Crítica | Perdido em Marte

estrelas 2,5

A jornada espacial está a todo vapor em Hollywood. Começando lá em 2009, com o delicado Lunar. Depois, em 2013, com o ótimo Gravidade e 2014, o excepcional, lindo, maravilhosamente fantástico, Interestelar. Bom, já 2015… foi brindado com outra taça de espumante ruim, mais conhecido como Perdido em Marte, adaptação do livro homônimo de Andy Weir que, além de ser seu primeiro romance, foi um estrondoso sucesso de vendas nas livrarias norte-americanas.

O filme se concentra na desventura de Mark Watney, um astronauta da NASA enviado à Marte junto com outros cinco indivíduos – a comandante da missão Melissa Lewis, a especialista em tecnologia Beth Johanssen, o piloto Rick Martinez e mais outros dois astronautas.

Durante a missão, uma tempestade de areia fortíssima atinge o acampamento do grupo que se vê forçado a abandonar o planeta por conta dos possíveis danos que ela poderia causar no equipamento de subsistência. Enquanto eles seguem para o foguete de fuga, Mark é atingido por um estilhaço e se perde no meio da tempestade. Presumindo que ele está morto, Melissa comanda para que todos entrem no foguete e fujam do planeta.

Na Terra, a NASA continua a monitorar o local do acampamento via fotos de satélites, porém, para a “surpresa” de todos, Watney continua vivo. Agora cabe somente à NASA encontrar um modo de manter Watney vivo até conseguirem enviar a próxima missão Ares que deve viajar à Marte daqui cinco anos.

O roteiro fica por conta de Drew Goddard responsável pelo texto de outros dois excelentes filmes: O Segredo da Cabana e Guerra Mundial Z. É evidente que aqui, Goddard não teve a mesma liberdade como na adaptação de Guerra Mundial Z para as telonas. Quem conhece o trabalho do roteirista, sabe de sua competência em manter o ritmo do texto sempre muito fluido e distribuindo reviravoltas com um vigor digno de Missão Impossível: Nação Secreta.

Bom, a verdade nua e crua, o motivo do roteiro do longa desapontar, e muito, cai diretamente sobre a origem dele. Acredite, leitor, passei alguns dias discutindo sobre a qualidade dúbia da narrativa deste livro com colegas do site e entre amigos e todos entraram em um consenso: o livro simplesmente traz uma história feel good média – vocês podem conferir com a crítica justíssima do Ritter aqui. Logo, Perdido em Marte é um feel good movie. Filmes do tipo simplesmente existem para seu entretenimento, em te deixar descansado após um dia de trabalho, te aliviar e divertir. Na maioria das vezes, adicionam pouco ou nada em sua vida e você acaba os assistindo apenas uma vez em décadas.

Os problemas recaem logo nos primeiros quinze minutos de projeção: diálogos engraçadinhos, enrolados e pouco orgânicos. Depois somos apresentados à uma infinidade de personagens: há pelo menos dezesseis que vão e vem ao longo dos cento e quarenta minutos de filme. Em nenhum deles há alguma complexidade. Todos estão lá para resolver o simples problema de retirar Matt Damon de Marte. O conflito é primário e as coisas vão se atropelando no decorrer do longa, seja por decisões verdadeiramente estúpidas dos personagens ou por deus ex machina reversos.

Porém, o real problema reside simplesmente em Mark Watney, o astronauta mais de boas que existe no mundo – ou de uma propaganda da Polishop. “Você foi abandonado em Marte? Você está sozinho em um ambiente hostil que só quer te matar o mais rapidamente possível para voltar ao status de não habitado? Você não tem como se alimentar ou se comunicar com a NASA? Você se sente só? Pois seus problemas acabaram. Com a seleção de músicas disco de Melissa tudo irá melhorar. E se ligar agora mesmo, ainda receberá o exemplar exclusivo de Science for Dummies. Não seja um molenga, não fique Perdido em Marte”.

É irônico e desprezível ver como o texto se preocupa tanto em ser realista em termos de física, química e biologia enquanto joga no lixo relações diplomáticas reais ou qualquer drama ou conflito psicológico que seriam muito factíveis caso nós nos encontrássemos em uma situação tão deplorável e desesperadora quanto a de Mark Watney.

