Crítica | Perseguição – A Estrada da Morte

estrelas 3,5

É noite. Você dirige seu carro numa autoestrada. De repente, uma voz masculina familiar, porém não associada a nenhum rosto específico, chama você por um radioamador de modo agressivo, exigindo uma satisfação inesperada. Você ameaça desligar o rádio quando, para o seu horror, a voz menciona um detalhe particular do seu veículo e é aí que você compreende que está sendo seguido. Você olha para trás, mas só vê muitos carros e caminhões. Para piorar ainda mais a situação, descobre que a sua gasolina está por um fio e, aparentemente, não há nenhum posto perto o bastante. O que você faz?

Em Perseguição – A Estrada da Morte, somos estimulados a fazermos essa pergunta a nós mesmos se nos deparássemos com a situação enfrentada pelos irmãos Lewis e Fuller Thomas (Paul Walker e Steve Zahn, respectivamente). Tudo começa quando o caçula, Lewis, aproveitando as férias de verão para partir com um carro velho da cidade de Berkeley rumo ao estado do Colorado para encontrar Venna (Leelee Sobieski), sua amiga e possível pretendente a namoro. No caminho, fica sabendo por sua mãe que o irmão, logo rotulado como o “ovelha negra”, foi preso por mau comportamento e faz um desvio para pagar a fiança deste. Os dois seguem viagem e Fuller, cumprindo a função de malandro, compra um radioamador para eles ouvirem as conversas da polícia e de motoristas conectados à essa rede. O “ovelha negra” então convence Lewis a passarem um trote num motorista particularmente misterioso, um caminhoneiro conhecido apenas como Parafuso (Rusty Nail, no original). Só que a brincadeira, para variar, não sai como o esperado e a dupla logo descobre que a vítima do trote quer a desforra.

Com J. J. Abrams como um dos roteiristas e produtores, Perseguição é um thriller acima da média. Na maior parte do tempo, quando não sustenta o clima de tensão, o longa só não o faz para brincar com as expectativas do espectador (por um momento passando a esperança de que os protagonistas talvez se livrem da tal perseguição) ou para introduzir ou desenvolver certos personagens e a relação entre eles – o caso dos irmãos que o diga. É curioso, porém, como esse cuidado na construção de identidades e sentimentos é esquecido proporcionalmente ao fechar de cerco do inimigo. A moral dos garotos deixa de ser questionada, inclusive pelo próprio Lewis, para ser tão somente sentenciada por um terceiro (o termo “ovelha negra” tampouco escapa à boca do vilão, ainda que, sagazmente, num contexto menos direto) ou pelo mero rumo dos acontecimentos. Ainda assim, é fácil passarmos a nos importar de fato com o destino das peças centrais da trama, ao contrário da recorrente pobreza nada estimulante na afirmação dos personagens em filmes de “gato e rato” com pouca pretensão.

A trilha sonora de Marco Beltrami confere grande majestade às aparições do caminhão perseguidor e contribui muito com os momentos de tensão e suspense, sabendo quando ser discreta ou intensa na aplicação de sua composição. Constata-se, também, o referencial do diretor John Dahl (Cartas na Mesa e Morte por Encomenda) em clássicos como Encurralado – telefilme da década de 70 de Steven Spielberg, com enredo semelhante, que abriu as portas da fama para o diretor – Psicose (salvo as imagens de motel) e Janela Indiscreta, obra referenciada na sequência do assassinato no quarto ao lado do ocupado pelos irmãos. Com essa gama, não é à toa que Perseguição tenha se tornado tão popular entre os primeiros jovens do novo milênio.

Outro ponto a se destacar é a captura de áudio do trânsito rodoviário, cuidado que, em especial quando revelada a existência de uma ameaça oculta no turbilhão de veículos, gera um efeito dialético impressionante. Valorize-se, ainda, o carisma de Walker e a presença de câmera de Zahn, totalmente à vontade com seu personagem descolado.

Releve-se, apesar de tudo, que não se trata de um filme com reviravoltas, com técnica ou com pretensões mirabolantes – sem falar do final, que, apesar de seu charme familiar, não valoriza toda a interiorização investida nos protagonistas – mas que sabe entreter, resgatando a fórmula básica de um bom thriller.

Perseguição – A Estrada da Morte (Joy Ride, EUA – 2001)
Direção: John Dahl
Roteiro: J.J. Abrams, Clay Tarver
Elenco: Paul Walker, Steve Zahn, Leelee Sobieski, Ted Levine, Jessica Bowman, Matthew Kimbrough, Stuart Stone, Brian Leckner, Jim Beaver, Hugh Dane, Jay Hernandez
Duração: 97 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.