Crítica | Perdas e Danos (1992)

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Em 1992, o cineasta Louis Malle entregou um de seus filmes mais controversos. Perdas e Danos, penúltima realização cinematográfica de sua carreira, tratou de temas como obsessão, núcleo familiar disfuncional e liberdade de escolhas. Indigesto para a sociedade tradicional, a trama lembra bastante as temáticas polêmicas de Nelson Rodrigues, um dos melhores dramaturgos brasileiros do século XX. Com roteiro de David Hare e Josephine Hart, o filme ergue-se com os desempenhos inspirados de Jeremy Irons e Juliette Binoche, tendo um dos desfechos mais angustiantes da história do cinema.

A trama retrata o cotidiano de Stephen Flemming (Irons), um homem entediado com a mesmice de sua vida. Respeitado político do Parlamento Britânico, encontra-se numa situação inusitada, pois se apaixona pela noiva de seu filho, a enigmática Anna (Binoche). Correspondido, ambos mais adiante adentram numa malha de obsessões e paixão desregrada que trará conflitos significativos que trará consequências trágicas para a vida de todos os envolvidos.

Eles iniciam um tórrido caso amoroso que dos encontros escondidos acaba por começar a caminhar de forma inconveniente, bem próximos da sua esposa e do seu filho. Anna desperta o lado obsessivo de Flemming ao se recursar a terminar o relacionamento com o noivo, o que pede da dupla um agendamento cada vez mais tenso e manutenção dos desejos em situações bastante comprometedoras.

Marty (Rupert Graves) é o filho. Ele é uma das “vítimas” da situação, ao lado da mãe, Ingrid (Miranda Richardson), mulher que vive em um casamento estagnado e sem o nada discreto charme da juventude. Não há espaço para aventuras e aquecimento sentimental, motivação para Flemming sair das suas amarras e regras sociais para se relacionar com a mulher do filho, uma traição tida por muitos como moralmente perversa e inconcebível.

Com cenas visualmente interessantes, Perdas e Danos tem na condução musical de Zibigniew Preisner um ponto forte em sua estrutura, produção que apesar de se arrastar entre uma cena e outra, possui grande potencial dramático, graças ao roteiro bem escrito. Com diálogos relevantes e reveladores, o texto ganha também por sua construção de personagens, em especial Anna, ancorada no excelente desempenho da ótima Juliette Binoche. Espécie de versão do mito de Perséfone, a personagem misteriosa possui um profundo olhar distante que evidencia o seu perfil nebuloso. Num determinado trecho, sabemos que ela mantinha uma relação incestuosa com o irmão na adolescência. Quando arruma um namorado, decide não manter mais o contato com o membro familiar, o que leva o rapaz ao desequilíbrio emocional, culminando em seu suicídio.

Sem cenas de nudez gratuita, o filme não se rende ao sexo desmedido, como pode levar a imaginar por seu cartaz oficial. Focado no drama e no aprofundamento psicológico de seus personagens, ganhou espaço de luxo no patamar das produções do “cinema de arte”, referenciado constantemente em listas cinéfilas e preferências da crítica especializada no que tange aos filmes mais inesquecíveis, desoladores, profundos, dentre outras características.

Em seus 111 minutos, Perdas e Danos é um filme que mergulha profundamente em diversas questões que gravitam em torno dos relacionamentos pessoais, tais como a infidelidade, a hipocrisia e a necessidade de manter solidificada uma estrutura de família que talvez nem seja mais líquida, como se convencionou dizer na contemporaneidade, mas gasosa, tamanha a desconfiguração de padrões que há algumas décadas era enrijecidos e fixos.

Perdas e Danos (Damage) — Reino Unido/França, 1992.
Direção: Louis Malle
Roteiro: David Hare, Josephine Hart
Elenco: Ian Bannen, Jeremy Irons, Juliette Binoche, Leslie Caron, Miranda Richardson, Rupert Graves, Peter Stormare, Leslie Caron, Jason Morell, David Thewlis, Gemma Clarke
Duração: 112 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.