.

Afinal, o que distanciaria os vencedores dos perdedores? As conquistas das derrotas? O que de fato permitiria o homem evitar o fracasso e ser induzido a vencer. E qual o objetivo de seguir essa busca incessante de uma concepção normativa do vencer? Apenas vencer? Vencer para quem? Para os outros? Para o mundo? Para si mesmo? Assim estreou no Festival de Sundance de 2006 o primeiro longa-metragem de Jonathan Dayton e Valerie Faris, que, logo de cara, aborda a palestra de Richard Hoover (Greg Kinnear) sobre seu livro de auto-ajuda que aborda os nove passos necessários para ser um vitorioso, distribui o mundo em duas posições antagônicas, dualistas e quase maniqueístas. Ou você vence, ou você fracassa.

Na trama, o peso familiar está carregado sobre os ombros de Sheryl (Toni Collete), esposa, mãe e principal provedora da casa. Já Richard, embora utilize-o em sua própria vida cotidiana e aplique suas ideias na criação de seus filhos, está frustrado por não conseguir vender seu livro para nenhuma editora. Está na figura do irmão de Sheryl, Frank Ginsberg (Steve Carell), especialista no escritor Proust, mover o começo da trama, após falhar em uma tentativa de suicídio. Tendo que ficar com a família, Frank é reapresentado a seu sobrinho Dwayne (Paul Dano), que, movido pelo seu desejo de tornar-se um piloto de teste e por seu interesse em Friedrich Nietzsche, optou por fazer um voto de silêncio.

Sendo todos personagens interessantíssimos a serem trabalhados, a família ainda conta com Edwin Hoover (Alan Arkin), pai de Richard, que foi expulso de um asilo devido a problemas com heroína. O grupo é completado com Olive (Abigail Breslin), filha do casal, que tem na figura do seu avô o treinador responsável por manter seus aspirantes desejos de ser a Pequena Miss Sunshine. Quando a família descobre que Olive foi classificada para disputar o prêmio, após a vencedora da competição regional ter sido desclassificada, todos embarcam em uma viagem rumo à Redondo Beach, dentro de uma simpática – e enferrujada – Kombi amarela.

O roteiro de Michael Arndt então joga o espectador para dentro de uma jornada espirituosa e nada convencional. A fórmula de road trip é indiscutivelmente bem sucedida ao projetar um estudo profundo da concepção de família, tanto em seu conjunto quanto em sua individualidade. Por outro lado, há alguns aspectos duvidosos no trabalho de Arndt. A conjuntura mais trágica, que ocorre tanto em um motel quanto em um hospital, abre as portas para um inconcebível, quase insensível, tratamento humorístico. Enquanto a conversa entre mãe e filha para que a criança entenda o que está acontecendo e o que pode vir a acontecer é extremamente verdadeira, tudo o que acontece a seguir é extremamente inverossimilhante. Os elementos surreais não são tão bem abalroados aqui quanto os colocados durante à chegada ao hotel, durante o incrível terceiro ato, que é impagavelmente engraçada, assim como a maneira de correr, quase alienígena, de Frank.

Ademais, reside no forte elenco a contribuição final na construção de personagens bem escritos. Alan Arkin é extremamente eficiente em atribuir à Edwin um caráter humorístico mais pesado, mas ainda assim sincero. Sua performance condiz muito bem com a situação de um homem velho que após ter vivido uma vida dentro dos conformes sociais, agora, busca em prazeres hedonistas encontrar a felicidade no que lhe resta. Sua relação com Olive é a mais sensível das relações entre os membros da família, com os diálogos mais tocantes alocados na interação entre os dois. O filho de Edwin, Richard Hoover é a personalidade que passa pela mais significativa mudança dentre as outras. O ator Greg Kinnear lida muito bem com a passagem de um homem contraditório acerca de seus próprios ideias para um outro mais convicto de seus propósitos. É duro de ver o próprio ganha-pão de Richard, ou seja, sua tese sobre o conflito eterno de vitória x derrota, ser rejeitada até pelos membros de sua própria família.

