Crítica | Pets: A Vida Secreta dos Bichos

estrelas 3

Após o recente sucesso de Divertida Mente, que, mesmo vendido como um produto infanto-juvenil, ofertou conteúdo de sobra às múltiplas idades, permanece o senso comum, muito instigado pela cultura norte-americana, de que animações devem ser mais levadas a sério por crianças do que por adultos – ainda que não se dispense uma animação como programa em família ou, tão somente, para gargalhar com piadas de personagens fofinhos.

Felizmente, claro, o combate a tal senso comum se fortalece a cada animação capaz de comover, genuinamente, um público plural, proporcionando emoção e reflexão em múltiplas camadas de compreensão, do espectador mais jovem ao mais velho. Pets: A Vida Secreta dos Bichos, porém, desperdiça essa oportunidade, configurando-se, no máximo, como um mero passatempo.

Na trama, Max (voz de Louis C.K) é um típico cachorro doméstico, que reside em um apartamento em Manhattan. O animal vive muito feliz ao lado da dona, até que ela trás um cão que antes morava na rua, Duke (voz de Eric Stonestreet), para dividir o lar com eles, e Max passa a temer pelo monopólio de seus privilégios.

A partir de então, o longa passa a desenrolar seu roteiro visando discorrer acerca do conflito vida doméstica vs. vida selvagem (nas ruas). Max, devido a um acidente, acaba indo parar na carrocinha e, depois, envolvendo-se com uma gangue de animais, encabeçada por um enfurecido coelhinho, que prepara uma revolução contra os animais presos a humanos ou, mais precisamente, contra a vida doméstica. O que poderia resultar em uma inteligente crítica social, todavia, não passa da mediocridade e, mais do que isso, do conservadorismo, já que, todo o tempo, somente a vida doméstica é apontada como ideal. Basta reparar que até mesmo a revolução é meramente justificada pela vingança de animais abandonados por seus donos. O morador de rua, que como tal decide viver não tem voz nesta fábula.

Além disso, falta um peso emocional ao filme. Ao contrário do que se via, por exemplo, em clássicos da Disney, como A Dama e o Vagabundo, mesmo a carrocinha não parece uma ameaça tão grande ao bem-estar dos cachorros. É como se o filme temesse estimular qualquer temor em seu público, por isso mesmo soando pouco convincente e, na ausência de um forte apelo emocional, com o qual o espectador possa se identificar, fica difícil se importar, realmente, com o destino de Max e sua turma. Fora a excessiva correria, a diversão fica por conta do carisma da gangue revolucionária e da trupe de animais que se propõe a resgatar Max. No mais, tudo também é bastante previsível.

Assim, tem-se, como produto final, uma obra que representa, perfeitamente, o senso comum quanto ao público para o qual animações devem, predominantemente, se dirigir. Divertidinho, com personagens fofos e com uma lição mastigada sobre como viver nas ruas vai contra os bons costumes. Convenhamos, essa vida nada tem de secreta.

Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets), EUA – 2016
Direção: Yarrow Cheney, Chris Renaud
Roteiro: Cinco Paul, Ken Daurio, Brian Lynch, Simon Rich
Elenco: Louis C.K., Eric Stonestreet, Kevin Hart, Jenny Slate, Ellie Kemper, Albert Brooks, Lake Bell, Dana Carvey, Hannibal Buress
Duração: 87 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.