Crítica | Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra

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estrelas 4

Antes de ter todo o Universo Cinematográfico Marvel à sua disposição, a Disney basicamente tinha apenas a Pixar produzindo obras bem-sucedidas, visto que suas próprias animações originais, salvo algumas exceções, não iam tão bem quanto outrora. A ideia de criar um roteiro baseado na clássica atração do Disneyland, Piratas do Caribe, surgiu, então, em 2001, tendo seu roteiro reescrito até chegar na versão que conhecemos. Comandado por Gore Verbinski, o longa-metragem foi um inesperado sucesso, gerando uma (desnecessária) franquia de cinco filmes, que ressuscitou os velhos filmes de piratas da era de ouro de Hollywood.

Com a dose certa de fantasia, somos levados para o caribe da época dos piratas, mais especificamente para Port Royale, onde Elizabeth Swan (Keira Knightley) é sequestrada pelos tripulantes do lendário navio, o Pérola Negra, todos afligidos por uma terrível maldição que os transforma em mortos-vivos. Na esperança de quebrarem tal feitiço, eles precisam da peça de ouro em posse de Elizabeth e do sangue de um Turner. Desesperado pela captura de sua amada, Will Turner (Orlando Bloom) pede a ajuda do capitão Jack Sparrow (Johnny Depp), um pirata que diz saber como encontrar o Pérola Negra e seu capitão, Barbossa (Geoffrey Rush). Os dois partem, então, em uma jornada sem saber exatamente em quem podem confiar.

Um dos elementos que garantem a identidade de A Maldição do Pérola Negra é justamente o constante tom de instabilidade oferecido pela personalidade de Sparrow. Em momento algum sabemos, ao certo, quais são os seus planos e de que lado ele está. Ele é um poço de antíteses, oscilando entre uma figura épica e o bêbado caído na beira da rua, algo que é perfeitamente simbolizado pela sua magnífica introdução, no topo do mastro de um barco afundando. O que o torna uma figura tão instigante é o fato de não estarmos certo se existe alguma verdade por trás de suas loucuras. Depp, no papel que definiu sua carreira (seja isso algo bom ou não), acerta em cheio, transmitindo um ar de malandragem, sem grandes exageros como os que veríamos nas sequências. Apesar de ser caricato, conseguimos acreditar em sua persona e por trás de todos os seus trejeitos enxergamos a inteligência do personagem.

Ouso dizer, porém, que o verdadeiro brilho, quando se trata do elenco de Piratas do Caribe, é Geoffrey Rush, que consegue extrair certeiras risadas dos espectadores através de sua eloquência misturada com gírias, abreviações e gritos, muitos dos quais não entendemos exatamente o que ele fala, mas sabemos qual a mensagem. Como Barbossa ele representa a figura clássica do pirata, dos contos infantis, tornando-o a antítese perfeita do malandro Sparrow. Verbinski aproveita o talento do ator ao máximo, trazendo closes que ressaltam o trabalho de expressões faciais de Rush, que, como ninguém, consegue entregar um “olhar malvado” cheio de personalidade.

Verbinski, claro, que um ano antes dirigira O Chamado sabe trabalhar com toda a temática, valorizando ao máximo o excelente desenho de produção, que realmente nos transporta para tal época. Com o uso constante de panorâmicas, dispensando excessivos cortes, o diretor nos proporciona excelentes sequências de ação, as quais imprimem o necessário tom épico da obra, marcadas, claro, pela memorável música tema composta por Klaus Badelt. Por vezes Verbinski exagera na exposição, especialmente quando temos os piratas mortos-vivos em computação gráfica, o que torna o filme datado – felizmente são poucas as ocasiões, por mais que uma delas seja especialmente desnecessária, fazendo parecer como se tivesse saído direto do brinquedo da Disney.

Outro problema que assola o longa-metragem é a sua duração. Com algumas sequências de ação exageradamente longas e outras inteiramente desnecessárias, como o vai e vem no ato final da obra, a narrativa se torna cansativa. Não a ponto de destruir nosso aproveitamento da obra, mas nos fazendo olhar mais de uma vez para o relógio, ao passo que os diversos atos do longa se tornam evidentemente distintos. Felizmente, essa oscilação do ritmo se resume ao terço final da projeção, mantendo o restante como divertimento puro, que nos faz ansiar por mais aventuras da trupe, ainda que, nesse caso, menos seja mais.

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, apesar de seus notáveis deslizes, continua sendo um grande acerto da Disney, que nos joga de cabeça nesse universo de piratas e maldições do mar. Gore Verbinski, aliado de Johnny Depp e Geoffrey Rush garantem a distinta identidade dessa obra, tornando-a verdadeiramente memorável, algo que, infelizmente, não foi repetido nas sequências. O capitão Jack Sparrow, foi, portanto, desde já, gravado no imaginário popular, se tornando um dos grandes personagens dos anos 2000.

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl) — EUA, 2003
Direção:
 Gore Verbinski
Roteiro: Ted Elliott, Terry Rossio
Elenco: Johnny Depp, Geoffrey Rush, Orlando Bloom, Keira Knightley, Jack Davenport, Jonathan Pryce, Lee Arenberg,  Mackenzie Crook, Damian O’Hare
Duração: 143 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.