Crítica | Perigo Real e Imediato

estrelas 3,5

Quando fiz a crítica de Jogos Patrióticos, o segundo filme com o personagem Jack Ryan, criado pelo romancista americano Tom Clancy, reclamei que um dos problemas do roteiro foi emburrecer conceitos e explicações, retirando a inteligência das análises e conclusões do protagonista. Talvez os produtores tenham chegado a essa conclusão também quando do lançamento do segundo filme, pois Perigo Real e Imediato, o terceiro da franquia, é consideravelmente mais inteligente e sofisticado do que Jogos Patrióticos.

Mas isso não quer dizer que, automaticamente, a terceira aventura de Jack Ryan no cinema seja muito boa, claro.

Phillip Noyce volta para dirigir essa nova aventura, assim como Harrison Ford, Anne Archer e James Earl Jones voltam em seus respectivos papeis de Jack Ryan, Cathy Ryan e Almirante Jim Greer. Mas Jones faz apenas uma ponta melancólica, pois seu personagem logo é diagnosticado com câncer, o que faz com que Ryan seja alçado ao posto de diretor interino da CIA, arrebanhando mais responsabilidade e, claro, mais dores de cabeça.

O roteiro, escrito a seis mãos por Donald Stewart (co-autor também dos outros dois roteiros), Steven Zaillian e, surpreendentemente, por John Millius (Magnum 44Apocalypse Now e Conan, o Bárbaro) não perde tempo em criar o estopim para a narrativa: um iate na costa dos Estados Unidos é abordado pela Guarda Costeira que descobre que seu dono, assim como toda a família, fora chacinada. Como eles eram todos amigos do presidente americano (Presidente Bennett, vivido por Donald Moffat), a investigação começa no mais alto escalão e Ryan é envolvido, logo deduzindo que os mortos tinham envolvimento com o cartel de drogas Colombiano, tendo sido assassinados por vingança.

Essa teoria de Ryan é levada a ferro e a fogo pelo presidente que ordena – mas sem ordenar efetivamente – uma operação secreta contra os fabricantes de drogas na Colômbia. A operação é iniciada por James Cutter (Harris Yulin), conselheiro da Agência de Segurança Nacional e por Robert Ritter (Henry Czerny – nenhuma relação com o crítico que assina esses comentários!) debaixo do nariz de Jack Ryan e utilizando os serviços de John Clark (Willem Dafoe), um militar americano radicado na Colômbia.

Enquanto a black ops acontece, Ryan, completamente ignorante do que está acontecendo, tenta, do seu jeito e dentro das regras, reduzir o problema de drogas no país latino-americano, somente para sofrer um atentado em Bogotá. A trama tem camadas e camadas de politicagem pesada envolvendo o presidente, a NSA e a CIA, além de um mergulho bastante interessante na estrutura do tráfico quando a narrativa aborda o chefão das drogas Ernesto Escobedo (Miguel Sandoval) – qualquer semelhança com Pablo Escobar não é mera coincidência – e sua relação com o coronel cubano Felix Cortez (Joaquim de Almeida), que funciona como o estrategista da operação.

O equilíbrio entre ação e análise, além de traições e estratagemas é muito melhor aqui do que em Jogos Patrióticos. Pode ser uma obra de ficção, mas Tom Clancy tem o domínio dessa matéria e sua abordagem técnica, mas acessível que faz no livro é transposta de maneira muito eficiente para a telona.

No entanto, com 141 minutos, o roteiro sofre inevitáveis desacelerações. A trama paralela envolvendo a doença do Almirante Greer humaniza tremendamente Jack Ryan e impulsiona algumas decisões que ele toma, mas, ao mesmo tempo, esses momentos funcionam como um freio indesejado para a fluidez da narrativa. Além disso, há um “vai e volta” de e para a Colômbia que, se não confunde o espectador, acaba protraindo a ação final por muito tempo.

Harrison Ford continua esbanjando charme em sua encarnação de Jack Ryan e Anne Archer, apesar de uma participação muito tímida nessa continuação, continua bela e eficiente no papel que se propõe. O mesmo vale para James Earl Jones que, mesmo quase não aparecendo, dá peso às suas cenas. Quem acaba não funcionando é Henry Czerny no papel do concorrente de Ryan na CIA e mentor da operação clandestina. Ele é muito obviamente um “vilão”, daqueles que, mesmo sem falar uma palavra, na primeira cena em que aparece só falta uma seta vermelha em cima de sua cabeça com “Ele é o vilão!” escrito.

E Willem Dafoe, apesar de ser um bom ator e de ter tido uma atuação magistral em Platoon, de 1986, faz um militar histriônico demais, cheio de caras e bocas, que acaba distraindo e, às vezes, gerando risos inadvertidos. De toda forma, sua atuação não prejudica de verdade o filme, pois ela, apesar de essencial, não é constante.

Ao aumentar a complexidade da trama, os roteiristas acertaram em cheio e criaram uma narrativa digna do icônico personagem de Tom Clancy. Noyce, no entanto, acaba não sabendo aproveitar completamente a inteligência do material fonte e cria uma fita irregular, com muitos altos e baixos, exigindo uma certa paciência do espectador.

Perigo Real e Imediato (Clear and Present Danger, EUA – 1994)
Direção: Phillip Noyce
Roteiro: Donald Stewart, Steven Zaillian, John Milius (baseado em romance de Tom Clancy)
Elenco: Harrison Ford, Willem Dafoe, Anne Archer, Joaquim de Almeida, Henry Czerny, Harris Yulin, Donald Moffat, Miguel Sandoval, Benjamin Bratt, Raymond Cruz, Dean Jones, Thora Birch, James Earl Jones
Duração: 141 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.