Crítica | Pequeno Segredo

estrelas 1,5

Diante de toda a conturbação atual do Brasil, tomar posições argumentativas sobre Aquarius e este Pequeno Segredo se tornou um ato muito mais político do que ser comentarista ferrenho de House of Cards. Para o bem ou para o mal, a trajetória destas duas obras trouxeram à tona tudo o que havia para ser dito, pensado e idealizado sobre a política de nosso país. O protesto da equipe de Aquarius em Cannes contra o impeachment de Dilma, a perseguição sofrida pelos mesmos após tal ato, a escolha cheia de dúvidas de Pequeno Segredo para nos representar  no Oscar vindouro… é praticamente impossível falar destes dois filmes, que inevitavelmente entraram em conflito (muito devido ao radicalismo das chamadas Esquerda e Direita, Zzzzz…), e não ser político em algum momento.

Mas não é de politicagem que queremos falar. Ao menos não em relação a Pequeno Segredo. Aquarius sim, carrega consigo fortes teores de crítica social, mensagens de resistência… já o filme de David Schurmann é apenas um título ingênuo sobre como narrar (ou não narrar) uma história. De cunho bastante pessoal para o realizador, o filme entrelaça histórias e personagens para, no fim das contas, nos falar sobre Kat (Mariana Goulart), filha adotada do casal de velejantes Vilfredo e Heloísa Schurmann (Marcelo Antony e Júlia Lemmertz) e sobre suas descobertas em relação ao mundo, a vida e ao seu próprio destino e história. Não cabe entrar em muitos detalhes aqui, isto para preservar o tal “segredo” anunciado pelo título da obra.

Porém, se fosse para classificar Pequeno Segredo antes de justificar seus méritos (ou deméritos?), ele pode ser facilmente apontado como um muitíssimo bem finalizado comercial de margarina. Ora, o Ministério da Cultura apontou como justificativa para a escolha de Pequeno Segredo para tentar uma vaga no Oscar 2017 o fato de que o mesmo possui mais potencial para ‘seduzir os membros da Academia’. Ou seja, seria um filme acadêmico. E após assistir ao filme, fica a indagação se por “acadêmico”, a comissão entenda como sendo algo emocionalmente abrangente ou estruturado de alguma forma mais convencional para as premiações. Nem um e nem outro: Pequeno Segredo, apesar de esforçado como homenagem do próprio Schurmann ao seu nome familiar, nada mais é que uma obra absolutamente higienizada.

Digo higienizado por dois fatores bastante claros: o roteiro, escrito a três mãos por Victor Atherino, Marcos Bernstein e o próprio Schurmann é tão pretensioso em trabalhar em cima de duas linhas temporais que mais parecem estar ali para goumertizar a narrativa (percebam como a subtrama do casal Robert e Jeanne, mesmo historicamente essencial, parece tão deslocada na maior parte do tempo) quanto acomodado em apostar nos mais batidos subterfúgios dramáticos (novamente, todo o envolvimento do casal citado carece de fatores ‘pé-no-chão’ para se justificarem em uma história real) para que Schurmann se entregue à tendenciosidade em seu principal foco: a família Schurmann é retratada de uma forma tão ‘preto-no-branco’ (a avó megera de Fionnula Flanagan é de uma inconveniência gritante), que fica no ar o questionamento sobre até onde aqueles personagens podem estar sendo manipulados em prol do desejo que as lágrimas possam descer pelo rosto do público para dopá-los de todo o maniqueísmo presente.

Mas é latente a despreocupação do diretor em delinear os personagens como figuras que possam gerar alguma empatia para quem está fora da tela. Tudo é mera desculpa para imagens de composição estética vindas de um realizador que ainda não parece amadurecido em sua própria forma, e na busca em mascarar essa falta de tato, dá-lhe imagens que são enquadradas como se tivessem sido inspiradas em cartões-postais ou comerciais de publicidade, embranquecidas ao ponto destas imagens perderem sua vida e seu ilusionismo visual. Em resumo, Pequeno Segredo não engana.

E assim, cai por terra o suposto compromisso de Schurmann com uma dramaturgia autêntica e fica escancarada sua abordagem lavada e televisionada (o filme se assemelha, e muito, com as minisséries transmitidas pela Globo após as 23h), sua estética calcada no que há de mais básico para dramatizar sua história (chamá-lo de filme caseiro não seria errado) e o absoluto distanciamento da obra com os próprios rostos que a narram.

Dessa forma, nem precisamos de Aquarius para atestar a ineficiência de Pequeno Segredo diante do mercado nacional atual, independente de seu suposto potencial para nos trazer nosso primeiro Oscar.

Pequeno Segredo – Brasil/ Nova Zelândia, 2016
Direção:
 David Schurmann
Roteiro: Victor Atherino, Marcos Bernstein, David Schurmann
Elenco: Fionnula Flanagan, Erroll Shand, Maria Flor, Júlia Lemmertz, Thomas Silvestre, Michael Wade, Marcello Antony, Ryan James
Duração: 107 min.

 

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.