Crítica | Piteco – Ingá

estrelas 4,5

O simpático e aventureiro caçador da aldeia de Lem conhecido como Pithecanthropus Erectus da Silva (ou Piteco, para os leitores), foi criado por Mauricio de Souza em 1963, numa tira feita para um jornal da cidade de Bauru (SP). O personagem contou desde sempre com a presença de Thuga em sua vida, uma espécie de pretendente stalker que vivia planejando mil e uma maneiras de se casar com o caçador, mas nunca conseguia capturá-lo (sim, essa é a palavra correta) ou, em alguns casos, convencê-lo a “aquietar-se”.

Foi com base nessa ideia de liberdade pessoal presente desde os primórdios das histórias do Piteco que o paraibano Shiko se baseou para construir o enredo de Ingá, a graphic novel que encerrou a primeira fase do selo Graphic MSP. Na história, Piteco se vê diante de um dilema pessoal e social ao mesmo tempo. O seu povo está em migração. O rio da aldeia secou e não há mais possibilidade de plantio de sementes. Os animais para caça também rarearam. O tempo de uma profecia é chegada e Thuga, aqui refigurada por Shiko em alguém de extrema importância para a aldeia, irá ser a cabeça de uma caçada um tanto… diferente.

O povo de Lem ouve sobre o seu futuro.

De forma irônica é Piteco quem vai atrás de Thuga na história de Ingá, um cenário histórico-mitológico que traz elementos do monumento Itacoatiara da Pedra do Ingá, que de fato existe e fica no Estado da Paraíba. Criaturas do folclore brasileiro são elencadas por Shiko ao longo da aventura, como o Arapó-paco (Curupira), o M-Buantan (Boitátá) e o Camazotz, o “morcego da morte” dos índios da Mesoamérica. Essa adaptação de mitologias e encontro de deuses brasileiros ou não trouxeram uma grande riqueza à trama, que também pode ser vista como uma boa história de terror.

Aliás, o ambiente selvagem, a presença de profecias ancestrais, os bichos gigantes e as ameaças dos Homens-tigre fazem de Ingá uma saga de horror e amor ao mesmo tempo. Por um lado há o medo do desconhecido; por outro, a determinação de ir adiante a despeito de todos os percalços. O amor de Piteco por Thuga (jamais com “aparência adocicada” no roteiro de Shiko, o que foi uma escolha acertada do autor) e o apoio de amigos como o inventor Beléléu e a guerreira Ogra (muitíssimo diferente dos quadrinhos originais da Turma do Piteco!) completam os itens necessários para levar a caminhada adiante, uma travessia que será capaz de trazer aprendizado para todos os envolvidos.

Shiko é preciso nos traços humanos e deixa o lápis mais solto quando se trata de animais, seres mitológicos e cenários, à exceção da reprodução e invenção dos traços Pré-históricos que ele mesmo cunha para a sua Pedra do Ingá. Todavia, o que mais chama a atenção do leitor é o incrível trabalho que o artista realiza em aquarela, um estilo usado para arte-finalizar toda a graphic novel. A mistura mais livre e de intensidades diferentes para as cores dão a Ingá uma aparência assustadora e ao mesmo tempo crua, realista, como de fato deveria ser uma história ambientada na pré-História. A arte é de Ingá é uma obra-prima.

O final da história nos apresenta uma reticência não muito bem vinda mas que não tem o poder de nos fazer desgostar do que lemos anteriormente. Trata-se de uma forma de encerramento que deixa algum vazio, quase uma pergunta no ar, algo que não creio ter sido a melhor escolha, mas que não entendo como totalmente à parte da saga.

Assim como começa, Piteco termina de frente para um dilema particular e sociológico, um impasse que pode alçar voo e nos trazer uma outra faceta do caçador numa futura continuação dessa nova empreitada do povo de Lem. Quem sabe?

Piteco – Ingá (Brasil, 2013)
Panini Books e Mauricio de Souza Editora
Roteiro: Shiko
Arte: Shiko
82 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.