Crítica | “Percipere” – The Outs

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estrelas 4

A cena do rock psicodélico vem se mostrando uma das áreas musicais mais promissoras do nosso país. É interessante ver como uma quantidade esmagadora de bandas do movimento chamado “nova psicodelia” vem ganhando repercussão. Uma entres as de maior destaque é a carioca The Outs, que com pouco tempo de estrada (na ativa desde 2012) já abre shows de referências gringas como Temples e arranca elogios até fora do Brasil. Após o lançamento de alguns EPs – entre eles Marmelade Land e Spiral Dreams – os garotos chegam ao primeiro disco, Percipere.

Percipere se trata de uma obra que se destaca não só pelo seu caráter de estreia, mas pela quebra com o idioma que se costumava cantar (inglês), já que diferente de EPs anteriores, o novo trabalho é todo cantado em português. Para aqueles que acompanham a psicodelia nacional nos últimos anos é normal ver tal escolha refletida pelo sucesso do Boogarins – talvez a maior influência dessa nova safra psicodélica nacional – que conseguiu repercussão enorme no exterior mesmo cantando em português.

Em meio a um cenário psicodélico que pode, sim, se tornar exaustivo caso não se renove ou diferencie, o The Outs aposta suas fichas no seu instrumental extremamente ténico, bem tocado e arranjado. Pois antes de ser psicodélica, a banda é essencialmente “rockeira” e faz questão de depositar fé nas suas ótimas linhas de guitarra e boas execuções do baterista, algo que muitos artistas da nova psicodelia vem se esquecendo, exagerando, por vezes, a mão nos sintetizadores. O solo magnífico logo na abertura de Ainda Me Lembro, por exemplo, é um frescor e tanto, um túnel sinestésico refletido nas cordas tocadas com extrema competência.

O disco revive a memória dos anos 60 e 70 com muito esmero, explorando a psicodelia orgânica de uma maneira muito bem controlada, assim como fizeram The Beatles e The Byrds, flertando vez ou outra com algo mais profundo típico da fase Pink Floydiana com Syd Barret. Através de canções de alto valor melódico, a banda constroi um álbum que é acessível tanto a fãs de psicodelia quanto a leigos no estilo, sem precisar se prender a complexidades pra mostrar sua qualidade de alto nível.

Pode ser o vocal se esvaindo em meio as ondas do instrumental delirante de Um Dia Eu Vi, os acordes delicados de Rio Azul, ou o arranjo climático de vibe nostálgica de Tempo Fala, o primeiro registro de estúdio da banda é repleto de belos momentos, fluindo como uma obra bem leve. Suas nítidas influências também são demonstradas, como em Quero Voar, canção que parece quase saída de um disco dos Mutantes. E, como cereja do bolo, o grupo sabe como fechar um álbum com maestria: Os monstros nadam no litoral afogando o esclarecer (da sua mente) é uma viagem tão louca quanto seu título tenta sugerir. O ápice instrumental da banda, onde o arranjo de vocais se funde perfeitamente ao caos libertado pelas guitarras, baixo e bateria, todos em perfeita coordenação.

Percipere se mostra um grande passo para o The Outs, revelando uma obra coesa, direta e de alta competência técnica, valores que muitas vezes acabam perdidos na busca por originalidade e surpresa. O que The Outs promete, ele entrega com primor, o que permite que seus próximos passos sejam observados com olhos atentos. Se trata de uma das mais promissoras bandas da nova geração do rock brasileiro…

Aumenta!: Os monstros nadam no litoral afogando o esclarecer (da sua mente)
Diminui!:

Percipere
Artista: The Outs
País: Brasil
Lançamento: 7 de julho de 2016
Gravadora: Deckdisc
Estilo: Rock psicodélico

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.