Crítica | Piratas do Caribe: O Baú da Morte

estrelas 3,5

Ao longo da história do cinema, nós tivemos alguns vilões ou anti-heróis que marcaram mais as obras às quais pertencem do que o próprio protagonista em si – esse é o caso de Star Wars, O Silêncio dos InocentesO Cavaleiro das TrevasPiratas do Caribe: O Baú da Morte, embora Davy Jones certamente não seja tão memorável quanto os outros citados. Seguindo o sucesso de A Maldição do Pérola Negra, sua sequência foi logo encomendada, como segunda parte de uma trilogia, com a segunda tendo sido filmada em conjunto. Embora Jack Sparrow ainda continue chamando a atenção, é Jones que faz O Baú da Morte ser memorável.

A trama tem início não muito tempo depois dos eventos do primeiro. Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swan (Keira Knightley) estão prestes à se casar, quando Port Royal é tomado pela Companhia Britânica das Índias Orientais, comandada, no local, pelo Lorde Cutler Becket (Tom Hollander). Becket, então, os prende e oferece o perdão a ambos caso Will consiga adquirir a bússola de Jack Sparrow (Johnny Depp). Enquanto isso, o pirata se encontra desesperado, pois Davy Jones (Bill Nighy) o está caçando, em razão de um trato realizado com Sparrow treze anos antes. Para se livrar dessa maldição, eles precisam encontrar a chave que abre o baú contendo o coração de Jones, único jeito de dominar ou matar o capitão do Holandês Voador.

Um dos aspectos mais interessantes da franquia Piratas do Caribe é a forma como as lendas do mar são utilizadas para compor esse universo que mistura a fantasia e a realidade. O primeiro filme fizera isso com o ouro amaldiçoado e esse segundo faz algo similar com Davy Jones e o Kraken, nos lembrando imediatamente da famosa frase que preenchia os cantos não explorados dos mapas: “here there be monsters”. Com a ausência de Geoffrey Rush no elenco (ao menos até os minutos finais),  os roteiristas, Ted Elliott e Terry Rossio, precisavam de alguém à altura de Sparrow para ir de encontro ao pirata e Jones foi a escolha perfeita, tanto pela sua caracterização, quanto pelo homem que vive o personagem.

Com um surpreendente uso da computação gráfica, que transforma Bill Nighy em um ser com cara de polvo e garra de caranguejo, o antagonista toma forma e sua aparência, por incrível que pareça, se sustenta até hoje (exceto a sequência ridícula dele tocando órgão com os tentáculos). Nighy traz um sotaque carregado, que não faz dele apenas uma figura ameaçadora, como única, correspondendo ao seu visual ousado, que foge do simples esqueleto utilizado na obra anterior. Ouso dizer que as sequências que trazem tal personagem com diálogos, são tão engajantes quanto as peripécias do próprio Sparrow – prova definitiva da qualidade do vilão.

O roteiro, infelizmente, não recebe tamanho cuidado em todas as suas partes. Herdando um dos problemas do primeiro filme: a duração prolongada, O Baú da Morte se estende por duas horas e meia, tornando essa uma aventura desgastante, com sequências inteiramente desnecessárias, como a dos canibais na ilha, que poderia ser cortada inteiramente. É curioso, pois a escala aumentou, mas o tempo extra não é gastado para se aprofundar nas maquinações de Becket ou de Jones e sim com trechos dispensáveis que nada influenciam na história. Em razão disso, alguns aspectos se tornam confusos, já que não recebem o necessário foco, enquanto outros soam corridos demais, vide toda a interação entre Will e seu pai.

Felizmente, todo o elenco continua dando o seu máximo. Depp continua excelente como Sparrow, a tal ponto que parece ter filmado as sequências dessa obra juntas com a de sua antecessora. Bloom, por sua vez, se entrega ainda mais no papel de Turner, que o tira do mero coadjuvante, dando ainda mais importância para o personagem. Tom Hollander é outro que impressiona, mesmo com poucas cenas ele consegue se demonstrar ameaçador e a sua baixa estatura o coloca como uma espécie de Napoleão, conseguindo demonstrar o poder que tem nas mãos apenas através de seu modo de falar e sua constante calma. Ao lado de Nighy como Jones, ele é outro dos pontos altos desse filme.

Não podemos esquecer, também, da memorável caracterização do Holandês Voador e de seus tripulantes. Mesclando crustáceos com seres marinhos, todos eles ganham fortes identidades visuais, não sendo tão esquecíveis quanto os esqueletos do primeiro filme. Chega a ser impressionante como esse visual se sustenta, mais de dez anos depois, tanto nas tomadas diurnas quanto nas noturnas. Aliás, Verbinski e seu diretor de fotografia, Dariusz Wolski, são mestres nesse quesito, sabendo trabalhar com cenas noturnas sem torná-las excessivamente escuras, utilizando os cenários e personagens molhados e a luz do luar para justificar a presença da luz. Dito isso, a noite é um elemento essencial para construir a sensação de claustrofobia que sentimos no Holandês Voador.

Piratas do Caribe: O Baú da Morte, portanto, pode contar com mais deslizes que seu antecessor, A Maldição do Pérola Negra, mas isso não quer dizer que não seja um filme memorável, com um excelente valor de produção, que traz personagens icônicos além do próprio Jack, que já fora introduzido no anterior. Mesmo com seus defeitos, é um filme que diverte e que conta com um visual consideravelmente mais sombrio, expandindo a mitologia da franquia consideravelmente, introduzindo um vilão que certamente ofusca o protagonista.

Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest) — EUA, 2006
Direção:
 Gore Verbinski
Roteiro: Ted Elliott, Terry Rossio
Elenco: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Jack Davenport, Bill Nighy, Jonathan Pryce,  Lee Arenberg, Mackenzie Crook, Kevin McNally, David Bailie, Stellan Skarsgård, Tom Hollander, Naomie Harris,  Martin Klebba, David Schofield
Duração: 151 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.