Crítica | Perfeita é a Mãe!

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estrelas 3

Vivemos em uma época na qual o protagonismo feminino ao longo dos gêneros tem se tornado uma tendência necessária e que normalmente gera bons resultados. Vide o polêmico novo Caça-Fantasmas que trouxe um grupo de atrizes fantásticas para reacender a franquia de Ivan Reitman, a Rey de Star Wars: O Despertar da Força e até o vindouro filme da Mulher Maravilha que promete marcar a safra de filmes de super-heróis. Agora, temos aqui uma comédia para 18 anos que coloca um grupo de mães literalmente chutando o balde com Perfeita é a Mãe!

Na trama, conhecemos a personagem de Amy Mitchell (Mila Kunis): mãe de dois filhos e um marido preguiçoso a qual ela considera “o terceiro filho”, ela luta para conseguir manter suas responsabilidades com as crianças, reuniões com a associação da escola, o estressante emprego ingrato, o cachorro com vertigem e por aí vai. Quando o famoso dia ruim onde tudo dá errado enfim chega, Amy chuta o balde e se une às amigas Kiki (Kristen Bell) e Carla (Kathryn Hahn) para abraçarem merecidas férias e caírem na esbórnia, o que atrai a atenção da rígida diretora do PTA da escola, vivida por Christina Applegate.

Já havíamos tido uma amostra bem eficiente com o girl power para maiores em Missão Madrinha de Casamento, do especialista no assunto Paul Feig, mas é a primeira vez que Jon Lucas e Scott Moore exploram esse viés. Roteiristas do Se Beber, Não Case! original e dos irregulares Finalmente 18 e Eu Queria ter a sua Vida, a dupla tem mostrado dificuldades para replicar o sucesso estrondoso do filme de 2009 (vale lembrar que eles não têm participação nas fracas sequências) e assume aqui também a direção do projeto, que definitivamente é a melhor tentativa de sucesso até agora.

Novamente, a dupla trabalha com estereótipos bem definidos e básicos dentro do grupo de humor: temos a idealista que incita os incidentes (Amy), a certinha (Kiki) e a porra louca (Carla), que desempenham os típicos papéis que esperamos dessas convenções de roteiro. Funciona graças ao ótimo desempenho e química das atrizes, seja em diálogos que fazem valer a censura R ou a hilária cena na qual Cara usa um moletom para uma comparação memorável com um certo órgão masculino. Só fico decepcionado que mais uma vez Kristen Bell não tenha seu potencial explorado ao extremo, como a personalidade que penda para o weird que Kiki demonstra aqui e ali.

Os problemas de Perfeita É a Mãe surgem com alguns buracos de roteiro notáveis e a direção descontrolada de Moore e Lucas. Por exemplo, é de se questionar onde estariam os filhos de Amy quando ela promove uma gigantesca e barulhenta festa, um erro que ocorre diversas vezes quando a dupla inventa que as crianças precisam desaparecer da trama. E para quem bolou uma das mais imprevisíveis comédias dos anos 2000, é de se espantar com a previsibilidade da história e da conclusão dos muitos arcos das coadjuvantes; basta uma cena com Kiki e seu marido mandão para sabermos que, em algum ponto, a catarse de superação da personagem triunfará.

No quesito direção, a dupla piora. Além de optarem por uma fotografia de Jim Denault estranhamente composta de luz soft, o que provoca feixes embaçados que sugerem uma áurea de sonho (pense no trabalho de Janusz Kaminski nos filmes de Spielberg), Moore e Lucas revelam-se completamente imaturos e sem um timing certeiro. Apostam demasiado tempo a sequências em câmera lenta, montagens infinitas de festas e muita, mas muita música pop que não deixa nenhuma cena respirar, quase que tentasse manter o espectador acordado. Vale lembrar que, mesmo sendo uma comédia, não quer dizer que a direção não tenha que ser caprichada. Afinal, mesmo as fraquíssimas continuações de Se Beber, Não Case são beneficiadas por uma condução elegante de Todd Phillips, que definitivamente lidaria melhor com esse material.

Perfeita é a Mãe! é capaz de divertir pontualmente graças ao talento de seu trio protagonista, assim como as tentativas de quebrar clichês e conveniências impostas ao sexo feminino dentro do gênero. Só faltou uma direção melhor e um roteiro não muito previsível.

Obs: Curiosamente como em Se Beber, Não Case, o melhor momento do filme encontra-se nos créditos finais. Se na saga de Las Vegas eram as infames fotos da noitada, aqui temos depoimentos verdadeiramente tocantes onde as atrizes principais conversam com suas próprias mães. Imperdível.

Perfeita é a Mãe (Bad Moms, EUA – 2016)
Direção: Jon Lucas e Scott Moore
Roteiro: Jon Lucas e Scott Moore
Elenco: Mila Kunis, Christina Applegate, Kristen Bell, Kathryn Hahn, Jada Pinkett Smith, Jay Hernandez
Duração: 101 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.