Crítica | Phoenix

estrelas 3

Fênix é conhecida como a ave que, após morrer e ser carbonizada, renasce das próprias cinzas para uma nova vida. Nesse filme alemão, dirigido por Christian Petzold, o nome remete também a um bar em Berlim, que acaba de se render e está renascendo da própria ruína, tentando não morrer de fome, de sede e de vergonha por uma guerra sanguinária que dizimou o país.

Petzold já havia abordado um tema parecido em Bárbara, onde a personagem, uma médica, tenta fugir para a Alemanha Ocidental mas acaba transferida para uma clínica no interior da Alemanha Comunista onde sua vida muda drasticamente. O filme, por sinal, foi o candidato da Alemanha para o Oscar de 2012.

Em Phoenix o diretor toca em feridas ainda mais profundas e adapta o livro francês Le Retour des Cendres, de Hubert Monteilhet para as ruas berlinenses com um apuro técnico e com pitadas de filme noir e Um Corpo que Cai.

A trama gira em torno de Nelly Lenz (Nina Hoss, quinta parceria dela com o diretor), uma judia, presa em um campo de concentração que após o fim da guerra retorna para Berlim totalmente desfigurada. Após passar por uma cirurgia de reconstrução de face, Nelly tenta reconstruir os pedaços de sua antiga vida. A amiga Lene (Nina Kunzendorf) tenta convencê-la de que viver na Palestina e construir uma nova vida lá é a melhor saída para a sua condição. Mas Nelly quer ir em busca de seu marido Johnny, que ela não vê desde que foi presa e enviada para Auschwitz.

O problema é que Johnny (Ronald Zehrfeld) é também um dos principais suspeitos de ter delatado Nelly e ser o responsável direto pela sua prisão. Será no Phoenix que Nelly encontrará seu amado, porém, ele não a reconhecerá. Achando que a esposa está morta e de olho na sua herança, Johnny chama Nelly para participar de um golpe e passa a “transformá-la” na sua esposa falecida.

O jogo que se forma entre a verdadeira Nelly e a falecida esposa de Johnny prende o espectador de uma forma tensa e emocional. Mesmo sabendo que o marido teve culpa na sua prisão, Nelly, a mulher ainda apaixonada, se ilude com a esperança de ter sua vida de volta. A vida que a guerra e o marido a roubaram de uma forma tão traumática.

Johnny desenvolve um plano tão espetacular que o cega diante da verdade que está na sua frente, de que Nelly não morreu e que está ali, viva, buscando entender o seu passado e dando um voto de confiança a ele.

O final é um soco no estômago. Do espectador, do marido e das pessoas envolvidas na cena final. Redentora, avassaladora e ao mesmo tempo libertadora. Um filme que mostra que, apesar de um pouco adormecido nos últimos anos, o cinema alemão é ainda uma grande fábrica de histórias incríveis, forjadas na guerra, na dor e na tristeza. E não é daí que saem as melhores histórias mesmo?

Phoenix – Idem, Alemanha/Polônia – 2014
Direção: Christian Petzold
Roteiro:  Christian Petzold e Harun Farocki
Elenco: Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Nina Kunzendorf, Michael Maertens, Imogen Kogge, Uwe Preuss, Daniela Holtz e Jeff Burrell
Duração: 98 min.

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.