Crítica | Persépolis

estrelas 5,0

É no Oriente Médio que acontece uma das guerras mais duradouras e complexas de toda a nossa história, esse conflito que é politico, extremista e religioso já foi muito estudado e debatido durante esses longos anos. Incontáveis livros já foram escritos a respeito dele e é sobre mais um, dessa enorme lista, que se trata essa critica. Persépolis é um livro em quadrinhos escrito por Marjane Satrapi, que narra esses conflitos, não pela visão dos extremistas, ou dos grandes lideres, mas pelos olhos de uma criança. E existe melhor forma de explicar esse difícil assunto, do que no olhar de uma menina?

persepilis-capaLogo nas primeiras páginas, Marjane dá uma breve explicação de toda a história de seu país, o Irã. Nesses textos ela explica o começo de toda a guerra (que não me arriscarei em resumir aqui). Explicado o passado, a autora parte para seu foco: mostrar o cotidiano de pessoas que estão no meio de uma guerra.

A narrativa de Persépolis se divide em capítulos, cada um com o nome do principal elemento ou assunto tratado durante as páginas. Neles vemos como é difícil a vida de quem nasceu em um país com tantas limitações. Logo no começo, Marjane já faz questão de nos mostrar a posição dela, e de sua família para assuntos como o véu e a independência feminina em seu pais.

Esse assunto, já é o bastante para criar uma enorme narrativa, cheia de discussões e camadas, mas Satrapi não se contenta e abordar apenas uma temática. Conforme ela cresce, sua percepção de mundo e sua narrativa vai melhorando, se distribuindo em diversos assuntos. Quando o leitor começa a se cansar da realidade da menina no Irã, ela se muda para a Europa, levando junto com ela milhares de conceitos e culturas totalmente diferentes dos povos Europeus.

Apesar de parecer um quadrinho muito pesado, Marjane acha um trunfo para facilitar toda a leitura de seu público. Como estamos lendo uma HQ autobiográfica, acompanhamos todos os complicados acontecimentos pela ótica de uma criança, que vê tudo de forma mais simples. Conforme a protagonista cresce, o receptor já esta inserido nessa realidade, então ele está preparado para receber uma carga maior de informação.

Se o roteiro é simples, a arte não podia deixar de rimar com as letras, Marjane usa apenas do preto e branco em toda a sua história. Uma excelente escolha da artista, as duas cores dão um peso muito maior a toda a sua trama, provocando momentos realmente assustadores, onde vemos corpos e o verdadeiro resultado de qualquer guerra.

Os traços parecem até simples demais no começo da leitura, mas conforme o leitor se aprofunda na narrativa, ele percebe o quão importante eles são para o desenvolvimento de Marjane como protagonista. A autora não arrisca muito nos painéis, a narrativa é sim muito bem feita, sem erros de continuidade e muito bem entendível.

Acredito que Satrapi escreveu e desenhou o quadrinho com o objetivo de levar crianças a se interessarem por esse conflito e, apesar de ser grande em seu número de páginas, seu formato em capítulos curtos ajuda muito para prender o interesse dos pequeninos. Vale ler o quadrinho de novo, um pouco a cada dia. A obra tem uma história tão completa, e intensa, que ficaria muito difícil de resumi-la aqui. A melhor indicação que tenho para fazer é que você o leia. Apesar de ser uma HQ com mais de 300 páginas, sua leitura é muito fácil, e aposto que o receptor irá se deliciar com as aventuras de Marjane.

Persépolis é grande não apenas em sua narrativa, ele é enorme em sua representatividade. Tratando de feminismo, extremismo politico e religioso, e tendo a coragem de escrever tudo de forma clara e em preto e branco, definitivamente. Marjane Satrapi, escreveu tudo o que ela viveu, para que outros não precisem passar por tudo aquilo novamente. Que mais autores possam fazer coisas como Persépolis, usando de algo feito pelo ódio para passar uma mensagem de tolerância.

Persépolis — França, 2000
Roteiro: Marjane Satrapi
Arte: Marjane Satrapi
Cores: Marjane Satrapi
Letras: Marjane Strapi
Editora original: L’Association
Editora no Brasil: Cia das Letras.
Páginas: 352 páginas.
PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".