Não adianta esperar. Até o fim do filme, Watney fica completamente tranquilo. Ele resolve seus próprios problemas sozinho. Não se sente só graças aos vídeo-diários extremamente redundantes e repetitivos que apresenta cena após cena lotados de exposição. Watney simplesmente se diverte em Marte. Se alguma coisa o chateia, logo na cena seguinte ele está de ótimo humor. Céus, ele faz piadinhas até mesmo no clímax do longa. Além disso, ele sempre pode contar com seus amigos: lona e fica isolante. Esses dois itens praticamente resolvem os principais problemas que surgem na vida do astronauta.

O roteiro não conta somente com esses problemas, é claro. Também há o sumiço de personagens, a falta de conclusão em seus arcos, a introdução de novos personagens após mais de uma hora de filme, a completa falta de exploração dos outros astronautas, o surgimento para lá de surreal da solução para retirar Mark de Marte, as piadinhas completamente fora de hora – como na reunião definitiva para arquitetar o plano para salvar Mark, a bizarríssima ajuda entre dois países em uma relação para lá de utópica, o instrumento utilizado para salvar Mark que simplesmente aparece em Marte sem a menor explicação, as reviravoltas no clímax que quebram a lógica do argumento construído até ele, entre tantas outras coisas.

Vocês devem estar se perguntando, há algum ponto positivo? Sim, há. A ciência explicada às pressas para parecer inteligente e te deixar intimidado é deveras interessante. O uso da ciência também é vital para o personagem resolver todos os obstáculos – algo novo nesses filmes, quase um À Prova de Tudo espacial.

Algumas piadas são boas. E a história te mantém interessado na esperança de encontrar algum momento mais dramático – os quais existem, raramente, para então serem quebrados por alguma piada gratuita – como na primeira comunicação entre Mark e a NASA. Aliás, para o azar deste filme, mais uma vez acabei de me lembrar de outro absurdo. Em momento algum da película nós somos apresentados a família de Mark ou até mesmo temos o prazer em saber se ele possui algum parente. Simplesmente um buraco negro dentro deste roteiro. Mas garanto, os piores defeitos realmente foram transportados do livro para o filme. O problema é que as fraquezas do livro ficam ainda mais escancaradas quando assistidas em uma tela enorme.

O elenco é funcional na maior parte do tempo. Trata-se de um elenco com grandes nomes: Sean Bean, Jessica Chastain – encarnando a Murph do universo paralelo, Michael Peña, Kate Mara – sempre apática, Jeff Daniels, Chiwetel Ejiofor – praticamente o único ator que realmente se sobressai, Donald Glover e Matt Damon – ano passado, interpretando Mann, um astronauta em situação similar à de Watney, conseguiu impactar muito mais do que em Perdido em Marte.

A estrutura em si é muito semelhante aos filmes catástrofe dos anos 90, em especial Armeggedon. Não digo isso somente por conta do texto pobre, com poucas surpresas e quase nenhuma complexidade, mas também pela direção de Ridley Scott.

Nesse momento, dou uma pausa no raciocínio para explicar uma breve característica do cinema em geral. Sabe esses filmes que todos nós assistimos nos cinemas como Vingadores e outros blockbusters do gênero? Bom, a maioria da versão das quais assistimos trata-se do corte do produtor – o indivíduo que banca o filme e trabalha como um lunático para fechar a produção no prazo. Graças a isso, algumas vezes saem cortes posteriores do mesmo filme – as chamadas versões estendidas e versões do diretor.

Quando Ridley Scott ainda era um bebê em Hollywood, mais especificamente em Blade Runner, sua produtora não tinha condições para bancar o projeto e não possuía a menor liberdade para soltar a sua própria versão do filme na época. Somente em 1992, o público veio a conhecer a verdadeira visão de Ridley sobre o longa.

Agora em 2015, com muito dinheiro na carteira e com o sucesso de sua já consagrada produtora – Scott Free, mais literal impossível, ele tem as condições para impor suas vontades na obra que ele produz. Por isso, é ainda mais imperdoável a situação delicada que sua carreira se encontra agora. Seja com Prometheus ou Êxodo: Deuses e Reis, Ridley Scott não é mais o mesmo diretor sagaz de O Oitavo Passageiro, Gladiador ou Thelma & Louise.

