Crítica | Perdidos no Espaço – 1ª Temporada (2018)

  • Leiam, aqui, todo nosso material sobre Perdidos no Espaço.

A nova aposta sci-fi do Netflix é mais uma tentativa de adaptar a clássica série sessentista Perdidos no Espaço que marcou sua época e também as décadas posteriores com suas infindáveis reprises que sedimentaram profundamente no imaginário popular o conceito da obra e dois icônicos personagens, o divertidamente vilanesco Dr. Smith e o inesquecível robô sem nome que adora falar “Perigo, Will Robinson, perigo!”. Depois de tentar emplacar uma animação na década de 70, um filme na década de 90 e uma série live-action na primeira década dos anos 2000, parece que a boa e velha criação de Irwin Allen achou, finalmente, um novo lar.

Mantendo a ideia original, mas alterando substancialmente a estrutura, com uma surpreendente quantidade de ideias aparentemente retiradas do piloto fracassado de 2004, a produção mantém fortemente o conceito de uma família perdida no espaço, mas retira o lado cômico e camp sem jamais descambar para uma pegada demasiadamente sombria como na adaptação cinematográfica estrelando William Hurt e Gary Oldman. O resultado é uma espécie de thriller espacial que, manobrando espertamente os artifícios conhecidos do gênero, conta uma história única de sobrevivência em um local estranho depois que uma nave-mãe (Resolute) levando colonos da Terra para Alfa-Centauro é atacada por um robô assassino e as diversas cápsulas familiares (todas batizadas de Júpiter mais um número, sendo a Júpiter 2, claro, a mais importante) são lançadas emergencialmente, caindo ou pousando em um planeta desconhecido.

O foco central, como não poderia deixar de ser, é na família Robinson, composta pelo pai, o ex-militar John (Toby Stephens, o Capitão Flint, de Black Sails), pela mãe, a astrofísica Maureen (Molly Parker, a Jackie Sharp, de House of Cards), pela filha mais velha e estudante de medicina Judy (Taylor Russell), pela filha do meio rebelde Penny (Mina Sundwall) e pelo filho mais novo sensível e geninho Will (Maxwell Jenkins). E é mergulhando de cabeça diretamente neles, com trajes completos de astronauta e sentados em uma mesa jogando cartas em gravidade zero que a série abre, uma situação aparentemente prosaica, mas que sensacionalmente esconde um caos explosivo ao redor, com a nave deles – a Júpiter 2 – em piloto automático tentando manter alguma estabilidade de voo, pousando finalmente em região gélida de um planeta ignorado por todos.

A confusão inicialmente estabelecida é uma ótima maneira de evitar a narração linear que arriscaria arrastar o piloto e os primeiros episódios, atrapalhando a imersão. O que o roteiro inicial faz é catapultar o espectador diretamente para a ação – para a baderna, até! – sem se preocupar com absolutamente nada que não seja já aparentemente colocar a família na “situação padrão” da série original, ou seja, tendo que lidar com a hostilidade de um território estranho, mas ao mesmo tempo muito parecido com a Terra de outrora (já que a Terra desse futuro distópico está completamente irrespirável pela degradação causada pelo ser humano). O primeiro obstáculo grande que eles enfrentam é o congelamento de Judy no lago em que a nave afundara, tentando salvar células de energia para que eles sobrevivam a noite extremamente fria. E é com esse obstáculo que o roteiro organicamente nos apresenta às personalidades de cada um – Judy é destemida, Will é medroso, Penny é sarcasmo puro e John e Maureen estão longe de ser um casal ou pais ideais -, além de trazer para o grupo a versão do reboot para o clássico robô, agora em forma humanoide e extremamente fiel a Will, depois que o menino o salva, mas cuja origem misteriosa é só aos poucos descortinada.

Não demora, e os outros dois personagens da série clássica aparecem, Don West, vivido por Ignacio Serricchio e, em uma troca de gênero, a Dra. Smith, encarnada por Parker Posey. Don, no lugar de major e piloto da expedição, é um mecânico que vive a vida de golpes aqui e ali, com um senso de ética, portanto, menos do que perfeito, o que traz um bom equilíbrio à história. A Dra. Smith é mais complexa e a troca de gênero é trabalhada organicamente dentro dos roteiros, com Parker Posey vivendo uma versão espacial e sem canibalismo de Hannibal Lecter, pela falta de comparativo melhor. Se Jonathan Harris criou o personagem cômico-vilanesco e martelou-o na cultura pop e Gary Oldman deu-lhe uma boa pegada sombria no cinema, Posey cria um personagem inspirada no original, mas, mesmo assim, completamente diferente e absolutamente fascinante, cheio de camadas, trejeitos e uma presença insidiosa que literalmente contamina todo e qualquer ambiente em que está, mastigando o cenário no processo.

Mas o aspecto mais diferente na reimaginação da série está na presença de outros colonos “perdidos no espaço”, já que várias naves Júpiter conseguem pousar em diferentes níveis de segurança no planeta. Isso permite mais interações e mais conflitos – além de um breve e não intrusivo elemento romântico – na temporada, ainda que, muito sinceramente, praticamente todos os demais personagens em volta do núcleo que abordei acima, não ganhem nem de muito longe qualquer nível de desenvolvimento que efetivamente justifiquem sua existência. Na verdade, minto. Eles estão ali pois esta primeira temporada da série funciona como um longo prelúdio para o que vem por aí, permitindo que os enfoques mudem na próxima, caso a série seja renovada.

