Crítica | Pietr, o Letão, de Georges Simenon

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Cada povo tem seu cheiro, execrado pelos outros povos.

Nascido em Liège, Bélgica, no ano de 1903, Georges Simenon começou a trabalhar cedo como escritor. Aos 16 anos já assinava artigos sob o pseudônimo “G. Sim.” para um jornal de sua cidade, tendo predileção por inquéritos policiais. Aos 19, começou uma longeva criação de esquetes humorísticos sobre o pseudônimo de “Monsieur Le Coq”, tendo aí um grande contato com os muitos tipos de grupos sociais e tribos urbanas, conflitos políticos nacionais e internacionais, posições ideológicas, generalizações culturais e tantas outras ideias, escolhas e caminhos socialmente expostos que vemos na fauna urbana de uma grande cidade. Isso permitiu ao jovem Simenon juntar um vasto material que seria utilizado em obras futuras.

Em 1931, após terminar um curso de medicina forense, Simenon começou a escrever aquele que seria o romance de estreia de seu personagem mais famoso, o Comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária Francesa, em Paris. Apesar da descrição imponente que o autor faz de seu personagem, Maigret é facilmente identificado como um “homem comum”, um policial humano, cético, com doses de olhar esperançoso para algumas coisas e respeito à própria intuição. Diferente de grandes detetives já estabelecidos na literatura (C. Auguste Dupin, Sherlock Holmes e Hercule Poirot), Maigret não é o tipo excêntrico. Ele tem seus vícios, manias e características que o tornam imediatamente reconhecível como usar sobretudo, chapéu, fumar cachimbo o tempo inteiro, gostar muito de beber cerveja (mesmo na hora do trabalho) e de ambientes aquecidos.

Nesta primeira história o vemos atravessar Paris e cidades vizinhas em busca do letão do título, um homem do qual o detetive tem apenas uma descrição detalhada e que fizera questão de decorar. Aqui é importante que o leitor tenha em mente que estamos falando de um livro escrito em 1931 (mesmo ano em que Simenon lançou mais outros 9 livros com o Comissário Maigret), logo, não temos métodos muito precisos de exposição da figura de um procurado e essa dificuldade se entrelaça com a primeira fase da “caça” de Maigret ao estelionatário internacional que a polícia procura já há algum tempo. Temos a impressão de algo grandioso acontecendo, impressão que infelizmente vai se diluindo a algo mais pessoal, ligado ao letão, a Mortimer e aos personagens que rondam a cena, o que não é algo ruim, mas tira a visão de grande rede de máfias administradas com expertise pelo misterioso protagonista que logo sabemos ser um mestre nos disfarces.

Enquanto investiga os passos de um suspeito — após uma certa “confusão de rostos” — no início, Maigret não tem muita certeza do que está acontecendo. O Comissário é desnudado na narrativa, tendo a cada novo capítulo um detalhe a mais sobre sua personalidade, chegando ao clímax na emocionante cena em que ele se vê diante de uma grande tragédia envolvendo um amigo e parceiro da polícia. O leitor também se delicia com a prosa divertida de Simenon, que até o momento da grande perseguição e prisões que ocorrem no final da obra mantém viva o tempo inteiro a atenção do público, com uma maneira cínica e bastante realista de descrever oum novo ambiente ou a impressão que um personagem tem ao chegar nele. Nas diferentes cenas abaixo, destaco a variedade de elementos que o autor considera e a forma como ele os une para nos dar uma noção dos respectivos espaços.

Uma espelunca mal iluminada com paredes sujas e um balcão sobre o qual um punhado de bolos secos mofava e três bananas e cinco laranjas pelejavam para formar uma pirâmide.

[…]

Verdade que o cheiro de comida impregnava o ambiente. Salames flácidos, num cor-de-rosa feio, espetados com alho. Numa travessa, peixes fritos boiando num molho azedo. Pontas de cigarros russos. Chá no fundo de meia dúzia de xícaras. E lençóis de cama e roupa branca parecendo ainda quentes, bolores de quarto nunca arejado.

Conforme o livro avança e a investigação ganha ares violentos e cativantes — toda a sequência da chuva torrencial em Paris é soberba — nós temos a impressão de estar cada vez mais fechando o cerco em torno dos suspeitos, saindo da citada impressão internacional do início da obra para nuances particulares. Digamos que até o último momento de Maigret no Hotel do porto, o Chez Leon; ou seja, nos capítulos 17 (A Garrafa de Rum) e 18 (O Lar de Hans) são os menos interessantes da obra por adotarem uma toada muito mais calma que o restante do livro e em uma narrativa de confissão com poucas interferências do narrador arrastando-se mais do que deveria, inclusive com detalhes que não entendemos por quê estão lá ou por quê se repetem tantas vezes na narração do capturado no rochedo.

Esse passo atrás nos capítulos de revelação da farsa podem ser relativizados por leitores que gostaram mais da obra como uma forma de o autor lançar mão de uma sequência propositalmente teatral (e de fato temos essa impressão), com o prisioneiro se embebedando ao lado do Comissário, que faz uma pergunta ou outra e ouve o tempo inteiro, observando o nervosismo, os tiques, a embriaguez e o ato final de seu interlocutor, algo sobre o qual tenho sentimentos mistos. Por um lado, não penso que Maigret deixar aquele evento derradeiro acontecer fez jus àquilo que ele vinha mostrando até então, ou mesmo ao seu cargo na polícia. Por outro lado, a deixa que o autor nos dá sobre a ligação entre prisioneiro e policial em um longo interrogatório… ou claras alusões à humanidade de Maigret talvez expliquem o fato de ele ter permitido aquilo. A ação moralmente problemática me trouxe à mente uma futura ação de Poirot em O Assassinato no Expresso do Oriente, embora no presente caso a permissão tenha maior peso porque Maigret não é um detetive particular.

Repleto de passagens capazes de nos deixar ansiosos pelo que vem a seguir e com uma investigação que avança para um rumo familiar e social bastante curioso (abordando famílias disfuncionais, crime organizado, vampirismo emocional, relacionamentos abusivos, imigração, racismo e xenofobia), Pietr, o Letão é uma boa obra de introdução a um grande personagem da literatura e que, apesar de suas maiores falhas justamente nos capítulos de resolução do caso, vale pela engenhosidade com que nos leva de uma confusão de rostos em uma estação de trem para um labirinto de personalidades, encontros públicos às escondidas, diversos assassinatos, infames suspeitos e patéticos fins de grandiosos bandidos. Uma verdadeira sopa de bons elementos literários em uma obra de estreia.

Pietr, o Letão (Pietr-le-Letton) — Bélgica, 1931
Autor: Georges Simenon
No Brasil: Companhia das Letras, 2014
Tradução: André Telles
168 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.