Em Perdido em Marte, a situação pouco mudou. O filme, assim como todos os outros, é visualmente estonteante. A tecnologia de hoje realmente tornou a imaginação dos cineastas em algo muito palpável. Tanto que o 3D aqui é espetacular. Scott sabe muito bem usar a fotografia do mestre Darius Wolzki para imprimir longas profundidades de campo e deixar até mesmo a concepção suja e áspera de Marte em algo clean e difuso.

O problema mesmo reside na linguagem videoclipada que Ridley usa a todo momento. Há um excesso de planos médios, planos próximos, closes e planos conjuntos. É tudo tão parecido que não há tempo de respirar. Essa maneira de filmar já foi muito usada nos anos 1990 sendo trabalhada à exaustão por Cameron Crowe em Jerry Maguire. Com isso, o longa tem a roupagem de Armageddon, Inferno de Dante, Independence Day e Impacto Profundo. Isso é grave. Um longa de 2015 ter cara de anos 90 é sinal de direção no piloto automático. E é justamente isso que acontece aqui.

Scott enfatiza pouco ou nada da solidão do personagem visualmente. Os planos gerais servem apenas como establishing shots e mesmo que belíssimos, tornam-se redundantes após algumas sequencias já que nunca há o valor emocional agregado neles. Planos detalhe? Somente dois. Enfim, a linguagem cinematográfica é pobre, apesar da movimentação de câmera ser boa.

Outras falhas, já menos graves, mas que quebram a diegese, é a constate inserção de HUDs –algo já datado. Quando o plano mostrado passa a ter o ponto de vista da GoPro, é possível notar alguns medidores como temperatura e oxigênio. Meus amigos, se vocês ficarem notando essa porcaria de medidor, metade do filme terá morrido para vocês. Em determinada cena, reparei no nível de oxigênio que caia drasticamente – algo por volta de 1% a cada dois segundos sendo que o medidor já acusava 20% de O2 restante. Bom, esse medidor é tão competente quanto o da Usina de Chernobyl e oscila diversas vezes entre todas as cenas do longa, mas nunca fugia da casa dos 30 a 20%. Sempre quebrava a lógica.

Outra característica, também datada e preguiçosa, é a inserção em legendas do nome dos personagens e sua função na trama. Mesmo com esses poréns, Scott ainda sabe construir um filme razoável e divertido. Assistir à Perdido em Marte é algo fácil e relaxante. O diretor não surpreende no clímax, mas não deixa a desejar. É competente no uso da trilha sonora funcional de Harry Gregson-Williams, mas pesa a mão com a overdose de músicas pop dos anos 1970/80 que diversas vezes aparecem para repetir mais uma piada ou deixar o filme com um tom descolado. Porém, isso é um belo tiro no pé, mesmo que seja de pistola d´água.

Com a trilha licenciada de Guardiões da Galáxia tão fresca na memória do espectador, é difícil desvincular as imagens de Starlord cantando com um rato alienígena enquanto vemos Watney plantando batatas. A seleção de músicas é similar e o setting de ambos os filmes é no espaço, um ambiente alienígena. Ou seja, algo tão óbvio quanto a identidade de Superman.

Perdido em Marte é um apenas mais um filme razoável nesse ano repleto de catástrofes hollywoodianas – já vira um mérito. O roteiro, infelizmente, é manjado demais para surpreender ou ousar. Previsível a tal ponto que o espectador já acerta as reviravoltas seis minutos antes delas acontecerem em tela. O elenco é bom, funcional. O design de produção é espetacular assim como toda a área técnica. E Ridley Scott, mais uma vez, desperdiça algo que poderia ter chances de se eternizar caso fosse melhor trabalhado e não tivesse uma linguagem datada já em sua concepção.

O que lhe digo é que não vá com a menor esperança de ver outra realização cinematográfica relevante com esse tema. É cheio de falhas, mas elas não comprometem a sua diversão. Caso queira apenas assistir um longa despretensioso, pode ir sem medo, ele vai cumprir o básico com toda a certeza e te deixar satisfeito. Realmente, é sim um filme divertido, mas acho pouco para o potencial gigantesco que possuía. Aqueles que procuram algo grandioso, com uma trama densa, tensão constante e drama afiado certamente ficarão perdidos na sala de cinema durante os créditos finais.

Perdido em Marte (The Martian, EUA, 2015)
Direção:
Ridley Scott
Roteiro: Drew Goddard, Andy Weir
Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kate Mara, Jeff Daniels, Michael Peña, Chwietel Ejiofor, Donald Glover, Sean Bean
Duração: 141 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.