Mencionei mais acima que a série manobra espertamente os artifícios conhecidos do gênero e isso se dá porque os roteiros, por vezes, flertam com a estrutura de “perigo da semana”, com os Robinsons (sempre tem um Robinson em absolutamente tudo o que acontece nos episódios) enfrentando em grande parte as intempéries locais, como lagos congelados, tempestades gigantescas, terremotos devastadores, poços de piche fervilhando, gêiseres assassinos e, volta e meia, a não muito simpática fauna local, com resultados que vão do filler puro até situações muito bem encaixadas no enredo. O resultado disso é aquela famosa infinidade de soluções na base da gambiarra “macgyveriana”, normalmente graças à genialidade de Maureen, e salvamentos de último minuto, estes realmente chegando a irritar de tão constantemente utilizados.

No entanto, o relacionamento de Will com o robô é enternecedor, recebendo muita atenção da construção da temporada e estabelecendo pelo menos esse começo do que espero seja uma série longeva (enquanto dure) como uma daquelas histórias clássicas de amadurecimento de um menino de 11 anos com pai ausente que não sabe transmitir sentimentos e uma mãe durona ao extremo que exige o máximo de todos sempre, sem descanso. Maxwell Jenkins, aliás, é a doçura pura, com uma atuação enternecedora e tocante. Mas não achem que não há espaço para um bom trabalho com os demais personagens do núcleo duro da série. Judy é muito bem construída como uma jovem destemida que é abalada pelos eventos do primeiro episódio e tem que dar a volta por cima. Penny é uma adolescente tentando se achar e servindo como a verdadeira cola na família, às vezes mais adulta do que seus pais. E, finalmente, a relação complicada entre John e Maureen vai aos poucos sendo trabalhada (há uma boa quantidade de flashbacks curtos ao longo da temporada), com os dois começando bem separados e, como todo o clichê de série manda, aos poucos se aproximando. Stephens e Parker, interessantemente, acostumaram-se a viver personagens durões e frios que escondem corações de ouro e eles fazem valer sua experiência aqui, criando um casal crível.

Mas a coesão desse universo só é mesmo possível com um design de produção esperto que faz o melhor para nos passar a impressão de variedade de cenários sem realmente variar quase nada. As tomadas interiores são compostas dos mesmo cenários vistos de ângulos diferentes e alterados aqui e ali para dar personalidade às naves Júpiter que, por sua vez, não se diferenciam muito – só em escala – do interior da nave-mãe Resolute. Mas o que interessa é que o comando de Matt Sazama e Burk Sharpless, que desenvolveram a série, imprimem uma variedade ao trabalharem situações bem diferentes e exteriores também extremamente variados que vão desde neve e frio até o deserto incandescente, passando por florestas tropicais e florestas densas. A combinação de tudo com um CGI cirúrgico e bem feito, além de um robô humanoide que reúne próteses de corpo inteiro e computação gráfica, mantém a temporada sempre fresca, evitando que o espectador se canse muito facilmente.

Aliás, a canseira é algo que pode acontecer, mesmo considerando que são apenas 10 episódios. Afinal, no lugar da duração normal de 40 e poucos minutos, a maioria dos episódios tem quase ou ligeiramente mais de um hora. Isso acaba estendendo algumas sequências de perigo por mais tempo do que elas realmente precisariam, como, por exemplo, o infindável confinamento de John e Maureen no piche, além de abrir as portas para elipses temporais que exigem demais da suspensão da descrença. Nesse ponto, a montagem consegue atrapalhar, especialmente quando há um “prazo” envolvido, com horas dando a impressão de dias ou minutos sem uma lógica interna, além de alguns “teletransportes” convenientes demais que poderiam ser evitados.

Mas, depois de tanto tempo perdida em Hollywood, a nostálgica série de Irwin Allen parece ter encontrado um reboot à altura de seu potencial. Ao fazer muita coisa diferente, mas sem perder seu espírito original, a nova Perdidos no Espaço parece mostrar que conceito bom é imortal, bastando que ele seja bem trabalhado.

Obs: Billy Mumy, o Will Robinson original, faz uma ponta no primeiro episódio. Não direi em que papel, mas ele está lá, eu garanto!

Perdidos no Espaço – 1ª Temporada (Lost in Space – Season 1, EUA – 13 de abril de 2018)
Desenvolvimento:  Matt Sazama, Burk Sharpless (com base em criação de Irwin Allen)
Direção: Neil Marshall, Tim Southam, Alice Troughton, Deborah Chow, Vincenzo Natali, Stephen Surjik, David Nutter
Roteiro: Matt Sazama, Burk Sharpless, Zack Estrin, Katherine Collins, Kari Drake, Ed McCardie, Vivian Lee, Daniel McLellan
Elenco: Toby Stephens, Molly Parker, Ignacio Serricchio, Taylor Russell, Maxwell Jenkins, Parker Posey, Mina Sundwall
Duração: 47-65 min. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.