Crítica | Perdidos no Espaço – A Série Completa (1965-1968)

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É fascinante voltar no tempo e lembrar de momentos tão marcantes na história literária mundial que é como perceber o nascimento de um movimento, de um caminho, de uma linha narrativa, de um clichê. Se o tema do “náufrago” em largas pinceladas está presente de maneira mais forte pelo menos desde Odisseia, de Homero, foi no começo do século XIX, mais precisamente em 1719, que o arquétipo moderno mais conhecido dessa figura, normalmente perdida em uma ilha falsamente paradisíaca, realmente surgiu com Robinson Crusoé, do britânico Daniel Defoe. Sem muito esforço, lembraremos de obras bem recentes que bebem, de uma forma ou de outra, dessa fonte, como O Náufrago, Até o Fim ou Lost.

Indo um pouco mais atrás, encontraremos adaptações diretas do clássico literário por nomes como Luis Buñuel e até mesmo uma versão espacial – Robinson Crusoé em Marte – que, de certa forma, pode ser interpretado como a inspiração mais direta para Perdidos no Espaço. Mas, claro, é fato notório que a famosa série televisiva sci-fi sessentista sorveu seu conceito mais diretamente da também famosa obra Robinson Suíço, clássico de 1812 de Johann David Wyss, mas que fora modelado em cima de Robinson Crusoé. Houve até mesmo uma adaptação em quadrinhos de Robinson Suíço pela Gold Key Comics, publicada pela primeira vez em 1962, que levava a família Robinson para o espaço, mas Irwin Allen, criador de Perdidos no Espaço, sempre jurou de pés juntos sua ignorância das HQs ou do tratamento da versão cinematográfica delas que circulava por Hollywood em 1964 e que jamais recebeu luz verde. O que se percebe muito claramente, é como as diversas fontes acabam voltando ao material original de tanto tempo atrás, reiterando aquele ditado que diz que “na arte nada se cria, tudo se copia”.

Irwin Allen que se tornaria um gigante da produção televisiva ao longo dos 60, especializando-se, nos anos 70, em filmes-catástrofe (O Destino do Poseidon e Inferno na Torre entre eles) queria alcançar, com Perdidos no Espaço, o mesmo sucesso de seu Viagem ao Fundo do Mar, de 1964 e que continuaria no ar até 1968. Mesmo que a série sci-fi tenha tido vida mais curta – apenas três temporadas (e 83 episódios!) – sua longevidade no imaginário popular é inegável em razão de suas incontáveis reprises nas décadas seguintes.

Seguem, abaixo, as avaliações separadas de cada temporada.

1ª Temporada
(29 episódios, de 15 de setembro de 1965 a 27 de abril de 1966)

Depois de convencer a Fox e a CBS da viabilidade de uma série espacial na televisão (estamos falando de uma época em que Star Trek ainda não existia) por meio de No Place to Hide, piloto que jamais foi exibido oficialmente, Allen recebeu a luz verde para a produção, mas com a missão de inserir diversas modificações nas suas ideias originais. Em sua concepção, a família Robinson, composta dos pais Dr. John Robinson (Guy Williams) e Dra. Maureen Robinson (June Lockhart) e dos filhos Judy Robinson (Marta Kristen), Penny Robinson (Angela Cartwright) e Will Robinson (Billy Mumy), acompanhada do Major Don West (Mark Goddard), o piloto, são o resultado de uma seleção entre milhões de candidatos para inaugurar a missão de colonizar um planeta em Alfa-Centauro. Em razão de uma chuva de meteoros, a nave acaba sendo desviada do curso e acaba em um planeta desconhecido, que passa a ser desbravado por eles.

Mantendo esse conceito, mas seguindo os conselhos da produtora e do canal de TV, Allen inseriu dois personagens que seriam chave para o sucesso da série: o traiçoeiro Dr. Zachary Smith, vivido pelo saudoso Jonathan Harris e o robô sem nome (ele não se chama Robby, mas foi baseado em Robby, de Planeta Proibido, inclusive sendo criado pelo designer original do robô do filme de 1956, Robert Kinoshita) que acaba sendo adotado pelo jovem Will. Com isso, a chuva de meteoros acaba sendo o resultado da sabotagem original do Dr. Smith que, na verdade, é um espião de uma nação inimiga (obviamente a União Soviética, em razão da Guerra Fria, mas que fica sem nome na série). Sem querer, ele acaba não conseguindo sair antes da decolagem e acaba preso na Júpiter 2, com seu peso a mais atrapalhando a missão e danificando a nave, o que o obriga a retirar o piloto das câmaras de estase, mas não sem antes também sabotar o robô para ele ficar inicialmente de seu lado.

