Crítica | Pina

estrelas 5

O que me interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que as move.

Pina Bausch

Anda circulando pelas alcovas que o documentário-homenagem de Wim Wenders a uma das coreógrafas mais importantes do século XX, Pina Bausch, é um filme cifrado, “entendido” apenas pelos que possuem alguma ligação com a dança. Dizem ainda que os números apresentados pelos bailarinos são inferiores a qualquer dança de rua que já viram e que não há sentido algum no modelo narrativo do filme, que acaba não biografando nada. Bem, para estas pessoas que não viram em Pina um hino à arte do movimento, do corpo humano e do sentimento, peço que verifiquem os pulsos e o peito e certifiquem-se de que seu coração ainda bate.

Em sua mais nova obra, Wim Wenders rompe com a linha documental mais cômoda para ele, a linha investigativa e crítica, irônica, observadora e pedagógica trabalhada em películas como Quarto 666Tokyo Ga e Buena Vista Social Club. E Pina, diretor nada para a uma outra margem e documenta a vida de uma artista através da arte no próprio filme. Para acompanhar a nova abordagem, Wenders escolheu outro novo formato e executou pela primeira vez um filme de arte em 3D. O uso da tecnologia aprofunda as molduras dos quadros internos, recria espaços, destaca e relaciona objetos em movimento e sugere novas possibilidades de interpretação para alguns números, em especial, os solos.

O documentário não aborda a vida de Pina Bausch através de depoimentos dela, seu cotidiano ou relação diária com os integrantes do Wupperthal Tanztheater, companhia criada por ela em 1973. Tampouco faz uma coleção de depoimentos e cenas de apresentações realizadas há muito. A vida da coreógrafa é contada através de quadros de suas peças, reproduzidos pelos integrantes da companhia que ela legou ao mundo. Ao passo que as apresentações acontecem pela primeira vez sem a presença de Pina, ouvimos um único depoimento dos dançarinos sobre quem era sua mentora, a mulher que rompeu com o balé clássico, rejeitou a tradição e retrabalhou a dança moderna, criando algo comumente definido como teatro-dança.

A história de Pina nos é apresentada por sua herança artística. Não são necessárias dezenas de fotos de infância, linhas do tempo, conversas com familiares e narrativa linear. A cada apresentação e a cada impressão da artista que os dançarinos tecem, uma nova peça do quebra-cabeça se encaixa. No fim, temos um retrato metalinguístico e sensorial que pode parecer estranho, mas que se apreciado com atenção, traz um grande número de reflexões sobre nós, como indivíduos, além de um encanto quase infantil sobre a artista, a dança e a relação entre os corpos.

A aura criada por Wim Wenders no filme é psicológica e inquisitiva, atinge a cada espectador com significados diversos, mesmo que nenhuma dança precise ser dotada de significado. A montagem de atrações funde maravilhosamente os espaços desconexos e a edição e mixagem de som retrabalham constantemente seu impacto e função dramáticas, de modo que o filme consegue ser leve e dar uma impressão quase nula de tempo percorrido. Mesmo para os que são totalmente alheios ao mundo da dança, Pina se apresenta como uma experiência sensorial tão agradável que é quase impossível não acompanhar alguns números e terminar a sessão sentindo-se leve, ou como se pudesse explodir de sentimentos a qualquer instante.

O que vemos na tela é uma mistura de tudo. Não se trata de “dança moderna” pura e simplesmente. Trata-se e uma expressão de vanguarda que comporta técnica, colagem musical, contundência cênica e sentimento, daí, vê-se que o tipo de espectador que o filme atinge com mais facilidade e de forma mais intensa. Como a princesa Lherimia que Pina Bausch interpreta em E La Nave Va, de Fellini; ou como a sua dançarina em Fale com Ela, de Almodóvar, o espectador é convidado a exalar sentimentos, interpretar os números cênicos, aplicar sua experiência visual ou sentimental, dar funções e ritmo próprios ao caos ordenado da tela. Talvez isso seja exigir demais de alguns espectadores, ou talvez não apresente sentido algum para uma parte do público, mas nesse ponto, já não estamos falando do filme e sim de amor/relação de cada um com a arte, logo, concluímos que esse documentário só pode ser admirado, nem que seja minimamente, por seres humanos vivos e abertos a qualquer manifestação cultural, uma espécie em crescente e lamentável extinção.

Pina (Alemanha, França, Reino Unio, 2011)
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.