Crítica | Péricles, Príncipe de Tiro

estrelas 3

Em seu último período criativo, William Shakespeare retira o peso das grandes tragédias e opta por dar um tom mais leve às suas obras, centrando em temas como romance, melancolia e reencontro. Péricles, Príncipe de Tiro configura como um dos mais memoráveis frutos deste período. Ainda que teorias questionem a atribuição dos direitos autorais completos da peça a Shakespeare, é incontestável que o autor foi responsável, ao menos, pela segunda metade da obra.

A história começa quando o rei Antiochus, de Antioch oferece a mão de sua filha em casamento àquele que conseguir decifrar uma charada por ele proposta, sob a condição de matar aquele que a responder incorretamente. Decifrando o enigma, Péricles, então príncipe de Tiro, descobre que o rei mantinha uma relação incestuosa com sua filha. Péricles percebe que morreria de qualquer forma, caso respondesse corretamente ou não. Pede, portanto, a Antiochus mais tempo para refletir antes de dar sua resposta final.

Começa aí a jornada de Péricles que indo de um lugar para o outro a fim de recuperar a segurança de seu reino, acaba conhecendo Thaisa, com quem se casa e tem uma filha. Após uma série de episódios ocorridos, de Péricles é tirado o convívio com as duas durante anos. O reencontro da família só acontece no desfecho da história e é considerado um dos mais belos momentos de toda a peça.

A adaptação presente na coletânea de filmes de TV produzidos pela BBC de 1978 a 1985, traz uma versão fiel à peça autoral. Assim, Péricles, Príncipe de Tiro (1984) preserva a poética presente nos diálogos originais, o que emana em quem o assiste a sensação de ser espectador dentro do teatro. Por outro lado, a dinâmica televisiva se vê presente em cenas de mais movimento, a exemplo da tempestade em alto mar durante a partida de Péricles e Thaisa, sua esposa, em direção a Tiro.

O elenco de bons atores tornam a trama interessante, mas seria tolice não dizer que a ausência predominante, para não dizer completa, de locações externas comprometem a narrativa de um produto cuja proposta é ser adaptado à linguagem televisiva. O resultado final não decepciona, e consegue ser tocante mantendo a leveza presente ao longo de toda a história.

Péricles, Príncipe de Tiro representa as relações humanas em suas formas mais básicas. Os personagens não são complexos e transmitem exatamente o esperado em relação ao papel que desempenham na trama. O filme trata de amor, vingança, inveja e reconciliação, mas o elemento de destaque que permeia a história desde seu início é sem dúvida a fé. 

Péricles, Príncipe de Tiro (Pericle, Prince of Tyre) – UK, 1984
Direção: David Jones
Roteiro: Willian Shakespeare
Elenco: Edward Petherbridge, John Woodvine, Edita Brychta, Mike Gwilym, Patrick Godfrey, Norman Rodway, Annette Crosbie, Patrick Allen and Juliet Stevenson.
Duração: 178 min.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.