Crítica | Philomena

philomena

estrelas 3,5

Ainda surgem filmes que rompem com fórmulas de sucesso, orçamentos astronômicos, efeitos especiais, 3D e quaisquer outros modismos e conseguem fazer sucesso comercial. Às vezes merecido, às vezes, não. Philomena pertence ao primeiro time. Esta modesta produção inglesa, que custou pouco mais de US$ 10 milhões para ser produzido (orçamento pra lá de irrisório nos dias de hoje, mesmo para padrões de produção nacional, diga-se de passagem), conquistou as plateias do mundo todo, e já faturou mais de US$ 80 milhões. É claro que este número está longe das cifras ao redor dos US$ 200-300 milhões de blockbusters como Thor e semelhantes, mas representa um robusto sucesso para um filme independente que se desenvolve na tênue linha entre a comédia e o drama.

Co-escrito e protagonizado por Steve Coogan, o roteiro baseia-se numa incrível história real. Das personagens principais foram mantidos inclusive os nomes. Coogan interpreta o jornalista Martin Sixmith e Judi Dench a personagem-título que, após 50 anos, resolve contar à filha que ela tem um irmão, nascido quando Philomena ainda era muito jovem, e que dela foi tirado e dado em adoção. Passado este tempo todo, ela está disposta a encontrá-lo de qualquer maneira. Por estas coincidências da vida real, que parecem coisa de filme, sua filha acaba conhecendo Sixmith em uma festa, e lhe propõe ajudar sua mãe nesta empreitada, o que renderia uma boa matéria. Recentemente desempregado, mas não muito entusiasmado em princípio com a proposta de escrever um ensaio de “interesse humano” – que definitivamente não é sua praia, ele acaba cedendo, e surge daí a história que vamos acompanhar no filme.

O diretor inglês Stephen Frears é um veterano, e conhecido também pela sua versatilidade. A história de Philomena Lee – que recentemente foi notícia novamente, por haver se encontrado pessoalmente com o Papa Francisco I – tem elementos que poderiam nas mãos de outro diretor ter trilhado o caminho de um tearjerker como dizem os americanos – filmes para fazer chorar. Mas o humor sutil que brota em vários instantes da relação que se estabelece entre Sixmith e Philomena, é inesperado e torna a história, embora imensamente tocante e humana, leve e muitas vezes divertida. Este humor inesperado do filme, principalmente para aqueles que já conheciam em linhas gerais a história que ele conta, foi o principal responsável por seu sucesso imediato quando lançado no Festival de Veneza ano passado.

Talvez o  único clichê presente nesta relação seja o fato de suas posições opostas no que concerne à religiosidade. Sixmith é um ateu convicto, enquanto Philomena ainda preza sua fé católica, apesar das agruras que sofreu no convento em que foi confinada pelos pais em consequência de sua gravidez “constrangedora”. À medida que a história se desenvolve, é natural que o jornalista chegue ao ponto de irritar-se com a fé inabalável de Philomena. Mas através de Sixmith, nós como público, passamos pelo mesmo processo de aprendermos a compreender e respeitar a visão de mundo, as decisões e a aceitação resignada de Philomena frente a fatos aparentemente tão revoltantes e indignos.

Não é preciso nem comentar que Judi Dench está excepcional em sua interpretação. Talvez Coogan surpreenda, não sendo um rosto assim tão popular para nós brasileiros, de quem muitos nem lembrem de haver visto em algum outro filme. Além de ator, sua incursão como roteirista foi exitosa, já havendo lhe rendido o prêmio no Festival de Veneza 2013.

Philomena é um filme perfeito para o público adulto – de todas as idades, não necessariamente as de seus dois protagonistas – tão carente de opções hoje em dia nos cinemas. Leve, sutilmente divertido, profundamente humano, e com uma boa história para contar, Philomena talvez fique ofuscado frente à enxurrada de “filmes do Oscar” nesta época do ano, ainda mais considerando-se que 2013 foi uma safra excelente para filmes em língua inglesa. Mas suas qualidades de filme à moda antiga, ancorado basicamente no roteiro e atuações, garantem sua opção como um bom programa na sala escura.

Philomena (Philomena) –  Inglaterra/Estados Unidos/França, 2013
Direção:
Stephen Frears
Roteiro: Steve Coogan, Jeff Pope
Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Ruth McCabe, Peter Hermann, Sean Mahon, Anna Maxwell Martin, Michelle Fairley
Duração: 95 minutos

SIDNEI CASSAL. . . .Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha, mantenho o blog cineblogdosid.blogspot.com