Crítica | Perdido em La Mancha

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Em 1989 Terry Gilliam leu Dom Quixote pela primeira vez. Anos mais tarde, ao falar dos temas que lhe chamaram a atenção e acenderam a sua vontade imediata em transformar o livro em filme, o artista disse que a relação entre indivíduo em sociedade e o conceito de sanidade da obra lhe atraíram grandiosamente. Ele, de certa forma, se via no velho protagonista com a mente cheia de fantasias de cavalaria, uma arte-valor extinta que esse cavaleiro repentino sentia a necessidade de resgatar. Em 1990, em um acordo com a Phoenix Pictures, Gilliam começou a sua primeira produção dessa obra de Miguel de Cervantes. Os papéis principais dessa produção seriam de Nigel Hawthorne (Quixote) e Danny DeVito (Sancho), mas o cineasta acabou desistindo da empreitada porque o orçamento disponibilizado era muito baixo para o que ele pretendia e todas as mudanças necessárias já tinham sido empreendidas para baratear o filme. Continuar com a produção seria realizar algo totalmente oposto ao que ele um dia imaginou.

Começou aí a grande maldição quixotesca. Gilliam começou a produzir The Defective Detective, que também foi abandonado e a própria Phoenix Pictures cancelaria, em 1997, a segunda tentativa de levar Quixote adiante, com outro diretor e elenco. Em 1998, nove anos depois de ter começado a trabalhar nos esboços de roteiro e nos primeiros storyboards — e após uma tentativa frustrada de produção — o cineasta conseguiu um financiamento entre um grupo de investidores europeus. Ele então recomeçou sua jornada, agora com um outro nome e uma outra proposta. Inspirando-se em Um Ianque Na Corte Do Rei Artur, de Mark Twain, Gilliam concebeu um novo roteiro, ao lado de Tony Grisoni. Mas a maldição continuaria assombrando o projeto.

Nessa nova versão, que se chamaria O Homem Que Matou Dom Quixote, o público acompanharia a história de Toby, um publicitário desiludido que se encontra em uma situação onde a realidade de trabalho é atravessada pela fantasia de um velho sapateiro que acredita ser Dom Quixote e vê Toby como Sancho Pança. A proposta do filme era brincar com essa dualidade de visões, fazendo, inclusive, com que o público experimentasse uma parte das ilusões, chegando ao ponto em que ficaria difícil definir o que era fantasia e o que era realidade. Jean Rochefort — chamado de “O Quixote perfeito” pelo diretor — foi escalado para o papel principal. Seu fiel escudeiro seria vivido por Johnny Depp e a musa do filme seria Vanessa Paradis.

Perdido em La Mancha é um documentário de Keith Fulton e Louis Pepe que trabalha com o material filmado em 2000, nos primeiros dias de trabalho da equipe em de O Homem Que Matou Dom Quixote. Inicialmente, essas filmagens seriam para o making-off do filme, mas depois da sequência absurda de tragédias que assolaram a produção, Gilliam permitiu que fossem usadas para um documentário mostrasse como tudo deu errado. O filme mostra as dificuldades da equipe para fazer com que os atores chegassem ao set, a tempestade que avariou parte do material de filmagens, a doença do ator Jean Rochefort, as pressões dos produtores, as dificuldades inerentes a qualquer produção, o atraso no cronograma, o dinheiro ficando apertado e a constatação de que o filme precisava ser interrompido. O diretor e outros entrevistados lembram constantemente de As Aventuras do Barão Munchausen (1988), outro longa de complicada produção para Terry Gilliam, e dão conta do tamanho do impacto disso para o diretor.

O final de Perdido em La Mancha poderia expandir de verdade as consequências finais da suspensão e posterior cancelamento da obra, mas se contenta apenas com uma indicação sobre a retomada dos direitos autorais que foram para as mãos da seguradora. O que importa no filme, porém, é a angustiante visão da maré de azar que atacou essa produção de O Homem Que Matou Dom Quixote e de como Terry Gilliam lidou com essa situação. Não é um filme fácil de ver. Sentimos muito pelo diretor e vemos a grande angústia de todo mundo envolvido na produção, uma sensação crescente a cada nova tragédia durante as filmagens. E ainda demoraria mais 10 anos e muitas outras marés de azar até que o maldito projeto de Terry Gilliam para Dom Quixote ganhasse uma nova chance e, enfim, chegasse às telonas.

Perdido em La Mancha (Lost in La Mancha) — Reino Unido, EUA, 2002
Direção: Keith Fulton, Louis Pepe
Elenco: Terry Gilliam, Jeff Bridges, Johnny Depp, Vanessa Paradis, Jean Rochefort, Tony Grisoni, Philip A. Patterson, René Cleitman, Nicola Pecorini, José Luis Escolar, Gabriella Pescucci, Carlo Poggioli
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.