Estruturalmente, como era comum na época, os episódios lidam com “ameaças da semana” que ou são frutos diretos de planos maquiavélicos do Dr. Smith ou que são agravadas pelas maquinações traiçoeiras dele. No começo, ao longo dos quatro ou cinco primeiros episódios – curiosamente construídos a partir de “pedaços” do piloto não exibido – percebe-se uma continuidade narrativa que parece apontar para uma história contínua, mas, uma vez que todos estão “devidamente” instalados no planeta, a verdadeira natureza da série fica evidente. A fotografia em preto e branco, escolha para baratear a produção, é de alto contraste, o que levou a equipe de design de produção a usar trajes prateados de astronautas (que inevitavelmente lembram os figurinos dos kryptonianos no prelúdio de Superman – O Filme) e trajes mais escurecidos quando a ação fica restrita ao planeta (que seria depois identificado como Priplanus).

O maior problema da temporada – e que também era algo comum na época – é seu tamanho. São 29 episódios com duração não inferior a 50 minutos cada. Infelizmente, quase nenhum roteiro consegue manter a estrutura narrativa intacta e útil ao longo dessa duração toda, com diversas sequências sendo estendidas ao máximo, criando a impressão (que não é só impressão) que as histórias poderiam muito bem ser contadas em não mais do que metade do tempo. Além disso, há uma infindável repetição no tipo de ameaça, com roteiros que se retroalimentam, dando a impressão de que estamos vendo praticamente a mesma coisa, mas com criaturas diferentes.

Curiosamente, a pegada dessa primeira temporada é mais séria e até pesada, com o Dr. Smith decididamente disposto a matar quem quer que seja para conseguir voltar para a Terra. Digo que é algo curioso, pois é muito mais comum lembrarmos de Perdidos no Espaço como uma série leve e cômica do que como algo sombrio. Havia, sem dúvida alguma, uma atmosfera mais tensa na mente de Irwin Allen ao criar a obra, algo que foi gradativamente sendo quebrado pelas presenças de Jonathan Harris como o vilão que passamos a amar e, lógico, do robô sem nome que notabilizou-se por seu “Aviso! Aviso! Perigo! Perigo! Perigo!”.

2ª Temporada
(30 episódios, de 14 de setembro de 1966 a 26 de abril de 1967) 

Ao final de Follow the Leader (A Voz do Espírito), último episódio da 1ª temporada, a série ganhou duas novidades: a Júpiter 2 é finalmente consertada e as cenas finais, com o cliffhanger, foram transmitidas a cores, prenunciando a chegada da 2ª temporada 100% colorida e com uma mudança estrutural grande. Quando Blast Off Into Space (Fuga Desesperada) começa, a nave já está no espaço para escapar da destruição de Priplanus.

No entanto, para decepção de muitos, já no quarto episódio – Forbidden World (O Mundo Proibido) – o grupo acaba caindo em outro planeta desconhecido e a novidade logo se esvai, com a volta da estrutura quase idêntica da temporada inaugural, inclusive com a repetição de diversas situações, como o estabelecimento do acampamento, a pesquisa dos arredores e assim por diante. O que realmente muda e finalmente estabelece o tom pelo qual a série passaria a ser conhecida, é o enfoque cômico que a série passa a ter, abraçando de vez a personalidade covarde do Dr. Smith como motor da série e estabelecendo uma ligação intensa entre Will e o robô. Diria que essa pegada abraça o que a série deveria ter sido desde seu começo e combina perfeitamente com a chegada das cores que, convenhamos, a produção exagerou nos tons fortes e nas cores vivas demais, com predominância do rosa, amarelo e verde, destoando completa, mas hilariamente do concepção “espacial” da obra.