Com Toni Collette, a imagem de uma mãe imponente, que lida com a sobrecarga da vida, é transmitida muito bem. O cigarro em suas mãos tem um peso, assim como os delicados confortos que a mulher dá as pessoas a sua volta. Sua presença é muito mais forte para seus filhos que a de Richard. Em um dos primeiros diálogos do filme, Olive se questiona sobre a realidade dos acontecimentos que ocorreram a seu tio. Enquanto Richard tenta omitir os fatos, Sheryl permite que a honestidade das coisas seja configurada. Não é para menos que a opinião de Sheryl prevalece, enquanto a de Richard internaliza-se em sua própria frustração.

Falando em Frank, o túrbido suicida de Steve Carell é uma das principais veias condutoras do filme. Neste mesmo diálogo de Olive com seu tio, durante o almoço na mesa de jantar, as informações necessárias para se entender o personagem são passadas com pouca sutileza, quase expositivas, mas que com o trabalho do ator tornam-se terrivelmente verdadeiras. Seu porte inquietante, de um homem nocivo a si mesmo, vai aos poucos dando origem a um alguém de caráter mais flexível aos obstáculos. Também nota-se as interações entre Frank e Richard, que são turbulentas – mas ainda sim cômicas, pois para o escritor de auto-ajuda estaria na figura do outro o retrato perfeito da ruína de um homem. Engana-se porém quem acredita que a origem da dor de Frank está no fracasso amoroso. O filme, inteligentemente, vai aos poucos dando margem à uma interpretação de que o desgaste da promissora carreira acadêmica do homem é a verdadeira causa de seu sofrimento.

E o que falar de Paul Dano? Enigmático, o ator conduz magnificamente o reflexo da “dolorosa” juventude, sem precisar de nenhuma fala. Quando revelado que ele precisará acompanhar a família na viagem, sua rejeição ao fato é calorosamente temperada pelas feições do ator e calmamente agraciada pela assistência de Sheryl, uma confortante gravura materna, além de revelar, com recato, uma informação crucial para o entendimento do personagem. Sem falar na climática revelação sobre uma condição especial afligindo Dwight, que transmite do modo mais franco possível a libertação das amarras da esperança. Até mesmo o caderninho de anotações consegue passar tremenda transparência em sua abordagem.

Talvez a alma da obra, o centro do filme externaliza-se em Olive, a ingênua e adorável filha dos Hoover. Mesmo pequena, Abigail Breslin consegue contagiar o público, ao representar uma garotinha, que embora propensa a inseguranças, consegue subjugar seus medos, tão poderosos para a sua mente quanto os medos adultos são para as mentes de pessoas adultas. A diferença está que, enquanto a maior parte dos adultos constantemente permeiam seus próprios calvários, Olive encontra a chave para contornar seus temores, e de sobra, contornar os maiores pesadelos de seus entes queridos.

Conduzido por algumas vias questionáveis, Pequena Miss Sunshine surpreende ainda assim em seu aspecto de feel-good movie. Um casting espetacular, um roteiro comprometido com a sua proposta, uma emotiva trilha-sonara e uma direção proficiente. Na missão da menina, tornar-se a Pequena Miss Sunshine, a família encontra sua redenção, não resolvendo seus problemas, mas encontrando paz nas pessoas com quem eles irão caminhar pelo mar de desafios que a vida traz. Pois, embora o título de maior estudioso sobre a literatura de Proust não pertença mais à você, você consegue superar. Embora seu maior sonho seja agora apenas resquícios de objetivos antes possíveis, você consegue superar. Embora o trabalho de sua vida seja inutilizado por falsas promessas, você também consegue superar. A vitória não está na ausência de derrotas, mas na intenção de manter-se firme perante os obstáculos, que mesmo derrubando-os, não precisam necessariamente tirar a esperança, e deixar que os momentos bons sejam esquecidos.

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine) — EUA, 2006
Direção:
 Jonathan Dayton e Valerie Faris
Roteiro: Michael Arndt
Elenco: Greg Kinnear, Toni Collette, Abigail Breslin, Steve Carell, Paul Dano, Alan Arkin, Bryan Cranston, Dean Norris, Wallace Langham, Beth Grant, Jill Talley, Matt Winston
Duração: 101 min

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?