Outra coisa que muda – ou melhor, se intensifica – é o uso de criaturas variadas. Não sei se, com a chegada de Star Trek na televisão, em 1966, criou alguma espécie de competição pelas maiores bizarrices da telinha, mas é o que parece, pois as porteiras da criatividade foram abertas com um circo espacial, androides serviçais, um gladiador, um ladrão árabe(?!?!?!?!?) e até um pistoleiro vilanesco que é doppelganger de Smith, em um episódio que interessantemente antecede a primeira aparição do Universo Espelho de Star Trek. Esse alienígenas estranhos fazem o melhor uso das cores recém-adquiridas da série e reforçam outra característica original: o “monstro da semana”. Afinal ainda que alguns poucos episódios carreguem determinadas linhas narrativas de um para o outro, a grande maioria dos agora 30 que formaram a segunda temporada continua auto-contida, com historietas simples com começo, meio e fim dentro do tempo padrão de 50 minutos.

Falando na duração da temporada e dos episódios, o problema continua, mesmo com os roteiros abraçando a comicidade. Simplesmente não há história suficiente para aproveitar a duração regulamentar e muitas sequências não são muito mais do que longas tomadas do veículo dos Robinson em movimento indo do ponto A ao ponto B ou repetições infindáveis de situações ou diálogos. Por outro lado, percebe-se uma fluidez maior, talvez facilitado pelo ar mais fortemente familiar que a série passa a ter, com a família Robinson, o agregado Don (o eterno interesse amoroso de Judy, a filha mais velha) e o traiçoeiro Smith funcionando de maneira mais uniforme, com especial destaque para a trinca que passaria de vez a ser a principal da série, com praticamente todas as histórias envolvendo-os diretamente: Smith, Will e o robô.

3ª Temporada
(24 episódios, de 06 de setembro de 1967 a 06 de março de 1968

A icônica música tema da série, originalmente composta por ninguém menos do que John Williams (assinando como Johnny Williams) é a primeira alteração que se percebe na 3ª temporada, que também ganha uma abertura nova, substituindo a inesquecível versão animada por uma live-action pouco inspirada. No entanto, é o mesmo compositor que cria a nova música e ele, claro, faz o que notabilizou-se em fazer: construir maravilhosamente bem em cima de suas próprias criações. O resultado é uma nova música tema que não perde a identidade da original, mas que acrescenta complexidade sonora, transformando-a na versão que, muito provavelmente, é, ainda, a mais lembrada por todos que já viram a série.

Mas as alterações na última temporada de Perdidos no Espaço foram além da música e da abertura. A estrutura narrativa que Irwin Allen chegou a usar no começo da temporada anterior ganha força novamente, com a família Robinson e agregados tendo que fugir do segundo planeta em razão de um cometa que está chegando para destruí-lo. Convenientemente, a Júpiter 2 é consertada com o aperto de alguns botões e, não demora, e o elenco está viajando pelo espaço mais uma vez, com os episódios, agora, lidando com ameaças variadas por lá e não mais preso à superfície de determinado planeta.

O tom camp cômico continua, mas alguns roteiros começam a flertar com conceitos mais sofisticados, notadamente a viagem no tempo em que os Robinsons e Smith encontram seus descendentes ou universos paralelos com o Professor Robinson encontrando sua “versão do mal” (aí sim copiando sem dó o conceito do Universo Espelho de Star Trek) e até mesmo uma volta à Terra em 1997, cortesia de ninguém menos do que Cronos (não o Titã, mas sim um alienígena que controla o tempo). Vê-se mais claramente que a manutenção da temporada toda no espaço retirou as rédeas narrativas que forçavam muita repetição, ainda que, mais uma vez, o problema-chave continue: a duração excessiva de cada episódio, que muito claramente poderia ser cortada pela metade.

Lá pela altura da produção do 24º episódio, o elenco recebeu a informação informal de que a série seria renovada para uma 4ª temporada, havendo inclusive novos roteiros prontos que, porém, jamais veriam a luz do dia na série, que foi encerrada ali mesmo, antes do tempo. Perdidos no Espaço acabou com seus personagens, ironicamente, perdidos no espaço e, pior ainda, literalmente em cima de um gigantesco ferro velho. Oh dor! Oh dor!

Perdidos no Espaço – A Série Completa (Lost in Space – The Complete Series, EUA – 1965 a 1968)
Contendo: Perdidos no Espaço – 1ª a 3ª Temporadas
Criação: Irwin Allen
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco principal: Guy Williams, June Lockhart, Mark Goddard, Marta Kristen, Billy Mummy, Angela Cartwright, Jonathan Harris, Dick Tufeld
Duração: 50-51 min. por episódio (83 episódios no total das três temporadas)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.